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O ENCONTRO COM O CURUPIRA

Constatei que nas folhas do "diário", encontrado pela mãe, não havia nenhuma sobre o meu encontro com o Curupira. Então me recordo que fiquei impressionado com o duende, ao ponto de nada escrever durante vários dias.

Vou agora procurar reconstituir os fatos.

Até a data marcada, 1º de junho, foi aquela excitação. E de tanta excitação, o pai me indagou:

- Tizinho, por que você está inquieto? Está pensando na viagem para Belém? Ainda faltam seis meses! Você tem muito tempo para brincar aqui no seringal.

Se apossou de mim uma gagueira... Nem sabia responder.

Maria Luzia, uma cearense que tratava das coisas do barracão, limpeza, lavagem de roupa, passar ferro na roupa, dizia à mãe:

- Dona Ritinha, esse menino está com mau-olhado. Precisa de umas benzições com galho de arruda!

A mãe mandou chamar nhá Raimunda, uma cabocla paraense entendida no assunto.

- Precisa, sim, Dona Ritinha. É fazer benzição e o menino se livra desse mau-olhado.

Nhá Raimunda me benzeu o corpo todo. E receitou defumação no meu quarto com algumas ervas secas que ela tinha numa sacola.

Mas o meu mal era outro: ansiedade para saber o que o Curupira queria conversar comigo. Fingi umas melhorazinhas e o dia 1º de junho chegou.

Cedinho, me pus a caminho, escondido de todos. No local combinado, cantei:

Bem-te-vi!

Só uma vez. Num relâmpago, o Curupira estava na minha frente.

Era um menino de cabelos vermelhos, pés virados para trás, com o corpo cheio de pêlos.

- Alô Tizinho, não se assuste. Vamos ter um encontro de amigos, disse o famoso gênio da floresta amazônica.

- Muito prazer, Curupira. Pensei que você fosse um gigante! Você é do meu tamanho e menino como eu!

- Só que eu tenho pés virados e pêlo em todo o corpo, falou o Curupira, dando uma sonora gargalhada.

- É, mas você é poderoso, é o guarda valente de todas estas florestas!

- Isto mesmo, sou o pai da, mata! Ninguém se atreve a derrubar árvore ou atirar nos meus bichos! Castigo eu dou na mesma hora!

- Eu sei disso, interrompi com certo entusiasmo. Você bem que podia dar um pulinho em algumas cidades brasileiras para ver o que aquela gente está fazendo! O pai lê nos jornais do Rio de Janeiro uma porção de barbaridades! Ele vive reclamando contra os "espigões" e a derrubada de pé de árvore!

- Conheço bem o assunto, Tizinho. Por isso, quero trocar idéias. Eu, na floresta, você na cidade. Lutar para que se evite o empobrecimento da Natureza.

- Como assim?

- Olhe, Tizinho, o homem está acabando com o seu meio natural: as árvores, os animais, tudo. E ainda inventaram máquinas que jogam fumaça no ar, detritos nas águas. É a poluição, a grande ameaça à vida.

- Ah, é mesmo, o pai de vez em quando fala nessas coisas!

- Pois é, meu amigo. Conversemos calmamente. Vamos nos sentar à beira do igarapé.

Seguimos. Curupira, na frente. Engraçadíssimo, andando com os pés daquele jeito. Os cabelos vermelhos, caindo nos ombros. De repente, ele me disse:

- Sabe, eu sou brasileiro até a raiz dos cabelos. Fui eu que liderei, por trás dos bastidores, o movimento para convidar Tarzan a sair do Amazonas. Mas isto é segredo!

- Não diga! Exclamei. Bem que desconfiava de alguém atrás das cortinas! Parabéns, você agiu certo.

Sentados à margem do igarapé, refrescávamos nossos pés em águas cristalinas.

- Tizinho, cada vez mais minhas responsabilidades aumentam. Tarefa dura, muito dura, esta de defender mato e bicho contra a malvadeza e a insensibilidade dos homens. Repare que quanto mais se desenvolve a dita civilização maiores são os atos de agressão, contra tudo, contra todos!

- É mesmo! Parece que estou ouvindo o pai falar!, aparteei.

- É porque seu pai é homem humano, bem dotado de inteligência e decência. O mundo precisa de gente assim. Ah! como isto está rareando!

E o Curupira suspirou. Notei nele uma tristeza de cara e de espírito.

- Ando cansadíssimo. Minhas atividades aumentaram tanto e tanto! Ah! Meus bons tempos! Antigamente eu até brincava com os caçadores. Fazia eles se perderem na floresta, quando queriam matar meus bichos. Caçoava deles. Me ria atrás das árvores, vendo o caçador com cara de medo, sem saber que rumo tomar!

- E por que você não continuou brincando, é tão bom! interrompi.

