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Outubro 2000
Ano III - nº 26

LENDA ACERCA DA VELHA GULOSA (CEIUCI) [1]

Ilustração de Marcos Jardim

Contam que um moço estava pescando peixe, de cima de um mutá [2]. A velha gulosa veio pescando com tarrafa pelo igarapé. Ela avistou no fundo a sombra do moço e cobriu com a rede; não apanhou o moço. O moço, quando viu aquilo, riu-se de cima do mutá.

A velha gulosa disse:

- Aí é que estás? Desce para o chão, meu neto.

O moço respondeu:

- Eu não.

A velha disse:

- Olha que eu mandarei lá marimbondos! [3]

Ela mandou-os. O moço quebrou o pequeno ramo e matou os maribondos.

A velha disse:

- Desce, meu neto; senão eu mando tocandiras! [4]

- O moço não desceu; ela mandou tocandiras; estas o puseram nágua; a velha jogou a tarrafa sobre ele, envolveu-o perfeitamente e levou-o para sua casa. Quando lá chegou, deixou o moço no terreiro e foi fazer lenha.

Atrás dela veio a filha e disse-lhe:

- Esta minha mãe, quando vem da caçada, conta qual é a caça que ela matou; hoje não contou... Deixa-me olhar ainda o que é. Então desembrulhou a rede e viu o moço. O moço disse-lhe:

- Esconde-me.

A moça escondeu-o; untou um pilão com cera, embrulhou-o com a tarrafa e deitou-o no mesmo lugar.

Então a velha saiu do mato e acendeu fogo em baixo do muquém [5]. Esquentando -se o pilão, a cera derreteu-se; a velha aparou. O fogo queimou a tarrafa; apareceu o pilão. Então a velha disse a sua filha:

- Se tu não mostrares a minha caça, eu te matarei!

A moça ficou com medo, mandou o moço cortar palmas de naçabi, para fazer cestos, para estes cestos se virarem todos em animais. A velha veio atrás; quando chegou, o moço mandou os cestos virarem em antas, veados, porcos, em todas as caças; viraram-se. A velha gulosa comeu todos.

Quando o moço viu a comida pouca, fugiu; fez um matapi [6], onde caiu muito peixe.

Quando a velha chegou ali, entrou dentro do matapi.

O moço espantou uma pinta de marajá.

A velha estava comendo peixe, quando ele a feriu e fugiu. A moça disse a ele:

- Quando tu ouvires um pássaro cantar kan - kan, kan- kan, kan- kan, é minha mãe, que não está longe para pegar você.

O moço andou, andou, andou.

Quando ele ouviu kan - kan, correu, chegou onde os macacos estavam fazendo mel e disse-lhes:

- Escondam-me, macacos!

Os macacos meteram-no dentro de um pote vazio. A velha veio, não encontrou o moço e passou para diante. Depois, os macacos mandaram o moço ir-se embora.

O moço andou, andou, andou. Ouviu: kan - kan, kan - kan, kan - kan. Ele chegou à casa do surucucu [7] e pediu-lhe que o escondesse. O surucucu escondeu-o. A velha chegou, não o encontrou, foi-se.

De tarde o moço ouviu o surucucu, que estava conversando com sua mulher para fazerem um muquém para eles comerem o moço.

Quando eles estavam fazendo o muquém, um makanan cantou o moço disse:

- Ah meu avô makanan [8], deixa que eu fale com você.

O makanan ouviu, veio e perguntou:

- Que é, meu neto?

- Há dois surucucus que me querem comer.

O makanan perguntou:

- Quantos esconderijos eles tinham?

O moço respondeu:

- Um somente.

O makanan comeu dos dois surucucus.

O moço passou para a banda do campo, encontrou-se com o tuiuiu [9] , que estava pescando peixe, que estava pondo em um uaturá [10]. O moço pediu a ele que o levasse. Quando o tuiuiu acabou de pescar, mandou o moço pular para o uaturá, voou com ele, pô-lo sobre um grande galho de árvore, não pôde levá-lo adiante. De cima o moço viu uma casa; desceu e foi. Chegou à beira da roça e ouviu uma mulher que estava ralhando com uma cotia para não comer sua mandioca.

A mulher levou o moço para a sua casa; quando lá chegou, ela lhe perguntou donde é que vinha. O moço narrou todas as coisas; como ele estava esperando peixe, na margem do igarapé, veio a velha gulosa, levou-o para a sua casa, quando ele ainda menino. Agora já estava velho, branca a sua cabeça. A mulher lembrou-se dele e conheceu que era seu filho. O moço entrou na sua casa.


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Notas:

[1]. Lenda recolhida por Couto de Magalhães e publicada em O selvagem (p. 268-271), que assim a comenta: "A palavra ceiuci significa a constelação das plêiades, a que o nosso povo chama sete estrelas, e significa também velha gulosa, ou uma fada indígena que vivia perseguida por eterna fome.

Todos os povos primitivos simbolizam a luta da vida na história de um homem que figuram vencendo trabalhos desde a infância e não os terminando senão com a velhice. A vida de Hércules e as peregrinações de Ulisses são a encarnação dessa tendência do espírito. A história de Hércules ou de Ulisses, contada pelas velhas, devia perder muito de sua dignidade, embora no fundo o pensamento permanecesse o mesmo, isto é :um homem batalhando para educar este temível combate da vida, com que todos lutamos com maior ou menor escala.

