Outubro
2000
Ano III - nº 26 |
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Era uma vez um velho muito rico e viúvo
que tinha três filhos bonitos e fortes. Quando nascia um deles o pai plantava uma
árvore. Os três se fizeram homens e cada um possuía um cavalo, um cachorro, uma espada
e o pé de pau.
Duma feita, chegando na idade de sair pelo mundo, o mais velho, Pedro, procurou o velho e
pediu para deixar a casa.
- Pode sair. Quer minha bênção com pouco dinheiro ou minha maldição com muito
dinheiro?
- Quero muito dinheiro, meu Pai. Bênção é luxo.
O pai deu muito dinheiro a ele, mandou selar o cavalo, afiar a espada e soltar o cachorro.
Pedro montou e seguiu jornada, contente como quê. No fim de uns dias ouviu, lá longe,
uma voz cantando:
- Tinga sala ó menga! Tinga sala ó menga!
Botou-se no rumo. Deu com um casarão cercado de alpendres. No meio do terreiro uma velha
estava pilando café num pilão que era enorme. Pedro saltou e pediu arrancho. A velha
olhou e disse:
- Eu deixo se o meu netinho amarrar o cavalo naquele fio de linha, e também o cachorro e
a espada porque tenho muito medo...
Pedro desapeou e amarrou o cavalo no fio de linha que era um cabelo. A velha tirou outro
fio da cabeça e sugigou o cachorro e com um terceiro cabelo inquiriu a espada.
- Entre, meu netinho!
Pedro entrou e foi servida uma ceia muito boa. Quando acabou a velha levou ele para o
alpendre e disse:
- Meu netinho tem força? Quer brincar de queda-de-corpo comigo para distrair?
- Ora, minha avó, que idéia!
Assim que a velha o segurou, Pedro sentiu que ela podia com dez homens. Lutou, lutou e
vendo que era subjugado, gritou:
- Me acode, meu cavalão!
- Engrossa, engrossa, meu cabelão! - respondeu a velha.
O cavalo dava coices e bufava como uma fera mas não conseguiu quebrar o cabelo que se
virava numa corrente de ferro. Pedro gritou:
- Me acode, meu cachorrão!
- Engrossa, engrossa, meu cabelão! E o cachorro não pôde acudir, preso numa corda forte
como um cabo de linho. Pedro gritou, já cai-não-cai:
- Me acode, meu espadão!
- Engrossa, engrossa, meu cabelão! - e a espada não saiu da bainha porque o cabelo da
feiticeira fez um emaranhado de fio de aço. Pedro caiu e a velha amarrou-o e sacudiu-o
num alçapão onde estavam muitos cavaleiros que tinham sido vencidos pela velha.
Na manhã seguinte, José, o segundo filho, olhou para a árvore de Pedro e reparou que
estava murcha. Procurou o pai imediatamente:
- Meu pai, Pedro está doente ou preso. Quero correr mundo e ir livrá-lo.
- Quer minha bênção com pouco dinheiro ou minha maldição com muito dinheiro?
- Dinheiro faz tudo. A bênção vem depois.
Sucedeu o mesmo. Teve o dinheiro, enchendo as bruacas. Selou o cavalo, meteu a espada na
bainha, chamou o cachorro e largou-se na estrada.
Dias depois, tardinha, ouviu o pilão batendo e a voz cantando:
- Tinga sala ó menga! Tinga sala ó menga!
Tocou o cavalão no rumo e viu a mesma velha, pilando milho. Pediu arrancho e teve a mesma
resposta. Aceitou os pedidos e amarrou o cavalo, o cachorro e a espada com fios de cabelo
que a feiticeira deu. Entrou, jantou e a velha convidou-o para brincar de queda-de-corpo.
José era forte como um touro e pegou a velha como quem pega uma boneca. A velha livrou-se
e agarrou-se com mão de ferro. Principiou a briga feia. Lá para as tantas a velha foi
derrubando José e este valeu-se da garganta, gritando pelo cavalo, pelo cachorro e pela
espada, e não foi válido porque o cabelo da velha se transformara em correntes e fios de
ferro puro. José caiu e a velha jogou-o no subterrâneo, como os outros.
Na manhã, João, o mais moço, viu a árvore de José toda murcha, com as folhas
amarelas. Procurou o pai.
- Meu pai, estou na idade de correr mundo. A árvore de José está murcha, dizendo que
ele está em perigo de morte. Quero sair também...
