Outubro
2000
Ano III - nº 26 |
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Volto ao Ceará, desta vez, pelo ar, o que,
se me rouba de muito a sensação de navegar de novo os verdes mares de Mucuripe, me dá
em troca, no entanto, qualquer coisa de iniciação condoreira, nesta minha primeira
arribada a três mil metros de altura. Mas, uma vez no meu velho casarão do Meireles,
tão branco e amigo, todo aberto ao sol e aos pobres, onde metade da minha vida decorreu
sem tumultos nem dores fundas, entro de novo, de uma vez, no pequeno mundo passado que
fica sempre à minha espera, nos anos de ausência dos meus domínios de menino e moço.
Tudo e todos aqui mantém de tal modo inalterável a feição e o carinho dos dias que se
foram que instantaneamente me sinto reintegrado no sereno aconchego de tantos anos da
minha vida, de que parece nem ao menos me apartei.
Filas cariocas, mau-humor constante, cansaço dalma, a canga cotidiana, a miséria
dos marginais, agora não existem, é um parêntese inefável que faço por encher, aos
punhados, de todos os esquecidos amávios dos dias idos.
Também, este é que é mesmo o meu Ceará, incorporado definitivamente à minha
pessoa, o pequenino pedaço de terra maternal onde me criei e me fiz homem, o Ceará das
dunas brancas da vizinhança de Mucuripe, com os seus coqueiros torcidos pelo vento, as
suas ondas de esmeralda profunda, os seus cajueiros de copa redonda como um seio, o seu
luar de tão brancas claridades que me permitiu certa vez a leitura de um trecho de jornal
em plena praia. O Ceará deste sol e deste céu, desta pureza de horizontes e da tocante
simplicidade deste povo; da graça das caboclinhas praieiras e do ímpeto das jangadas na
crista da onda; deste verde das moitas de guabirabas, mofumbo e pinhão bravo, que eram no
meu tempo um matagal cercado e hoje apenas conseguem formar, aqui e ali, dentre as quadras
construídas, um beiral de estrada; destes caminhos de areias que refulgem ao sol, e, à
lua cheia, têm a feição dum rio de prata escorrendo.
Manhã cedo, estou largando a rede (a mesma rede dos meus tempos de rapaz?) e vou olhar do
grande alpendre o dia nascer por cima da copa dos cajueiros e dos leques do coqueiral, por
trás do meu velho amigo e confidente, o farol de Mucuripe, que teve muito, quem sabe, de
culpa na lenta e poderosa germinação dos meus sonhos andejos.
Vejo novamente a faixa do mar que vai passando da pérola do lusco-fusco ao verde denso do
resto do dia.
Para os lados do farol todo ele se incendeia num fulgor de espelho batido pelo clarão da
madrugada. Velas brancas vão rompendo já a tremulina de prata das águas, rumo ao largo.
O céu é em breve todo branco, como nunca vi nenhum outro céu por este mundo; a praia
tomou a sua cor de leite. Por onde era antigamente um trilho de pescadores, entre a salsa
entretecida das dunas, vai passando agora o trenzinho que carrega pedras para o molhe do
porto em construção.
Há muita coisa diversa que me dói, não há dúvida, o leque da praia extensa e alvadia
foi comido pela ressaca, a cidade ronda bem perto, onde era só mato; os jangadeiros já
se chamam de marítimos, tem uma lavadeirinha da beira do córrego, metida num sarong
que é ver Dorothy Lamour. Vejo os caminhos de roda, o da Aldeota, o da Prainha, todos
bordados de casas novas, a rua de paralelepípedos invadindo tudo - até nosso sítio.
Mas, num beco ou noutro, posso voltar ainda a trilhar as mesmas veredas pela safra, um
viveiro buliçoso de namorados; daqui, dali, por cima da mata, rasga-se o conhecido
corcovo branco duma duna, atrás da qual, no recorte das minhas lembranças, deixo fluir
à vontade o ouro das madrugadas mais límpidas da terra, a ascensão da lua pura de
contorno e de claridade, como uma hóstia.
Com o bom-dia da minha gente, o riso cantado de Maria Cabocla na cozinha, o jumentinho que
chegou pelo cabresto de seu Chico, na hora de ir à cidade buscar as comprar como há
quarenta anos; minha irmã que traz do sítio um cesto de atas fabulosas; Marcelina, que
era tão faceira e vem com a filha mais velha bater roupa ao pé do poço lá de baixo -
não duvido mais de que estou nos meus quinze, nos meus dezoito anos, o coração batendo
mais ligeiro à visão das moreninhas bonitas dos arredores, como essa que agora estende a
roupa no coradouro, o jeito leve e o passo gracioso, ou, os braços no ar, levando-as às
cordas de secar, num todo que tem muito de balé.
