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Outubro 2000
Ano III - nº 26

CASAMENTOS

O casamento, na opinião de um dos escritores mais elegantes deste último quarto de século, - é uma instituição perigosa, que absorve o indivíduo para conservar a espécie.

Não pensamos assim.

Em nosso humilde parecer, o matrimônio realiza o ideal da felicidade terrestre e completa o homem, ainda mesmo quando ele tenha a infelicidade de deparar com uma sogra de cabelo na venta.

É por isso que o solteirão, verdadeira excrescência social, suspira no último quartel da vida por uma mulher que ajude-lhe a carregar a cruz do reumatismo; e que a solteirona, quando vê fugir a última esperança, agarra-se ao primeiro marido que lhe aparece, como o naufrago à tábua de salvação.

É por isso que o padre seria um ente inútil, se porventura não tivesse que cumprir neste mundo missão mais sublime.

É por isso que...

Deixemos, porém, estas teses, que cheiram à filosofia.

Vamos considerar o casamento sob o ponto de vista prático.

As questões que nos interessam hoje são as seguintes:

Como se casam os representantes da alta classe.

Como se unem pelos laços da Santa Madre Igreja os nossos bons burgueses.

E como a plebe aperta o doce nó.

Vejamos a primeira questão.

Antes de estudá-la, começaremos por estabelecer um princípio inconcusso nas práticas matrimoniais, e que vem a ser :

- Todos somos iguais perante o carro das bodas.

Não há nobreza, burguesia e plebe diante do coupé com cavalos brancos e lacaios agaloados.

Ninguém se casa, por mais exíguos que sejam os seus recursos, sem alugar faustoso trem; nutra embora a pungente convicção, de que acordará no dia seguinte sem um real no bolso, para acudir às primeiras necessidades da nova família.

Se o cortejo nupcial marcha a pé para a igreja, a vizinhança comenta o fato com observações mais ou menos eivadas de ridículo, e pergunta una você:

- Pois o noivo é tão miserável que nem teve dinheiro para o carro?!

E ai daquele que se lembrasse de ir casar de bonde!

Seria apontado por toda cidade, como um ente originalíssimo, e durante um mês pelo menos forneceria assunto para os jornais diários e ilustrados.

Prossigamos.

Os representantes da alta classe casam-se geralmente de manhã.

O noivo, ao lado do padrinho, e a noiva, acompanhada pela madrinha, partem para a igreja, seguidos de extensa fila de carros, em cada um dos quais figura um varão assinalado pela posição social ou pela fortuna.

Estes casamentos são quase sempre no meio da semana.

Nos templos, onde eles se realizam, figuram apenas os convidados, e uma ou outra família da vizinhança que ali comparece para analisar o toilette da noiva e ver de perto a cara do noivo.

Terminada a cerimônia, serve-se um copo d'água, lunch, ou coisa que melhor nome tenha.

Por essa ocasião os amigos e parentes mais retóricos, erguem-se, de cálix de champanhe em punho, e levantam respeitosos brindes à felicidade do ditoso par.

Horas depois estão os pombinhos em trajes de viagem; e entre abraços e lágrimas, partem para a Tijuca ou Petrópolis, onde, longe dos importunos, à sombra perfumada do arvoredo, vão pendurar o venturoso ninho da lua de mel.

No dia seguinte lê-se nos noticiários das folhas públicas:

"Receberam-se ontem em matrimônio na igreja de... o senhor F... filho do senhor conselheiro J..., e a Exma. Sra. dona E..., filha do visconde de... e neta do senhor marquês de... Foram padrinhos o Exmo. Sr. barão de... e a Exma. Sra. marquesa de... Assistiram à cerimônia muitas pessoas gradas da nossa sociedade e vários membros do corpo diplomático."

Outros casam-se à tarde.

Se os noivos moram em Botafogo, é quase sempre na matriz da Glória ou na capela da Visconde da Silva que tem lugar o - recebo a vós...

Alvoroça-se o bairro.

Discute-se a notícia em todas as casas.

- É hoje o casamento da Sinhá.

-
Deveras?

- Não é hoje; é amanhã.

- Quem foi que disse?

- Foi o primo Lucrécio.

- O primo Lucrécio é um idiota.

- É hoje, posso assegurar-lhes. Quem me avisou foi o padrinho do noivo.

- Eu não falto.

- Nem eu.

- A Sinhá há de ficar muito bonitinha vestida de noiva.