A história da velha gulosa é talvez um fragmento desse poema de que nos chega apenas um eco remoto, conservado pela tradição grosseira dos avós e amas de leite. A lenda supõe um moço perseguido pela insaciável velha que o quer devorar. A princípio, o amor o salva; depois, ele começa uma longa peregrinação sem descanso, porque, quando quer repousar, ouve nos ares um canto que lhe indica a aproximação do voraz inimigo, e, nessa luta, sempre fugindo, ele transpõe toda a sua vida, de modo que, quando de novo se recolhe a casa paterna, está já coberto de cãs. Não será no fundo um símbolo como Hércules e Ulisses, degradado pela tradição de povos grosseiros?"

E comenta ainda (ibidem, p. 267-268): "Foi esta a primeira lenda que coligi, e fi-lo em 1865, ano em que passei quatro meses nas solidões das cachoeiras de Itaboca, no Tocantins, onde naufraguei e onde morreram alguns de meus companheiros. A lenda foi-me narrada pelo tuxaua (chefe) dos Anambés, infelizmente no tempo em que eu ainda não falava a língua e em que, portanto, para entender o que ele dizia, necessitava de servir-me de um intérprete. Como espero fazer ainda uma demorada viagem pelos nossos sertões, agora que conheço não só a língua - geral, mas as formas mais importantes dos dialetos vivos, hei de ainda talvez recolher uma tradição melhor do que esta que coligi em 1865, quando apenas começara meus estudos desta matéria". Infelizmente, essa nova versão nunca foi dada a lume e nem mesmo encontrada entre os papéis do seu arquivo. Os Anambés pertencem à família Tupi.

[2]. Segundo Starelli (‘Vocabulário da língua- geral português-nheengatu e nheengatu-português’, em Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, t. 104, v. 158, Rio de Janeiro, 1929, p. 562), Mutá (jirau) é um "estrado feito a certa altura da terra e dissimulado com folhagem, onde o caçador se posta à espera da caça que deve vir beber água nalguma fonte ou poça próxima, comer as frutas caídas ou lamber a terra, nos lugares onde há afloramento de sais".

[3]. Maribondo ou marimbondo é o nome comum de várias espécies de vespas.

[4]. Cryptocerus atratus. Sobre este inseto, assim se refere Starelli (opus cit., p. 678-679): "Grossa e comprida formiga preta, armada de um esporão, como o das vespas, cuja ferroada muito dolorosa chega a produzir febre. Bicho nascido das cinzas de Ualri, conforme conta a lenda do Jurupari, se torna inócua para as mulheres grávidas, e os índios sustentam, e com eles muitos civilizados, que a ferroada da tocandira deixa de doer, quando lavada com a urina de um indivíduo do sexo diferente, e na falta, com a água da lavagem das suas partes sexuais, e que a cópula produz o mesmo efeito. Sobre este fato, os munducuru estabeleceram uma das provas impostas aos moços, que, saindo da puberdade, passam a ser guerreiros. Os obrigam a meter a mão direita num tecido de fasquias de jacitara, uma espécie de luva, guarnecida de tocandiras com o ferrão pelo lado de dentro. Ninguém lhe pode tirar, senão a moça que vai casar com ele; o guerreiro não pode continuar solteiro - efetuando-se o casamento logo em seguida, na casa grande da festa."

[5]. Segundo Artur Ramos (Introdução à antropologia brasileira, 1o. volume, Editora da Casa do Estudante do Brasil, Rio de Janeiro, 1943, p. 103), o muquém ou moquém "era um processo de cozinha típico dos tupi-guarani, mas usado também por outras tribos indígenas. Consistia em quatro forquilhas de pau, dispostas em quadrilátero, com varas atravessadas, em cima das quais se punha a carne ou o peixe, que se desejava moquear. O fogo era preparado em baixo e sua ação lenta conservava pela fumaça o alimento".

[6]. Espécie de armadilha que os índios fazem para apanhar peixe, de forma alongada e com uma única abertura afunilada, formada pelas fasquias viradas para dentro, de modo que permite a entrada do peixe, mas impede-lhe a saída. Costuma ser posta nos igarapés, com a boca virada para a correnteza, e o peixe, que vem subindo, entra nela, independente de qualquer espécie de isca, porque, querendo vencer a força da corrente, encontra facilidade à subida do funil.(cf. Stradelli, opus cit., p. 518).

[7]. Cobra venenosíssima, da família dos Viperídeos (Lachesis mutus).

[8]. Makanan, ou melhor, macauan - conforme se lê no texto tupi desta lenda, publicado no Curso de língua tupi viva ou nheengatu, anexo ao O Selvagem (p. 278) - é uma espécie de ave de rapina, da família dos Falconídeos(Hepethortheres cachinnans queribundus Bangs e Penard), que ataca especialmente os ofídios. Possui ainda os seguintes nomes: acanã, cauã, macaá e macaguá. A seu respeito, escreve Barbosa Rodrigues (‘Poranduba amazonense’, em Anais da Biblioteca Nacional, v. XIV, Rio de Janeiro, 1890, p. 188): "É uma pequena ave de rapina, o Falco cachinnans L. , que geralmente se alimenta de cobras, que mata quando as encontra, lutando com elas. Dizem que, quando ferido, busca então a folha de uma planta que tem o seu nome (Mikaia guaco) que é o antídoto contra o veneno. O seu nome é tirado das sílabas que parece pronunciar quando canta."

[9]. Também chamado jaburu moleque, é uma ave pernalta (Mycteria americana). Este ictiófago tem seu habitat às margens dos rios e lagos, e caracteriza-se pela sua aparência grave e sisuda.

[10]. Cesto de talas de canas. (Cf. Couto de Magalhães, opus cit., p. 270).


(SILVA, Alberto da Costa e. Antologia de lendas do índio brasileiro)

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