Outubro
2000
Ano III - nº 26 |
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MODO DE TIRAR O
OURO DAS MINAS DO BRASIL E RIBEIROS DELAS, OBSERVADO DE QUEM NELAS ASSISTIU COM O
GOVERNADOR ARTUR DE SÁ |
Porei aqui a relação que o mesmo autor me
mandou e é a seguinte. Conforme as disposições que vi pessoalmente nas minas de ouro de
São Paulo, assim nas lavras de água dos ribeiros, como nas da terra contígua a eles,
direi brevemente o que pode bastar, para que os curiosos indagadores da natureza mais
facilmente conheçam em suas experiências que terra e que ribeiro podem ter ouro.
Primeiramente, em todas as minas que vi e em que assisti , notei que as terras são
montuosas, com cerros e montes que se vão às nuvens, por cujos centros correndo ribeiros
de bastante água, ou córregos mais pequenos, cercados todos de arvoredo grande e
pequeno, em todos estes ribeiros pinta ouro com mais ou menos abundância. Os sinais por
onde se conhecerá se o têm, são não terem areias brancas à borda da água, senão uns
seixos miúdos e pedraria da mesma casta na margem de algumas pontas dos ribeiros, esta
mesma formação de pedras leva por debaixo da terra. E começando pela lavra desta, se o
ribeiro depois de examinado com socavão faiscou ouro, é sinal infalível que o tem
também a terra, na qual, dando e abrindo catas e cavando - a primeiro em altura de dez,
vinte ou trinta palmos, em se acabando de tirar esta terra, que de ordinário é vermelha,
acha-se logo um pedregulho, a que chamam desmonte, e vem a ser seixos miúdos, com areia,
unidos de tal sorte com a terra, que mais parece obra artificial do que obra da natureza;
ainda que também se acha algum desmonte deste solto e não unido, e com mais ou menos
altura. Esse desmonte rompe-se com alavancas, e se acaso tem ouro, logo nele começa a
pintar, ou (como dizem) a faiscar algumas faíscas de ouro na bateia, lavando o dito
desmonte. Mas, ordinariamente, se pintou bem o desmonte, é sinal que a piçarra terá
pouco ou nenhum ouro, e digo ordinariamente, porque não há regra sem exceção.
Tirado fora o desmonte, que às vezes tem altura de mais de braça, segue-se o cascalho, e
vem a ser uns seixos maiores e alguns de bom tamanho, que mal se podem virar, e tão
queimados que parecem de chaminé. E, tirado este cascalho, aparece a piçarra, ou
piçarrão, que é duro e dá pouco, e este é barro amarelo ou quase branco, muito macio,
e o branco é o melhor, e algum deste se acha que parece talco ou malacacheta, a qual
serve de cama aonde está o ouro. E, tomando com almocafres nas bateias esta piçarra, e
também a terra que está entre o cascalho se vai lavar ao rio, e, botando fora a terra
com a mesma bateia, andando com ela à roda dentro da água pouco a pouco, o ouro (se o
tem) vai ficando no fundo da bateia até que, lavada toda a bateia a terra, pelo ouro que
fica, se vê de que pinta é a terra.
Alguma terra há que toda pinta, outra só em partes e a cada passo se está vendo que as
catas em uma parte pintam bem em outros pouco ou nada. Já se a terra tem veeiro, que é o
mesmo que um caminho estreito e seguido, por onde vai correndo o ouro, certamente não
pinta pelas mais partes da cata e se vai então seguindo o veeiro atrás do ouro, veeiros
onde se encontram a grandeza e é sinal de que toda a data da terra, para onde arremete o
veeiro, tem ouro. As catas ordinárias, que se dão em terra, são de quinze, vinte e mais
palmos em quadra, e podem ser maiores ou menores, conforme dá lugar na terra. E se junto
dos ribeiros a terra faz algum tabuleiro pequeno (porque ordinariamente os grandes não
provam bem) esta é a melhor paragem para se lavrar. Posto que o comum do ouro é estar ao
livel da água, vi muitas lavras (e não das piores) que não guardam esta regra, senão
que ao ribeiro iam subindo pelos outeiros acima, com todas as disposições que temos
dito, de cascalho, etc., mas não é isto ordinário.