- Talvez.

Com a rapidez da eletricidade a notícia circula toda a praia, desce pelo Caminho Novo, dobra o largo do Machado, e entra pelos domínios de Laranjeiras.

Às cinco horas estão os habitantes do bairro a postos ao lado da igreja, ou junto à citada capela.

Apenas aparece o primeiro carro que denuncia o cortejo nupcial, há um reboliço nas fileiras, e cada um trata de acotovelar o que lhe fica na frente, a fim de poder ver a noiva bem de perto.

Começam os comentários:

- Ora, eu pensei que a noiva fosse mais bonita!

- É muito magrinha!

- Tens uns olhos muito feios.

- Mas em compensação a boca é muito bonita.

- Está bem vestida.

- Não acho.

- A saia está tão estufada!

- O que querem dizer aqueles fofos ali?

- Eu sei lá.

- Dizem que o vestido veio da Europa.

- Duvido.

- Ela teve melhor gosto do que ele.

- Em que?

- O noivo é um rapagão!

A rapaziada também comenta por sua conta e risco, e vinga a inocente Sinhá dos botes que as mimosas representantes do sexo amável atiram-lhe no amor próprio.

- Olha a cara com que está a Chiquinha.

- É a figura da inveja.

- Parece-me que o Saraiva já roeu-lhe a corda.

- Olé, a viuvinha também veio!

- Está ali, está casada.

- Dizem que o filho do Antunes está-lhe fazendo a corte.

- Quem? O Juca?

- Sim.

- Não creio; aquilo é um sujeitinho que não cai de cavalo magro.

- Porém ela tem seus cobres.

- Que cobres! O marido deixou tudo hipotecado! Só ao Banco do Brasil ficou devendo sessenta contos!

- Chi!! Como está feia a Mariquinhas do Cosme Velho!

- Feia só? Olha os pés de galinha que tem no rosto.

- Até já perdeu a elegância.

- Aquela fica para tia.

- Que penteado esquisito traz a filha do Severino.

Findo o ego auctoritate qua fungor, os convidados estreitam-se nos braços do noivo; e a noiva para seguir à risca os estilos, principia a chorar.

Se as moças já tivessem observado o contraste horrível que faz uma ponta de nariz vermelha com um rosto pálido, emoldurado em diáfano véu, a cândida grinalda de flores de laranjeiras, estamos convencidos que nem uma só delas se lembraria em tais momentos de abrir o anti-poético dique das lágrimas.

Volta o cortejo.

Pelas ruas por onde passa, só se ouve:

- Aí vêm eles.

- Ande depressa, mamãi.

- Anda, Mariquinhas.

E em cada janela figuram cabeças a sorrirem, como se a festa fosse-lhes em casa.

Chegados à residência da família da noiva, os recém-casados sobem as escadas debaixo de copiosa chuva de flores, recebendo abraços à direita e à esquerda, e os clássicos cumprimentos:

- Hei de estimar que sejam muito felizes.

- Desejo-lhes todas as felicidades possíveis.

Dali vão os noivos direitinho para o sofá.

Duas palavras acerca do sofá.

A exposição do ditoso par neste móvel da sala constitui uma espécie de obrigação, de que ninguém tem tido a coragem de se eximir.

É um quadro interessante.

Ele, com um riso amarelo, sem se atrever a olhar de frente a sociedade que o cerca.

Ela, de olhos baixos, tendo ao lado a madrinha, armada de tesoura, a cortar-lhe os botões da grinalda.

Se o noivo se retira por momentos do salão, vem logo a sogra ou o sogro:

- Vá para o sofá, sua mulher está sozinha.

É para o sofá que olham instintivamente todos os que chegam à sala.

Ninguém se atreve a sentar-se no sofá.

O sofá, finalmente, torna-se naquela noite uma verdadeira berlinda.

Continuemos.

Retalha-se a grinalda da noiva.

Todas as moças reclamam o seu botão.

- Eu quero um.

- Eu quero dois.

- Não se esqueça de me dar um para a Luizinha.

- E o da Marocas?

- Ora, esta não precisa, foi pedida anteontem.

- Só eu é que não sei quando há de chegar a minha vez.

- Cá por mim não faço muito empenho. Já rejeitei três, e agora anda um quarto a rondar-me a porta. Estou muito bem em casa de meus pais, não me falta nada...

