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Outubro 2000
Ano III - nº 26

O PRÍNCIPE OBÁ

Foi no tempo da Guerra do Paraguai. A Bahia mandava para a porfia sangrenta falanges de bravos, tornando-se inexcedível no ardor de seu patriotismo.

Por essa ocasião, chegou à capital fluminense, com destino ao sul, uma companhia de zuavos baianos, da qual fazia parte uma montanha preta, um crioulão robusto, chamado Cândido da Fonseca Galvão.

Uma vez na guerra, empenhados na luta, todos se distinguiram pelo valor, salientando-se em Curupati o zuavo Galvão, que, como recompensa de seus feitos, mereceu as honras de alferes do exército.

Referem companheiros seus que a sua fé de ofício é limpa e elogiosa, o que bem confirma a justiça praticada para com ele pelo governo de então.

Terminada a campanha e elevado a oficial, desembarcou no Rio de Janeiro o alferes Galvão, vivendo por algum tempo ignorado, mas entregando-se distanciadamente a excessos alcoólicos.

Desequilibrado por este e outros motivos, a megalomania apoderou-se pouco a pouco de suas faculdades, e o sonho das grandezas jamais o deixou de perseguir, dormindo ou acordado.

Aparelhada a encenação vesânica, compreendeu-se filho de reis, dando-se a conhecer como o príncipe

Obá II da África, tendo por vassalos os negros mina e as quitandeiras do largo da Sé.

Assim identificado com o seu papel, percorria ele as principais ruas da cidade, cumprimentando, distribuindo cortesias e afabilidades de soberano, atravessando de uma calçada para outra, a fim de trocar palavras e rápidas frases com qualquer pessoa distinta que se lhe deparava.

O príncipe Obá era um negro de estatura colossal, usava empinada carapinha, bigode de espesso e cavaignac. Sua voz era vibrante e harmoniosa, seu olhar dominante e altivo.

Tipo de rua, - mais de ver, que de descrever - sua figura tornava-se espetaculosa, de interesse puramente exterior, por isso que, chato e sem graça no diálogo, nos repentes, a sua psicologia ressaltava dos trajos que vestia, dos meneios que lhe eram privativos.

Empavonado em sua insânia dinástica, o príncipe Obá considerava as ruas em geral como vastos salões de seus palácios, como prolongamentos pitorescos dos seus estados.

Em dias comuns, nos seus passeios habituais, envergava comprido croisé preto, calça da mesma cor, imensamente larga e afunilada para as botinas, usava de cartola à banda no alto da gaforinha, completando-lhe a toilette um pince-nez de vidros escuros, luvas de algodão brancas, guarda-chuva debaixo do braço e bengala.

E aqui, ali, acolá, os moleques, os caixeiros e vadios o vaiavam:

- Obá! ó príncipe Obá!...

E o Obá seguia, aprumado o tronco, num bracejo cadenciado, no rasgado do andar, assestando um monóculo, disfarçando o contratempo com um cumprimento de chapéu, um adeusinho com os dedos, a este ou àquele passante que testemunhara o ocorrido.

Devido a sua régia estirpe, à sua sucessão ao trono d'África, o príncipe Obá II recebia lista civil, o tributo de seus súditos do largo da Sé, que tomavam-lhe a bênção, que se ajoelhavam a sua passagem, exclamando muitos, orgulhosos de sua figura e da sua ufania:

- Êh! êh! Se todos os negros fossem assim!...

Qual a origem da submissão absoluta e espontânea dessa gente, explicava um documento de sucessão a um dos tronos africanos que exibia o príncipe herdeiro, documento que lhe fizeram chegar às mãos para certificá-lo da mania, além das proclamações e manifestos (com retrato), publicados nas folhas diárias e lidos por este ou aquele, nas quitandas ou em família.

Nos dias de grande gala, o seu trânsito por entre seus vassalos constituía-se de rigor.

