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Outubro 2001
Ano III - nº 38

MOAGEM E FARINHADA

Às vezes, acontece a moagem no engenho do pai, no seringal Sabugosa.

Ah! que odores, que sons, que cores, nesses dias de risonhas promessas: a bagaceira, a gente brincando e caindo em cima do bagaço macio, um colchão doce como a cana, dá até doçura na boca.

O boi, com a canga no pescoço, é como se brincasse de "roda". Pachorrento, dócil, ele vai dando voltas e voltas, um círculo tedioso, e abre no chão de terra o seu caminho de rodar. É um desenho permanente: fica no chão, até a próxima moagem.

O cheiro de garapa, depois o cheiro de garapa fervendo na grande tacha, o fogo que faz estalar a lenha e vem lamber a tacha.

O gemer da engrenagem de madeira que os passos circulantes do boi fazem funcionar, a cana nas moendas dando o seu "ai" de dor, espremidas, o caldo escorrendo, a espuma acumulada no cocho, baba verde da cana.

Nhá Quitéria, que nós chamamos Nhá Quitéria-Quituteira, uma cearense de Baturité, traz, pela tarde, o seu tabuleiro cheio de coisas gostosas: milho cozido, macaxeira, batata doce, cuscuz, beiju de tapioquinha.

É um corre-corre para alcançar a tempo as comidas. Copos de garapa adoçam ainda mais essa vida de liberdade e graça.

Açúcar mulatinho é afinal conseguido, após tanta fervura de caldo. Mulatinho porque assim é sua cor, porque açúcar branco, só em fabricação de engenho com refinaria, e isto não existe no Acre. Aliás muito gostoso esse açúcar primitivo, sem artifícios de indústria. Me parece um açúcar tal como a Natureza gosta que seja açúcar.

Lá fora, o vento sopra uma brisa de mansidão por cima do canavial, que estremece preguiçosamente.

Outros bons acontecimentos acompanham tempo no seringal. É ouvir o pai dizer: "A farinha está acabando, é preciso botar caititu pra virar". Sinal de farinhada à vista!

Farinha, o alimento que nunca falta na mesa de qualquer pessoa no seringal. "Seu" Tavares sempre diz que não pode deixar de haver farinha na refeição de seringueiro. Se faltar, é capaz de ocorrer desequilíbrio social.

- Que diabo de desequilíbrio é esse?, perguntei.

- Ouça, Tizinho. Você tem seus brinquedos prediletos, não tem?

- Claro que tenho.

- Então, calcule como ficaria se o Coronel Juca proibisse você de brincar.

- Ora, eu ficaria zangado. Me trancava no quarto. Não comeria, me sentiria triste.

- Então, é o que aconteceria com o seringueiro. Só que ele se zangava de outra maneira, produzindo menos borracha, seu pai se aborreceria. Pronto, eis o desequilíbrio social!

A explicação de "Seu" Tavares foi perfeita.

Porém, farinhada, para mim, é muito mais importante do que tudo isto. Significa a movimentação na Casa de Farinha, atividade que exige uma porção de gente:

para descascar a mandioca, lavá-la e colocá-la no caititu, pequeno rodo dentado que gira, gira, e vai transformando a mandioca numa pasta branca.

Um homem aciona roda gigante, ligada por uma polia ao caititu. Rodar, rodar, roda a roda-gigante, roda o caititu.

Depois a massa de mandioca é prensada, homens de muque apertam, apertam a prensa, sai o caldo, e fica a raspa seca, da mandioca.

Tudo gira, todos correm, e fazem o seu trabalho, eu me meto, com ajuda e curiosidade, nesse meio que parece abelhas em sua colmeia.

O cheiro agreste da mandioca crua, o cheiro bom da mandioca se cozinhando no forno, virando farinha, torradinha, a gente estalando a língua na prova apetitosa.

Um, dois, três dias de farinhada! Sempre é vida e sempre atração, e grande, e que delícia!


(TOCANTINS, Leandro. As aventuras de Tizinho.)

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