Do fundo dum velho baú surgem os meus livros de prêmios, um Dom Quixote, uma
famosa História Sagrada, de lindíssimas gravuras coloridas, meus cadernos de
desenhos escolares com a minha perdida arte, tantos números de revistas do meu tempo, e,
acima de tudo, uma ruma colossal de Tico-Ticos de trinta anos, diante da qual logo
se acende a alegria de minhas filhas pequeninas que vão de agora em diante penetrar-se
dos meus encantos de menino, virando sôfregas, como eu, estas gostosas páginas das
proezas do conde Chavagnac e do doutor Alfa no seu mundo dos planetas; as aventuras do Zé
Macaco e do Chiquinho, o eterno Chiquinho de diabruras americanas traduzidas para a
linguagem carioca; o alemão Max Müller e a inesquecível farândola dos bonecos de J.
Carlos, Walt Disney brasileiro, com trinta anos de antecipação ao de Hollywood. E há
também, mais tarde, o renovado sabor das leituras antigas debaixo dos cajueiros, nos
passados volumes do Journal pour Tous, de quase um século, trazidos da Bélgica
por minha avó e por onde começou o meu namoro com as viagens, a descoberta das primeiras
emoções literárias, o prazer sensual das velhas gravuras de Doré e Gavarni.
De cada canto para onde me volto, me dão assim as boas vindas de outro tempo gentes e
coisas, a Ângela de sinhá Mariana e este taboleiro de grama e de cabeças-brancas do
oitão da casa; o galo de campina da mangueira ao lado, e o matapasto que só dá por
aqui; as longas hastes esquisitas dum mato de que nunca soube o nome, com as suas bolas de
espinhos entremeando os talos, e os nossos cajueiros prediletos, com o seu feitio e o seu
gosto vários; o canto da rolinha fogo'pagou que não tarda a bater encandeada no oitão
da casa, com o sol a pino, como a vão encontrar depois minhas filhinhas, desoladas diante
do pequenino cadáver fofo e morno, como ficavam outrora minhas irmãs mais moças; o
largo tapete de folhas da baixada do sítio, onde hoje se levanta a casa de meu irmão
Lauro e era outrora um remanso de sombra meditativa para a minha rede dependurada nos
galhos do cajueiro velhinho e recurvo que ainda lá está, no seu modo derreado de querer
abraçar-me.
Teimosamente do fundo do rio da memória - o rio da infância - não um mar, como quer o
poeta, mas um rio de água fresca e profunda, vem subindo dessa maneira, inexaurivelmente,
a onda viva das recordações, ternura de passados idílicos, desabrochar de anseios
iniciais. Do mesmo passo, como que me ganha também, do contato da terra branca e tépida,
uma seiva nova, um reforço de viço que me dá aos músculos e ao sangue o perdido
alvoroço, num momento esqueço a luta dum quarto de século, batalhando em todas as
frentes da vida - profundamente me penetro do antigo ar de família desta paisagem total -
física e humana, como dum filtro; passando assim a limpo a versão moderna do cansado
mito de Anteu, cheias as mãos à saciedade da água de Juventa desta fonte de afetos,
para a coragem dos dias por virem.
Para que nada falte a recomposição do passado de tão emolientes sugestões, volto a ver
de tardinha o regresso das jangadas de Mucuripe, e logo me sinto repetindo sem querer
estas linhas do meu primeiro livro: "Entanto, outras jangadas acostavam ainda, a vela
panda e molhada, abicando ao sabor do vento. Chegavam assim, vencendo a onda empolada, a Milagrosa,
de seu Lúcio, a Santa Maria, do Raimundo Marinheiro, a Flor do Mar,
do Gonçalo Alves, a do José Batista, que tinha por emblema o sol. A pouca distância da
praia, um dos tripulantes saltava abaixo, com água pelas coxas, puxava o barco reteso,
preso aos caçadores. A vaga investia furente, entrava pelo samburá dos peixes,
alagava o bote, punha-o de lado sobre a areia, enquanto o homem, aos arrancos, auxiliado
pelos outros, que impeliam a embarcação pela popa, arrastava-se para o seco, onde então
a empurravam sobre rolos de madeira, num poderoso esforço de músculos". E esta
manhã mesmo, ao vir da missa na igrejinha da Volta da Jurema, quem me havia de aparecer
diante da palhoça, banhando os pés na água clara do riacho? A moreninha da Gata
Borralheira, doutro conto, em pessoa, "gorducha e fresca, muito limpa, os
olhos negros e sensuais rasgados amplamente, o nariz afilado e correto, a boca abrindo num
sorriso triste que lhe ameigava os traços". Ela mesma, tigipió da beira da estrada,
fruto sápido e lindo do meu outono, fechando o ciclo da minha emoção, pela tocante
beleza da sua visão da vida simples que perdura nas minhas praias amadas, malgrado o
furor da vida lá de fora. Pequenina sereia de pele de ouro e mangaba, corpo em flor, onde
os seios pequeninos afloram em curva de onda, boca florindo no vermelho das
pitangas, o gesto lento e sutil - que me surge nesta manhã de claro azul e verdes
lavados, como brotando em amável simbolismo da própria água apaziguadora, em plena
graça envolvente dos seus encantos nativos, cristalização mais pura, afinal, deste meu
estado de alma.
(LIMA, Herman. Imagens do Ceará) |
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