Até aqui o que toca às lavras da terra junto da água; porém as dos ribeiros, se eles
são capazes de se lhes poder desviar a água, se lavram divertindo esta por uma banda do
mesmo ribeiro, com cerco feito de paus mui direito, deitados uns sobre outros com estacas
bem amarrados, feito em forma de cano por uma e outra parte, para que se possa entupir de
terra por dentro, do modo que aqui se vê:
Isto se entende quando se não pode desviar todo o ribeiro para outra parte, para o que
raras vezes dão lugar os cerros. Divertida e esgotada a água com as bateias ou cuias, se
tira o cascalho ou seixos grandes e pequenos que na água não é mui alto e se dá com a
piçarra; vê-se se o ouro demanda para a terra depois de lavada a cata e se busca a
terra, entrando por ela e vai se seguindo e abrindo catas umas sobre outras. E,
ordinariamente, se deve provar sempre em primeiro lugar o ribeiro dentro da madre antes de
lavrar na terra com mais ou menos abundância. E muitas vezes sucede (como se viu nas mais
das lavras de Sabará-buçu) que, pintando mui pouco na água ou madre, em muitas lavras
fora da água se deu com muito ouro.
Portanto, para se examinar se um ribeiro tem ouro, vendo-lhe as disposições que temos
dito entre a água e a terra, se dará um socavão de sete ou oito palmos em quadra até
chegar ao cascalho e piçarra; e se faiscar é sinal que, em terra e na água, há ouro e
pelas pintas destes socavãos se conhecerá se são de rendimento. Nem nestas minas se
repartem ribeiros sem serem primeiro examinados com estes socavãos junto da água. Nos
ribeiros, onde há areia pelo meio e a não há nas barranceiras, também se acha ouro,
havendo cascalho; assim também nos ribeiros, onde há areia por entre pedras, se acha. O
esmeril acha-se com areia preta entre o ouro, e em qualquer parte que se acha esmeril,
tendo o ribeiro cascalho, há ouro.
Quando o ouro corre em veeiro, de ordinário corre direito do ribeiro para a terra
adentro, e no mesmo ribeiro, se suceder acharem-se muitos veeiros, serão distantes uns
dos outros; e suposto que perto do veeiro se acha formação, contudo, só no veeiro se
acha mais ouro. Também se acham muitos seixos com granitos de ouro.
Estas são algumas das cousas que se podem dizer destas minas, para que se possa por aqui
fazer exame em alguns ribeiros aonde se suspeita que haverá ouro. Não deixarei,
contudo,de referir aqui também o que vi no famoso rio das Velhas, porque parece fora de
toda regra do mineral. Em uma península que da terra entra no rio quase até o meio, em
que com as cheias fica toda coberta de água, vi lavrar dois córregos pequenos junto da
água, os quais, abrindo-se com alavancas, eram todos de um piçarrão duro e claro, e por
entre ele, sem se ir lavar ao rio, foi tal a grandeza do ouro de que estavam cheios, que
se estava vendo em pedaços e granitos nas mesmas bateias. E bateada houve em que se
tiravam cada vez quarenta, cinqüenta e mais oitavas, sendo as ordinárias, enquanto se
lavram , de oito e mais oitavas. Ainda que lavrando-se depois pela terra adentro na mesma
península, foi diminuindo cada vez mais a pinta e foram logo aparecendo as disposições
todas que temos dito, de terra, desmonte, cascalho e piçarra, que não há regra, como
já disse, sem exceção , e muitas vezes não dá com ouro quem mais cava, senão quem
tem mais fortuna. Também se acha muitas vezes uma disposição de desmonte que se chama
tapanhuacanga, que vale o mesmo que cabeça de negro, pelo teçume das pedras, tão duro
que só a poder de ferro desmancha, e não é mau sinal, porque muitas vezes o cascalho
que fica embaixo dá ouro.
De algumas particularidades mais destas minas, por serem menos essenciais, não falo, e
porque são mais para se verem do que para se escreverem, e estas são as que bastam para
o intento dos que, ou por curiosidade, ou para acertar na lavra, as procuram.
(ANTONIL, André João. Cultura e opulência do Brasil) |
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