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Outubro 2000
Ano III - nº 26

COSTUMES DOS ÍNDIOS TUPINAMBÁ NO SÉCULO XVI

Capítulo XV
Como os homens se enfeitam e se pintam e que tipo de nome têm


Eles raspam a cabeça, deixando apenas uma coroa de cabelo, semelhante a de um monge. Perguntei-lhes diversas vezes como tinham chegado a esse tipo de cabelo e eles contaram que seus antepassados tinham visto em um homem de nome Meire Humane, que realizara muitas maravilhas entre eles. Era considerado um apóstolo ou profeta.

Continuei a perguntar, querendo saber o que eles usavam para cortar os cabelos antes da vinda das naus com tesouras. Esclarecem que isto era feito com duas cunhas de pedra, batendo no cabelo uma por cima da outra, sendo a parte do meio cortada com uma lasca feita de cristal. Essa raspadeira é muito empregada por eles para cortar. Além disso, fazem um enfeite de penas vermelhas chamado acangatara, que é amarrado em volta da cabeça.

No lábio inferior, eles têm um furo grande, desde a juventude. Quando são ainda jovens, perfuram o lábio com uma ponta de chifre de cervo, colocam no furo uma pedrinha ou pedaços de madeira e untam-no com um de seus ungüentos. O pequeno furo permanece aberto assim. Depois, quando ficam maiores ou capazes de feitos de bravura, a abertura é aumentada e o jovem coloca através dela uma grande pedra verde. A parte superior da pedra, que tem uma forma especial, mais estreita, fica voltada para dentro e a parte grossa para fora. Seu peso faz o lábio inferior pender para baixo o tempo todo. Também usam duas pedras pequenas atravessadas nas bochechas, nos dois lados da boca.

Alguns, em vez de pedras, usam cristais longos e delgados. Um outro enfeite é produzido a partir do casulo de grandes caracóis marinhos, os matapus. Chama-se boceji e tem a forma de uma meia-lua, branco como a neve, sendo usado em volta do pescoço.

Ainda a partir do casulo de caracóis marinhos, fazem disquinhos brancos, mais ou menos da grossura de uma haste de palha, que penduram no pescoço. A feitura desses disquinhos é muito cansativa.

Também se enfeitam com feixes de penas amarradas em torno dos braços e pintam-se de preto. Penas vermelhas e brancas são coladas ao corpo, misturando as cores. A cola para isso é retirada das árvores. Esfregam-na nos pontos que querem emplumar, depois apertam as penas por cima. Costumam pintar um braço de preto e outro de vermelho, fazendo o mesmo com as pernas e o tronco.

Um outro enfeite é obtido de penas de ema. Trata-se de uma coisa grande e redonda, feita de penas, chamada enduape. Quando vão para a guerra ou fazem uma grande festa, amarram tais enfeites nas costas.

Seus nomes são escolhidos a partir dos animais selvagens. Dão-se muitos nomes, mas com determinadas distinções: no nascimento, um menino recebe um nome que conservará até crescer e mostrar-se um guerreiro valoroso, capaz de matar inimigos. Depois, cada um deles recebe tantos nomes quantos forem os inimigos que tiver matado.


Capítulo XVI
Quais são os enfeites das mulheres


As mulheres pintam a metade inferior do rosto e todo o resto do corpo do mesmo modo que já foi descrito a respeito dos homens. Todavia, elas deixam os cabelos compridos, como as mulheres de outros lugares. Além disso, não têm nenhum enfeite especial; só nas orelhas é que possuem furos para um tipo de brincos, as nambipais. Estes medem cerca de um palmo de comprimento, são redondos e mais ou menos da grossura de um polegar, produzidos a partir de caracóis marinhos.

Desde a infância elas têm apenas um nome, que tira de pássaros, peixes e grutas. Se forem casadas, recebem tantos nomes quantos forem os inimigos mortos por seus maridos.

Quando catam piolhos, elas os comem. Perguntei-lhes muitas vezes por que fazem isso e elas responderam que os piolhos eram seus inimigos e devoravam alguma coisa das suas cabeças, portanto queriam vingar-se deles.

Entre esses selvagens há parteiras determinadas. Quando uma mulher deve dar à luz, quem estiver mais por perto vem correndo, seja mulher ou homem. Vi mulheres que já estavam passeando novamente no quarto dia após o parto.

Carregam seus filhos nas costas, seguro em panos de algodão. Desse modo, levam-nos para o trabalho e as crianças ficam satisfeitas, dormindo, mesmo que a mãe se abaixe e se movimente muito.


Capítulo XVII
Como as crianças recebem seu primeiro nome


A mulher de um dos selvagens que me capturaram dera à luz um filho. Alguns dias depois, o pai estava discutindo na cabana com os vizinhos mais próximos a respeito do nome que devia dar a seu filho, um nome que soasse corajoso e amedrontador. Sugeriram muitos nomes que não o agradaram, então ele disse que pretendia dar ao filho o nome de um dos seus quatro antepassados. Crianças com tais nomes são prósperas e bem sucedidas na captura de escravos, segundo disse, pronunciando em seguida os quatro nomes. O primeiro chamava-se Kirina, o segundo Eiramita, o terceiro Coema, e o nome do quarto eu não guardei. Quando ele disse Coema, pensei que podia ser Cham ou Ham, mas Coema significa manhã na língua deles. Sugeri que desse ao filho aquele nome, pois certamente pertencia ao de seus antepassados. A criança recebeu um dos quatro nomes mencionados por ele, o que acontece sem batismo e sem circuncisão.


Capítulo XVIII
Quantas mulheres um homem tem e como se comporta em relação a elas


A maior parte dos homens tem apenas uma mulher, mas alguns têm mais. Certos chefes chegam a ter treze ou quatorze mulheres. O chefe Abati-poçanga, a quem fui dado por fim, e de quem os franceses compraram minha liberdade, tinha muitas mulheres. Sua primeira mulher era de maior prestígio entre elas. Cada uma possuía seu espaço reservado daquela com quem estava no momento e que lhe dava comida. Assim, o chefe ia percorrendo o círculo de suas mulheres. Os filhos que já eram rapazes caçavam e traziam todas as presas capturadas para suas mães, que cozinhavam a caça e dividiam com as outras. Elas se relacionavam bastante bem entre si. Também é comum que um homem dê sua mulher de presente para outro, quando está farto dela. Do mesmo modo, costumam dar duas filhas ou irmãs de presente.


Capítulo XIX
Como eles combinam os casamentos


Eles prometem as suas filhas como noivas quando elas são ainda muito novas. Ao chegar a idade propícia para o casamento, cortam-lhes fora os cabelos, fazem determinados talhos nas suas costas e amarram alguns dentes de feras em volta do pescoço. Quando o cabelo volta a crescer e as feridas saram, ainda é possível reconhecer a forma dos cortes, pois eles põem algo na ferida recente que a torna preta quando sara. Esses sinais são considerados uma honra.

Realizadas tais cerimônias, entregam a moça àquele que deve tê-la como esposa sem mais festividades. Marido e esposa comportam-se decentemente, fazendo suas coisas em segredo.

Também observei como um dos chefes vai passando por todas as cabanas durante a manhã e arranha as pernas das crianças com um dente de peixe. Isso é para fazê-las ficar com medo. Se desobedecem alguma vez os pais as ameaçam dizendo que aquele homem vai voltar se elas não forem bem comportadas.


[meados do século XVI]

(STADEN, Hans. A verdadeira história dos selvagens, nus e ferozes devoradores de homens…)

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