- Pois eu , minha amiga, sou mais franca: se não me casar este ano, não me salvo.

- Foi por isso que ela foi a primeira a abraçar a noiva na igreja.

- Eu também, por minha parte, emprego todos os meios; mais os rapazes andam tão ariscos...

Conversa das matronas:

- O casamento é uma coisa muito séria, Dona Dorothéia.

- A gente não sabe a quem há de entregar uma filha.

- Os moços de hoje estão perdidos. Quem os tira do Alcazar e dos botequins...

- Só querem raparigas com dote.

- No nosso tempo não era assim. Quando eu me casei era pobre e meu marido não tinha nada de seu.

- A minha filha, graças a Deus, tem sido até hoje muito feliz. Não podia acertar melhor.

- Levante as mãos para o céu.

Os namorados reclamam a luva da noiva.

Às onze horas serve-se o chá.

À meia noite vão os convidados acompanhar o venturoso casal à nova habitação, onde examinam uma por uma as peças da câmara nupcial.

Na burguesia os estilos são quase idênticos.

Os mesmos comentários.

A mesma fila de carros, em alguns dos quais figuram cinco a seis pessoas, e às vezes uma preta velha que, pelo fato de haver criado a noiva, entende que deve encorporar-se ao séquito, e ir também à igreja assistir ao casamento.

As mesmas conversas do belo sexo.

Somente os dicterios dos rapazes são um pouco picantes.

Quase sempre reúne-se àqueles uma matrona com forros de engraçada, e os pobres noivos sofrem milhares de pirraças.

Mandam fechar a porta da rua.

Dançam até o raiar do dia.

Enchem de alfinetes o leito nupcial.

E fazem muitas outras coisas, que os leitores conhecem melhor do que nós, e que seria longo enumerar.

No chá dos casamentos desta ordem há sempre uma bandeja de doce, onde figuram bonequinhos empertigados e com ar risonho, representando os noivos.

Não devemos esquecer também as balas de estalo, cujos versos são pouco mais ou menos assim:

Se os noivos letra tiverem
No nome que seja igual,
Hão de servir para exemplo
Da união conjugal.


"Quem me estala bem eu sei
Com que carinha ficou
Por lhe ajudar a puxar-me
Certo primo que a logrou


Toilette do noivo no dia imediato ao das bodas:

Calça branca, colete branco, paletó branco, gravata idem, e sapatinhos de pelica.

A noiva adota a mesma cor, atando apenas à cintura uma fita cor de rosa ou azul celeste.

Os casamentos da plebe pouco diferem dos da burguesia.

O padrinho da noiva é quase sempre alguma influência eleitoral.

Com ele rompe o baile, que se prolonga animadamente até alta noite.

As conversações dos convidados são deste teor:

- Então, seu Bebeto, quando há de ser o seu dia!

- Por oras, não penso nisto. Não quero procurar trabalhos com as minhas mãos.

- Pois olhe, me disseram que a Mariquinhas está bem caída pelo senhor.

- Para cá vem ela de carrinho.

- Chii! Quantos botões de flor de laranja você ganhou, Joaninha! Tudo isto é para casar mais depressa?

- Ai! Ai! Quem sou eu!

- Pergunte a ela o que é que vai fazer o Juca todas as tardes lá em casa.

- Você pensa que eu me importo com o Juca? Faço tanto caso dele como da primeira camisa que vesti.

- Chegue-se para lá, tire o seu cavalo da chuva. Onde é que você põe o seu chinelo velho?

- Ela de quem gosta é do doutorzinho...

- Faça-se de engraçada...

- Mas ele não é para os teus beiços.

- Nem para os teus.

Os bailes que se dão para solenizar estes casamentos chamam-se festanças.

No dia seguinte distribuem-se doces pelos vizinhos, e os convidados não se fartam de dizer aos amigos:

- Estive ontem no casamento do F... Houve uma grande festança, dancei toda a noite e estou aqui que nem posso.

As festanças terminam com lautas ceias, em que se erguem entusiásticos brindes à felicidade dos noivos... e ao partido progressista.

Agora vamos estudar outra espécie de casamento, que é assaz interessante: - o casamento na roça.

A originalidade do casamento na roça começa pelo pedido do noivo.

Imaginem os leitores que acaba de apear-se no terreiro de uma fazenda um indivíduo em trajes domingueiros, acompanhado de competente pajem.

Não é o noivo, como vão ver pela seguinte conversa:

- Olá, compadre.

