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Outubro 2000
Ano III - nº 26

AREIAS DE TIBAU

Talvez a mais original de todas as manifestações da arte popular no Rio Grande do Norte seja o enchimento de garrafas com areias da praia de Tibau.

Verdadeiras obras de arte, pelos seus desenhos, distribuição e variedade de cores, essas garrafinhas são muito estimadas como elementos decorativos. Vendidas nos mercados e feiras do estado, representam sugestiva curiosidade para visitantes ou turistas, que nunca as dispensam como lembrança da nossa terra.

Praia de veraneio e pesca, hoje pertencendo ao município de Grossos, extremo norte do nosso estado, vizinha do Ceará, Tibau é também recanto pitoresco preferido pelos veranistas do próspero município de Mossoró.

Em julho de 1962, lá estivemos, tendo oportunidade de observar e conversar com exímia fabricante dessas garrafinhas. Nessa visita, acompanhou-nos o doutor Tércio Miranda Rosado, que vive há muito em contato com oradores daquela praia e nos forneceu dados sobre o assunto.


As areias

As areias são retiradas das dunas, que estão bem à vista, diante da praia. O professor Antônio Campos e Silva nos informou que são areias siltosas, às vezes argilosas, impregnadas de sais de ferro. Econtram-se também areias com minerais pesados (biotita, ilmenita, etc.), que são as de cores escuras. Suas variedades de cores são impressionantes, subindo a vinte e cinco tonalidades, segundo nos adiantou a artesã Josefina Finseca.

Não conhecemos aplicações de natureza artística e industrial das areias de Tibau, a não ser o que fez o doutor Vingt ‘Un Rosado, utilizando duas cores dessas areias na construção de um cinema, em Mossoró, com resultado apreciável. Por outro lado, - a informação foi do senhor Manoel Crisóstomo ao doutor Tércio Miranda Rosado – soubemos que norte-americanos teriam declarado que ali existiam variedades de areias semelhantes às que foram encontradas na barra do Ceará (Fortaleza) e Aracati, inflamáveis ao contato de cigarro acesso.


Uma artesã

Josefina Fonseca, com quem conversamos, fabricante de garrafinhas de areia, é senhora de quarenta e poucos anos de idade. Aprendeu a técnica de enchimento há trinta anos, com sua tia, Belisa, e logo se aperfeiçoou. Informou-nos que outras pessoas de sua família e moradores da praia também se dedicam à mesma atividade artesanal, mas unicamente milheres.

Mulata escura, Josefina é pessoa bastante cordial, tendo prontamente nos atendido, quando lhe pedimos para encher uma garrafa em nossa presença.


A técnica

Josefina trouxe diversos pacotes de papel, contendo areias de várias cores. Sentou-se no chão, pondo de lado uma garrafa branca, vazia, (tipo vinho branco), e um arame um pouco maior, talvez de uns quarenta centímetros, de ponta curva.

Inicialmente, apanhou um punhado de areia alaranjada, com a mão direita, e despejou-a, lentamente, pelo gargalo da garrafa. Munida do arame, começou a fazer uma série de movimentos por dentro da garrafa, em sentido circular. Após delinear o primeiro desenho, - talvez um camelo ou animal parecido, - colocou novo punhado de areia e repetiu o mesmo desenho. Seguiram-se, então, nove cores ao todo, nesta ordem: alaranjada, branca, preta, marrom, grená, cinzenta, roxa e rósea. Em meia hora ou menos concluiu o seu trabalho, enchendo uma garrafa de litro, dividida em doze camadas de areia, com idêntico desenho.

Não escolhe motivos artísticos arbitrariamente. Todos são desenhos tradicionais, que os aprendeu de Belisa, a qual, por sua vez, já os aprendera de pessoas mais antigas. Uns motivos são mais fáceis de executar, outros mais complicados. Os que considera mais difíceis são aqueles em que aparecem peixinhos ou passarinhos.

Outro detalhe de técnia interessante é a distribuição de cores nas garrafas. Também não é feita à vontade. Obedece a um padrão tradicional: cor clara, de início, e cores mais escuras em seguida.


Mulher de areia

Em meia hora, Josefina encheu uma garrafinha com areia de Tibau, artisticamente. Em média, confessou-nos que poderá preparar vinte garrafas por dia.

Em 1932, quando iniciou o aprendizado, cobrava por cada garrafa cinco mil réis. Em 1962, o preço normal de cada garrafa era de cem cruzeiros. Entretanto, cobrava cento e cinqüenta cruzeiros para encher certo tipo de vasilhame de licor estrangeiro, de cor branca e em formas de mulher. É dos trabalhos mais interessantes de Josefina, pois a mulher de areia aparece com saia bordada, casaco de outra cor, rosto, olhos, cabelos, tudo colorido. É obra de arte e paciência.

Também muito procuradas são as garrafas contendo nomes de mulheres ou expressões significativas, como, "Lembrança de Tibau", "Saudade", etc.


Uma superstição

A perfeição no enchimento das garrafas é de tal ordem que provocou, certa vez, atitude estranha de um cidadão. Para certificar-se de que era mesmo areia e não tinta, comprou uma garrafa e espatifou-a no chão. Então, convenceu-se. Todavia, informou-nos Josefina, - alguns fabricantes, ultimamente, têm tinturado duas tonalidades de areias, para obter uma terceira. O fato tem provocado censuras dos admiradores dessas garrafinhas, os quais repelem falsificações.

Dizem que dá azar guardar em casa essas garrafas de areia de Tibau. Contudo, nada justifica a superstição, parecendo que houve confusão entre a bela areia da praia de Tibau e areias de cemitério, usadas nas práticas de catimbó.


(MELO, Veríssimo de. Xarias e canguleiros)

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