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Outubro 2000
Ano III - nº 26

BEATRIZ DA BANHA, VENDEDORA DE PERFUMES

A preta Beatriz – vendedora de banha cheirosa nas ruas do Recife há uns cinqüenta anos passados – nada possuía dos encantos da sua homônima, inspiradora do imortal poeta da Divina Comédia. Era, ao contrário, uma preta sexagenária, dizendo-se, reservadamente, que ela seria meio-homem, tanto assim que usava chapéu de palha de carnaúba de abas largas, inclinado sobre a orelha esquerda, e presa ao lado da copa, envergando paletó de homem, só não usando calças… compridas, e sim uma larga e bem rodada saia.

Era solteirona e conta-se que, na sua mocidade, não houve rapazola nem homem feito que lhe conquistasse, ao menos, um simples sorriso, tendo, para eles todos, sempre a cara e o coração fechados. Não desdenhava, entretanto, sorrir às mulatas, de onde lhe veio a primitiva alcunha de Beatriz-homem, em razão, diziam, do seu androginismo… Uma espécie da atual Paraíba…

Antes de se inventarem as finíssimas brilhantinas de Houbigant, Coty ou Caron, os pacholas e as catitas de antanho só usavam, para besuntar os cabelos, os óleos de Oriza, Corylópsis, Kananga do Japão e os cosméticos de L. T. Piver; ou então se encharcavam de Água Flórida, ou tricófero du Barry.

A gente mais modesta quando não punha gás (querosene) nas melenas, lustrava-as com azeite de carrapato, óleo de coco ou banha de porco. Esta banha passava, porém, por um demorado processo de refinação, que consistia em ser muito bem batida e "curtida no sereno durante nove dias ou noites". Depois era aromatizada com jasmins, a que chamavam "jasmins de banha", ou com essência de rosa, cravo, lima, hortelã-pimenta, bergamota, etc. Era vendida, no Mercado Público, de São José, em pequenos montículos de uns quatro a cinco centímetros de altura, custando um vintém cada um, com os respectivos "pingos" da essância de gosto do freguês ou freguesa!


Banha a domicílio

Beatriz vendia banha cheirosa nas ruas da cidade, pela manhã, já se vê, antes o sol aquecesse e derretesse sua mercadoria, transformando-a… "naquela água"… Arrumava, em bandeja de folha-de-flandres, os seus mercados de banha, muito alva, como se fora aquilo o Batalhão Naval, todo de branco, em parada de gala de 11 de junho, tendo, ao lado, os pequenos frascos com essências multicores de rosa, hortelã, cravo, etc., espécie de comandantes de pelotões…

A mão esquerda, espalmada à altura do ombro, amparava o tabuleiro, enquanto a direita empunhava um pau, à guisa de alta bengala, ou como um bastão de feld-marechal.

Não dispensava, também, uma flor à lapela do seu casaco de homem, à maneira galante de um Don Juan ou janota conquistador…

Apregoava sua mercadoria cantando uma pequena melodia, de meia dúzia de compassos, em andamento alegro e cujo ritmo sincopado ela acentuava, nos tempos fortes, batendo com o seu bastão nas pedras das calçadas.

Os versos que ela cantava eram estes:

Eia banha cheirosa
É pro bendengó
É pra homem e muié
É pro bendengó

Nunca vi nêga véia
De cocó… (bis)

As novas gerações de hoje, que usam o cabelo cortado à la garçonne, ou a la homme, não sabem o que é bendengó nem cocó. Vai aqui, para elas, uma ligeira explicação: bendengó não é, por certo, o célebre meteorito que caiu no interior da Bahia, e se acha exposto no Museu Nacional, na quinta da Boa Vista. Trata-se de uma espécie de diadema formado pelos cabelos penteados ao alto, em torno da fronte, e cocó era a trança ou os simples cabelos longos, enrodilhados e presos com grampos na parte posterior da cabeça. Quando o cocó ficava no alto do crânio era chamado: "cabelo no monte", ou simplesmente "trepa moleque"… Tenho uma prima que ainda hoje usa bendengó e trepa-moleque, há cinquenta anos…

Homem? Não!

Beatriz da banha era popularíssima no recife, conhecida em toda a cidade e arrabaldes pela sua jovialidade para com as moças e austeridade com os homens, aos quais parecia votar solene desprezo, ojeriza. Fosse hoje e poderia ela repetir a pilhéria da gíria:

- Homem? Não!...

Nunca lhes dei confiança, dizia muito orgulhosa da sua antipatia pelos representantes do sexo masculino.

Um dia desapareceu Beatriz… Não se ouviu mais sua cantilena alegre nas ruas da cidade, que ficaram desertas da sua figura bizarra, misto de mulher e homem. Não se sentiu mais, por onde ela passava, o cheiro ingênuo das essências barata com que perfumava a banha de porco, curtida no sereno, e que untava os cabelos cacheados das morenas. Sua figura, porém, ficou na lembrança das moças daquele tempo – matronas de hoje – e que, recordando o passado, repetem, sorrindo, seu original pregão:

- Eia banha cheirosa… É pro bendengó…


[1953]

(WANDERLEY, Eustórgio. Tipos populares do Recife antigo)

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