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Outubro 2001
Ano III - nº 38

A MANDIOCA, VEGETAL MÍTICO E MIRACULOSO

A mandioca (manihot utilíssima), segundo o naturalista alemão Carlos Frederico Filipe Von Martius, é vegetal mítico, tais as suas utilidades entre as populações sertanejas.

A mandioca é raiz tuberosa desenvolvida, chegando a pesar uma arroba, rica de amido ou fécula. Nada se perde da mandioca: as folhas e o caule (arbusto), o gado come-os. E o caule partido em tolete é o "pau" ou "mandiba", que é lançado nas "covas". Esse "pau" ou "mandiba" é a semente multiplicadora.

- Por que mítica?

- Porque a mandioca, no sertão brasileiro, é o mata-fome do sertanejo: dela faz-se a farinha-de-mandioca; dela faz-se o pão-de-mandioca; dela faz-se a tapioca; dela a culinária africana e selvagem prepara os pratos mais apetitosos; e ainda da mandioca fabricam-se bebidas alcoólicas as mais variadas e saborosas. O cauim, bebida fermentada, temulenta, da mandioca, é muito popular. O alué, bebida fermentada da mandioca, não-temulenta. O açuí, vinho da mandioca, de grande consumo na Amazônia: os botecos, quando têm o produto, põem uma bandeirinha na porta, anunciando que têm o açuí à venda. A tiquira, bebida altamente alcoólica, pela fermentação da mandioca.

Preliminarmente, há duas espécies de mandioca: a amarga e a doce. A mandioca amarga é venenosa (macaxeira) e a doce (aipim) muito gostosa. A macaxeira encerra o ácido cianídrico, veneno violento, e dela se faz a farinha torrada, evaporando-se na torração o veneno. Assada, o veneno também volatiza-se. Aliás, a pressão da "massa", da mandioca ralada é levada ao tipiti, um objeto do artesanato do roceiro, destinado a escorrer a água venenosa Depois, a torração completa.

A macaxeira fornece calorias na base de 396,5 o que se afere no seu valor nutritivo, na dietética dos sertanejos.

A mandioca cerca-se de uma série de fórmulas mágicas religiosas, desde o cultivo até à industrialização tosca. É certo que, desde a lenda explicativa do seu aparecimento, está ela consagrada a representar na sociedade selvagem o papel do vegetal reconhecidamente dotado de atributos divinos. Daí conclui-se a existência de tabus em torno da mandioca.

O mito de que se cerca a fase agrícola da mandioca é curioso e interessante à luz do folclore.

A vegetação da mandioca cerca-se de percalços: estiagem, lagartas, brocas, gafanhotos, formigas e mau-olhado. Portanto, os roceiros devem preservá-la desses transtornos às vezes inevitáveis. A esta altura, entra o mito em cena. Quando se vai realizar a plantação da mandioca, então, o roceiro convoca o aru, um sapo enorme (pipa americana), o sapo controlador das chuvas e da boa colheita, a fim de que me vá buscar a "mãe-da-mandioca". Essa convocação é feita por intermédio de uma pedra milagrosa, chamada pedra-de-uru, pedra-de-roçado ou mãe-da-mandioca. É crença entre o selvagem e o roceiro que, roçado que não é visitado pelo sapo aru não vai para a frente, vira capoeira. Aru, então, se transforma em um rapagão solerte e vai buscar a mãe-da-mandioca, personagem que habita, em regra, a cabeceira dos rios. Mãe-da-mandioca vem e verifica as necessidades do roçado e tudo ficará azul...

Na colheita, as primeiras mandiocas arrancadas são assadas e oferecidas a São Tomé, padroeiro dos roceiros.

Quando o roçado é grande o roceiro apela para o sentimento de solidariedade dos vizinhos para um putirum, ajuri ou ajutório (mutirão). E é uma festa esse sentimento gregário. As cantorias ali cantadas são gozadas:

Vira, vira, minha gente
Quitibum, quitibum!
Rema, rema mais ligeiro
Pra chegá no putirum.

* * *

Mandioca (ou macaxeira) bem ralada
Num selviço pra um
Rela rela minha gente
Vamo fazê putirum!

Vem a véia mais a fia
Vem o pavão do Mutum
Pra dismancho do roçado
No gostoso putirum: quitibum, quitibum!

* * *

Atocha pau na fornaia
Arrigula o caititu
Mexe a farinha negrada
Vamo fazê putirum: quitibum, quitibum!

A casa-de-farinha é um barracão espaçoso (e nem sempre higiênico...), aí se reúnem os farinheiros, quase sempre a família do roceiro, onde se fabrica a farinha-de-mandioca. Em regra as fornalhas acesas só se apagarão quando terminar a safra: trabalha-se noite e dia. No barracão é um alarido contagiante: trabalho e alegria!

Devo salientar que na minha fazendola, no município fluminense de Campos, tornei-me bacharel-mandioqueiro e instalei uma fábrica de farinha-de-mandioca, industrializando a macaxeira. Por isso, procurei-me enfronhar na agro-indústria desse vegetal mítico, abeberando-me nos técnicos e até mesmo nos folcloristas renomados, através de livros seus, monografias, artigos publicados em revistas científicas etc.

Anexins e parábolas referentes à mandioca

Render como a mandioca.
Isso que nem a mandioca.
Só a mandioca que rende assim.
Só a mandioca rende como o "sapinho" na boca das crianças novas!
Aquela conversa está rendendo como a mandioca da várzea.
O partido político conservador é como a mandioca: rende sempre...
Os partidos políticos são como a mandioca: quanto mais cresce e engrossa, torna-se mais valiosa e substanciosa...
A culinária da mandioca é variada e suculenta; assim são os políticos: versáteis como o cardápio da mandioca.
A mandioca, pela fermentação, oferece uma lista longa de bebidas alcoólicas que embriagam: assim é a política, fermenta e embebeda...
A mandioca mata a fome, mas o seu álcool mata a revolta decorrente da fome e da miséria...
A mandioca é como a mulher: a mandioca multiplica-se pelas suas olhaduras do caule; a mulher multiplica-se pelo amor..., ambas trazem em si os elementos da multiplicação...
A mandioca é como o sol. O sol vivifica a natureza através do calor e da clorofila. Sem o sol, a natureza desapareceria. A mandioca, pela sua multiplicidade útil, assegura a vida aos famintos, nas zonas onde impera a fome. Sem a mandioca como poderiam viver quase dois terços de brasileiros?...


(Carvalho, Hernani de. No mundo maravilhoso do folclore)

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