- Ora viva compadre!

- Então foi a missa que o trouxe por aqui?

- É verdade... e alguma coisa mais.

- Como vai a obrigação?

- Todos vão bem, com o favor de Deus.

Feitos os cumprimentos à família, diz o recém-chegado ao fazendeiro:

- Compadre, eu queria dar-lhe uma palavra em particular.

- Vamos aqui para esta sala.

- O compadre, não sei se sabe... Eu... para lhe falar com franqueza... Há certas coisas...

- Já sei; você está alcançado, precisa de dinheiro...

- Qual dinheiro! O que me traz aqui é pedir a mão da minha afilhada para o Luizinho da Porteira. Ele gosta dela, incumbiu-me disso, e ora eis ai está...

- A família dele está bem?

- Assim, assim. O rapaz é principiante, mas já colhe café e é muito trabalhador.

- Pois diga a ele que apareça.

Já vêm, pois, os leitores que na roça não é noivo quem faz o pedido; manda um delegado seu.

É o sistema representativo aplicado aos amores.

À mesa do almoço dirige-se o delegado ao vigário, que acaba de dizer a missa, e diz-lhe de modo que todos o ouçam:

- Muito breve vai ter que fazer nesta casa, reverendo.

- Deveras?

- São cá umas histórias!

- Conte-me lá.

- Saberá depois.

- Algum batizado?

- Não, isto há de ser para mais tarde.

- Então é um casamento?

- Talvez.

Ora, o fazendeiro tem três filhas, e cada uma delas fica, como vulgarmente se diz, com a pulga atrás da orelha.

Terminando o almoço vão as três para o quarto; e hei-las a conjecturar:

- É comigo.

- Qual o que! É com Terezinha.

- Comigo, não.

- É com você, sim.

- E já sei quem é o noivo.

- Quem é?

- É o Chico da Grota Funda.

- Este guarde para você.

- Querem ver que é o Inacinho do Barro Vermelho?

- Ou o Manduca da olaria?

- Eu cá não tenho pressa, se for para mim, muito bem; se não for, paciência.

Afinal decifra-se a charada.

A preferida é a que menos interesse tinha na união, o que não a impede de considerar-se muito feliz.

Chega o dia do casamento.

Nada a fazenda em júbilo.

Grande hecatombe de vitelas e carneiros e convidados a fartar.

O dono da casa é todo amabilidade.

- Sr. coronel...

- Sr. tenente-coronel...

- Sr. major...

- Sr. capitão...

- Ora viva o Sr. alferes.

- Snr. escrivão...

- Sr. subdelegado...

Chega o vigário, e passa amarrar os noivos, seguindo-se a festa, que dura muitas vezes três a quatro dias.

Os noivos da roça sofrem torturas do inferno.

Penduram-lhes campainhas na cama.

Dão-lhes serenatas estrondosas debaixo da janela.

Espalham-se açúcar nos lençóis.

Soltam-lhes grilos e sapos dentro do quarto.

E outras mil diabruras.

As festas dos casamentos da roça chamam-se pagodes.

Quando os convidados retiram-se para a corte dizem aos amigos:

- Estive no casamento de F... Foi um grosso pagode! Durou oito dias! Pintamos o diabo!

Em algumas fazendas costuma-se fazer três ou quatro casamentos no mesmo dia, a fim de aproveitar o vigário que mora longe.

A roça não é como a cidade.

Ali casa-se por atacado.

Os casamentos em relação aos noivos classificam-se em diversas espécies:

Casamentos de solteiros. Constituem o ideal do Paraíso, onde algumas vezes a sogra representa a serpente.

Casamentos de viúvos. São os únicos que deveriam ser feitos a capucha, e que na expressão do vulgo, cheiram a rapé com mofo.

Casamentos de velho com moça. É o ideal do inferno.

E finalmente o casamento de velha rica com sujeito pinga. É a sorte grande de Espanha.

O ego auctoritate qua fungor... é o ato mais sério da vida.

Na porta da alcova nupcial ou figura a fatídica inscrição - Per me se va nela cittá dolente... - ou soletra-se em letras d'ouro uma única palavra, que resume a vida inteira - AMOR!


(FRANÇA JÚNIOR, Joaquim José da. Folhetins, Gazeta de Notícias, 1878. Em PADILHA, Viriato (org.). Os roceiros; histórias e lendas do sertão.)

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