Qual, Tizinho, minhas horas são agora todas dedicadas a uma severa fiscalização. Olho aqui, olho acolá. Não paro um minuto.

- Ora, arranje um batalhão de curupiras para ajudar você.

- Não posso, tenho missão a cumprir. Lembre-se que sou um duende. Só há um curupira. Sou eu. Por exemplo, posso desaparecer numa fração de segundo e aparecer a 300 léguas daqui, mesmo que relâmpago.

Dito e feito. Quando fui me virar para dizer alguma coisa ao duende, onde ele estava? Sumiu.

Então resolvi tirar a roupa e tomar banho no igarapé. Ai, que delícia! O sol mandando uns fiozinhos de luz por meio das folhas, fazia brilho na água que nem pedra preciosa. Água como veludo, tão macia, com pureza de criança em primeira comunhão. Isto, acertei! Era minha comunhão com a natureza.

Em brincar com as folhas, em pular na água, em mergulhar no poço raso, o tempo veio me dizer que passou, e Curupira voltou!

- Ói Tizinho, me desculpe. Tive de me ausentar quase uma hora. Não lhe disse? Meu radar captou estrago de homem em mato lá para as bandas do Purus. Fui até lá.

- E daí?, perguntei curioso.

- Botei os hereges para correr! Imagine que de uns tempos para cá um pessoal do Sul invade os meus domínios, sabe para que, Tizinho?

- Não sei não!

- Ora, ora, para arrasar com a floresta. É botar árvore abaixo e botar e botar.

- Nossa Senhora! E para que essa maldade?

- Para fazer campo. Pastagem. É renda criar gado por aqui. Com isso vai se fazer deserto. A natureza não agüenta, não, estou cansado de repetir. Muda o clima, os rios vão definhando, coitadinhos! Daqui a pouco viram filete d’água.

O Curupira, sentado, apoiava a cabeça com as duas mãos, num gesto dramático.

- Estou tão cansado! dizia. Que luta desigual!

- Que desigual coisa nenhuma, animei o Curupira. Você é duende, e duende pode tudo, tem força, tem coragem, até faz mágica igual à que você fez há pouco, sumindo, viajando léguas num abrir e fechar de olhos.

- É verdade, Tizinho. Mas até as mágicas dão canseira na gente, pois não paro de fazer. Essa gente destruidora me dá um trabalho!

Eu procurava reanimá-lo.

- Olhe, Curupira, prometo, quando eu crescer vou escrever livros, vou fazer discursos, defendendo você, o seu trabalho tão bonito, tão legal!

- Não, não me defenda, não defenda a minha pessoa. Defenda a Ecologia!

- Ecologia? É uma deusa da floresta? Não conheço.

O Curupira deu uma gargalhada tão sonora que cada folha parecia emitir som de um instrumento de orquestra.

- Caro Tizinho, que ingênuo e puro menino! Aprenda, Ecologia é um estudo muito especial, em que entra palavra, ciência, raciocínio, fato e muita coisa mais. É um estudo de planta, do animal, do homem, em relação com o meio ou com o ambiente.

- Ah, então você é um... um ecologista. Vive metido em mato, andando com bicho, brigando com os destruidores.

- Bravos, meu menino! Retiro a classificação de ingênuo que há pouco lhe dei. Você é um menino puro e muito inteligente. E vai me ajudar muito.

Corei de alegria misturada com natural vaidade. E afirmei:

- Isto mesmo, vou fazer tudo para ser um bom ecologista como você. E ainda escreverei livros para defender o seu trabalho, espere só.

Curupira desta vez não riu. Sua fisionomia era grave. Balançou a cabeça, com um suspiro.

- Vá, Tizinho! Vá para casa. Estamos entendidos. Sabia que você é um menino sensível e tem a noção dos valores brasileiros que nos compete defender. Conto cem por cento com o seu trabalho.

E pondo as mãos peludas no meu ombro, falou pausadamente:

- Adeus, Tizinho, até um dia!

E olhando para a copa das árvores:

- Que esta mataria te benza, te proteja, em nome da Ecologia.

- Amém, disse eu, repetindo sem querer o hábito das ladainhas da mãe.

Quando procurei o Curupira, cadê? O danadinho havia desaparecido.

Um perfume de baunilha se espalhou no ar, pousando no meu corpo. Só faltava o canto mágico do uirapuru para me tornar encantado. Cadê o Uirapuru?

O certo é que essa conversa de pé-de-igarapé teve grande influência na minha vida. Muita coisa nova entrou na minha cabeça. Comecei a me sentir ecologista, graças ao Curupira, grande personalidade que o Brasil está precisando dele. De muitos Curupiras.



(TOCANTINS, Leandro. As aventuras de Tizinho.)