Capítulo XV
Como os homens se enfeitam e se pintam e que tipo de nome têm
Eles raspam a cabeça, deixando apenas uma coroa de cabelo, semelhante a de um monge.
Perguntei-lhes diversas vezes como tinham chegado a esse tipo de cabelo e eles contaram
que seus antepassados tinham visto em um homem de nome Meire Humane, que realizara muitas
maravilhas entre eles. Era considerado um apóstolo ou profeta.
Continuei a perguntar, querendo saber o que eles usavam para cortar os cabelos antes da
vinda das naus com tesouras. Esclarecem que isto era feito com duas cunhas de pedra,
batendo no cabelo uma por cima da outra, sendo a parte do meio cortada com uma lasca feita
de cristal. Essa raspadeira é muito empregada por eles para cortar. Além disso, fazem um
enfeite de penas vermelhas chamado acangatara, que é amarrado em volta da cabeça.
No lábio inferior, eles têm um furo grande, desde a juventude. Quando são ainda jovens,
perfuram o lábio com uma ponta de chifre de cervo, colocam no furo uma pedrinha ou
pedaços de madeira e untam-no com um de seus ungüentos. O pequeno furo permanece aberto
assim. Depois, quando ficam maiores ou capazes de feitos de bravura, a abertura é
aumentada e o jovem coloca através dela uma grande pedra verde. A parte superior da
pedra, que tem uma forma especial, mais estreita, fica voltada para dentro e a parte
grossa para fora. Seu peso faz o lábio inferior pender para baixo o tempo todo. Também
usam duas pedras pequenas atravessadas nas bochechas, nos dois lados da boca.
Alguns, em vez de pedras, usam cristais longos e delgados. Um outro enfeite é produzido a
partir do casulo de grandes caracóis marinhos, os matapus. Chama-se boceji
e tem a forma de uma meia-lua, branco como a neve, sendo usado em volta do pescoço.
Ainda a partir do casulo de caracóis marinhos, fazem disquinhos brancos, mais ou menos da
grossura de uma haste de palha, que penduram no pescoço. A feitura desses disquinhos é
muito cansativa.
Também se enfeitam com feixes de penas amarradas em torno dos braços e pintam-se de
preto. Penas vermelhas e brancas são coladas ao corpo, misturando as cores. A cola para
isso é retirada das árvores. Esfregam-na nos pontos que querem emplumar, depois apertam
as penas por cima. Costumam pintar um braço de preto e outro de vermelho, fazendo o mesmo
com as pernas e o tronco.
Um outro enfeite é obtido de penas de ema. Trata-se de uma coisa grande e redonda, feita
de penas, chamada enduape. Quando vão para a guerra ou fazem uma grande festa, amarram
tais enfeites nas costas.
Seus nomes são escolhidos a partir dos animais selvagens. Dão-se muitos nomes, mas
com determinadas distinções: no nascimento, um menino recebe um nome que conservará
até crescer e mostrar-se um guerreiro valoroso, capaz de matar inimigos. Depois, cada um
deles recebe tantos nomes quantos forem os inimigos que tiver matado.
Capítulo XVI
Quais são os enfeites das mulheres
As mulheres pintam a metade inferior do rosto e todo o resto do corpo do mesmo modo que
já foi descrito a respeito dos homens. Todavia, elas deixam os cabelos compridos, como as
mulheres de outros lugares. Além disso, não têm nenhum enfeite especial; só nas
orelhas é que possuem furos para um tipo de brincos, as nambipais. Estes medem
cerca de um palmo de comprimento, são redondos e mais ou menos da grossura de um polegar,
produzidos a partir de caracóis marinhos.
Desde a infância elas têm apenas um nome, que tira de pássaros, peixes e grutas. Se
forem casadas, recebem tantos nomes quantos forem os inimigos mortos por seus maridos.
Quando catam piolhos, elas os comem. Perguntei-lhes muitas vezes por que fazem isso e elas
responderam que os piolhos eram seus inimigos e devoravam alguma coisa das suas cabeças,
portanto queriam vingar-se deles.
Entre esses selvagens há parteiras determinadas. Quando uma mulher deve dar à luz, quem
estiver mais por perto vem correndo, seja mulher ou homem. Vi mulheres que já estavam
passeando novamente no quarto dia após o parto.
Carregam seus filhos nas costas, seguro em panos de algodão. Desse modo, levam-nos para o
trabalho e as crianças ficam satisfeitas, dormindo, mesmo que a mãe se abaixe e se
movimente muito.
Capítulo XVII
Como as crianças recebem seu primeiro nome
A mulher de um dos selvagens que me capturaram dera à luz um filho. Alguns dias depois, o
pai estava discutindo na cabana com os vizinhos mais próximos a respeito do nome que
devia dar a seu filho, um nome que soasse corajoso e amedrontador. Sugeriram muitos nomes
que não o agradaram, então ele disse que pretendia dar ao filho o nome de um dos seus
quatro antepassados. Crianças com tais nomes são prósperas e bem sucedidas na captura
de escravos, segundo disse, pronunciando em seguida os quatro nomes. O primeiro chamava-se
Kirina, o segundo Eiramita, o terceiro Coema, e o nome do quarto eu
não guardei. Quando ele disse Coema, pensei que podia ser Cham ou Ham, mas
Coema significa manhã na língua deles. Sugeri que desse ao filho aquele nome,
pois certamente pertencia ao de seus antepassados. A criança recebeu um dos quatro nomes
mencionados por ele, o que acontece sem batismo e sem circuncisão.
Capítulo XVIII
Quantas mulheres um homem tem e como se comporta em relação a elas
A maior parte dos homens tem apenas uma mulher, mas alguns têm mais. Certos chefes chegam
a ter treze ou quatorze mulheres. O chefe Abati-poçanga, a quem fui dado por fim,
e de quem os franceses compraram minha liberdade, tinha muitas mulheres. Sua primeira
mulher era de maior prestígio entre elas. Cada uma possuía seu espaço reservado daquela
com quem estava no momento e que lhe dava comida. Assim, o chefe ia percorrendo o círculo
de suas mulheres. Os filhos que já eram rapazes caçavam e traziam todas as presas
capturadas para suas mães, que cozinhavam a caça e dividiam com as outras. Elas se
relacionavam bastante bem entre si. Também é comum que um homem dê sua mulher de
presente para outro, quando está farto dela. Do mesmo modo, costumam dar duas filhas ou
irmãs de presente.
Capítulo XIX
Como eles combinam os casamentos
Eles prometem as suas filhas como noivas quando elas são ainda muito novas. Ao chegar a
idade propícia para o casamento, cortam-lhes fora os cabelos, fazem determinados talhos
nas suas costas e amarram alguns dentes de feras em volta do pescoço. Quando o cabelo
volta a crescer e as feridas saram, ainda é possível reconhecer a forma dos cortes, pois
eles põem algo na ferida recente que a torna preta quando sara. Esses sinais são
considerados uma honra.
Realizadas tais cerimônias, entregam a moça àquele que deve tê-la como esposa sem mais
festividades. Marido e esposa comportam-se decentemente, fazendo suas coisas em segredo.
Também observei como um dos chefes vai passando por todas as cabanas durante a manhã e
arranha as pernas das crianças com um dente de peixe. Isso é para fazê-las ficar com
medo. Se desobedecem alguma vez os pais as ameaçam dizendo que aquele homem vai voltar se
elas não forem bem comportadas.
[meados do século XVI]
(STADEN, Hans. A verdadeira história dos selvagens, nus e ferozes devoradores
de homens
)