- Pode sair. Quer minha bênção com pouco dinheiro ou minha maldição com muito
dinheiro?
- Quero sua bênção sem dinheiro. Não há ouro deste mundo que pague a bênção de um
pai.
O pai deu mais dinheiro do que aos outros. João montou o cavalo, amarrou a espada na
cintura e seguiu viagem, acompanhado pelo cachorro.
Andou, andou, andou. Numa tarde, ao sol se pôr, ouviu a pancada do pilão e a voz
cantando:
- Tinga sala ó menga! Tinga sala ó menga!
Botou-se mais que depressa para a direção e encontrou a velha pilando arroz. Saltou e
pediu descanso. A velha fez as propostas que tinha feito. João ficou desconfiado de um
cabelo segurar um cavalo, um cachorro e uma espada. Desceu do animal, fingindo aceitar, e
fez que amarrava o cavalo, o cachorro e a espada.
A velha levou-o para dentro e deu de jantar. Depois saíram para espairecer e convidou o
rapaz para uma queda-de-corpo. João aceitou. Foram lá e foram cá, brigando no duro, mas
a velha era forte como um leão. O rapaz notou que seria vencido bem depressa e pediu
socorro:
- Me acuda, meu cavalão!
- Engrossa, engrossa, meu cabelão! O cabelo virou cadeia de ferro mas caiu no chão
porque não estava segurando o pescoço do cavalo. Este voou para cima da velha, aos
coices, seguido pelo cachorro e pela espada que acabaram com a velha em dois tempos, às
dentadas e furadas.
Assim que a velha caiu e morreu, João ouviu um vento passar pela casa. Abriram-se todas
as portas e saíram os prisioneiros, muito contentes agradecendo o favor que o rapaz lhes
fizera. Os quartos estavam cheios até a cumeeira de ouro e todos disseram que João era
dono de tudo.
Apareceram cavalos e os homens foram embora. Os três irmãos ficaram juntos, abraçados.
Pedro então perguntou o que se devia fazer com o corpo da velha.
- Enterra-se, disse José.
- Queima-se, disse João.
- Resolveram queimar. Fizeram uma fogueira bem fornida e sacudiram a feiticeira dentro,
atiçando o fogão que subiu, clareando tudo. De repente ouviu-se um estouro terrível que
abalou a casa e os galhos das árvores vieram até o chão. Rebentara o fígado da velha e
pularam fora três ovos, grandes e brancos como ovos de ema.
Os três irmãos dividiram os ovos. Embora tivessem comido muito bem, acharam gosto em
comer os ovos. Foram para dentro e Pedro quebrou a casca do primeiro ovo.
Saiu uma moça bonita como os primores:
- Dê-me água, pelo amor de Deus! Água depressa! - pediu ela.
Pedro sem perder tempo entregou o coco cheio d' água. A moça bebeu e sorriu para ele.
Sentou-se e explicou dizendo que ela era filha do rei e estava com duas irmãs, dentro dos
ovos há mais de cem anos.
José quebrou logo o seu e viu aparecer a moça ainda mais bonita que a de Pedro:
- Dê-me água, pelas chagas de Cristo! Água mais-que-depressa!
José entregou o coco d' água e a moça se satisfez, quebrando o encanto.
João, por sua vez, partiu o ovo e a moça que estava dentro da casca era uma verdadeira
santa de bonita. Muito mais do que as duas juntas. Parecia o sol. Bebeu água e ficou
conversando com as irmãs e os três irmãos, todos muito alegres.
Resolveram casar logo que chegassem na cidade onde o pai das moças era rei. Montaram a
cavalo e as moças numa liteira e seguiram jornada, deixando a casa amaldiçoada pegando
fogo.
Na cidade do rei casaram e cada qual ficou em sua casa que era um palácio. João era o
querido do sogro por ter desencantado e vencido a velha feiticeira que fizera prisioneiros
muitos homens e tomara riquezas sem conta. As duas princesas e os maridos ficaram
enciumadas e aborrecidas com a irmã e João, e começaram a tecer intrigas e armar
tocaias para prender os dois com medo que o rei deixasse a coroa para o casal predileto,
mas nada conseguiram e João herdou o reino, perdoando aos irmãos e cunhadas e sendo
todos felizes.
(Informante: Lourença Maria da Conceição, São José de Mipibu. Rio Grande do Norte.
CASCUDO, Luís da Câmara. Contos tradicionais do Brasil) |
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