É que estava nos seus hábitos não só comparecer nos sábados às audiências do Imperador, porém ainda às recepções solenes no paço da cidade.

Dom Pedro II, que levava em conta talvez os seus serviços à pátria e considerava-lhe as honras do posto, ordenava que lhe franqueassem a entrada, apesar dos protestos e do ridículo que isso provocava.

Nessas ocasiões, nos dias de cortejo, o nosso Obá II vestia fardão, sacudia as baratas do chapéu armado, uniformizava-se militarmente e a seu modo, sendo um dos primeiros que se apresentavam.

Se acontecia, por engano ou gaiatada, a sentinela bradar as armas ao avistá-lo, o príncipe, da culminância da sua modéstia, abrindo e adiantando a mão, fazendo sinal de calar, despejava-se quase do tílburi em que ia, confuso e sensibilizado.

Ao saltar, porém, no embaraço da emoção, sacava do bolso uma nota de 2 ou 5$000, que dava ao soldado, e subia as escadas do palácio num pacholismo admirável.

E gingava com os braços, compassava a andar, mirava-se todo, retinto, risonho, bonito no seu pacholar!

Instantes mais tarde, aparecia ele nas sacadas, fitava o povo, reconhecia alguém através do monóculo enfumaçado e de aro de ouro.

E da multidão, apinhada no largo, ouviam-se murmúrios pilhéricos, vozes no ar:

- Olha o Obá! olha o príncipe Obá!

Jatancioso de sua posição e de seus brasões, sorria radiante para as turbas, afagava as extravagantes plumas de seu chapéu armado, retraindo-se em breve.

E a família imperial encaminhava-se para a sala do trono, que se achava repleta dos personagens ilustres do cortejo...

O que vamos narrar deu-se há uns vinte anos, supomos num 7 de setembro.

Era da pragmática da corte que o ministério, o corpo diplomático, a câmara e o senado fossem incorporados e por ordem beijar a mão dos imperantes, seguindo-se após outras pessoas de distinção.

Dessa vez, o príncipe Obá II d'África alterou o programa, rompendo a marcha à frente do corpo diplomático.

Vistosamente paramentado, cheio de si, arrastando a espada, inclinou-se reverente diante do Imperador e da Imperatriz, beijou-lhes a mão; chegando-se para a princesa, saudou-a com respeitosa vênia; e para o Conde d'Eu, que se colocara em plano afastado, acenou um adeusinho, verdadeiramente íntimo e cordial.

Retirando-se de costas, de conformidade com os estilos, à proporção que isso fazia, tropeçou na espada, assentando o tacão da botina no pé do internúncio, que,saltando-lhe as lágrimas de quatro em quatro, correu a mão ao longo da perna para sufocar a dor, e proferiu chiando e de queixos cerrados:

- Sacrrr...mento !!...

Mas a pachola do Obá fez como que a coisa não fosse consigo, provocando o incidente natural hilaridade.

Uma tarde o encontramos e disse-nos ele:

- Doutor e patrício, participo-lhe que casei-me com uma princesa africana, porque não encontrei outra que pudesse casar comigo.

Felicitamo-lo pelos régios desposórios e ele continuou seu caminho.

Conta-se que no dia 2 de dezembro que seguiu-se à proclamação da República, o príncipe Obá, como de costume, dirigiu-se ao paço para cumprimentar o imperador; que, encontrando as portas fechadas, ou sendo despedido, enfureceu-se e prorrompeu em vivas e disparates.

O que nisso há de autêntico não afirmamos; o que é certo, porém, é que o governo provisório da República cassou-lhe as honras de alferes, sobrevivendo ele apenas alguns meses a esse desgosto.

Não seria preferível tê-lo feito recolher a um asilo?

No dia imediato ao do seu falecimento, os grandes jornais da capital consagraram-lhe artigos biográficos, cedendo-lhe escolhido lugar na interminável galeria dos tipos da rua.


(MORAIS FILHO, Melo. Festas e tradições populares do Brasil)

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