Dos amendoins temos que dar conta
particular, porque é coisa que se não sabe haver senão no Brasil, os quais nascem
debaixo da terra, onde se plantam à mão, um palmo um do outro; as suas folhas são como
as dos feijões da Espanha, e tem os ramos ao longo do chão. E cada pé dá um grande
prato destes amendoins, que nascem nas pontas das raízes, os quais são tamanhos como
bolotas, e têm a casca da mesma grossura e dureza, mas é branca e crespa, e tem dentro
de cada bainha três a quatro amendoins, que são da feição dos pinhões com casca, e
ainda mais grossos. Tem uma tom pardo, que se lhes sai logo como a do miolo dos pinhões,
o qual miolo é alvo. Comê-los crus tem sabor de gravanços crus, mas comem-se assados e
cozidos com a casca, como as castanhas, e são muito saborosos, e torrados fora da casca
são melhores. De uma maneira e de outra é esta fruta muito quente em demasia, e causam
dor de cabeça, a quem come muitos, se é doente dela. Plantam-se estes amendoins em terra
solta e úmida, na qual planta e benefício dela não entra homem macho: só as índias os
costumam plantar, e as mestiças; e nesta lavoura não entendem os maridos, e tem para sim
que se eles ou seus escravos os plantarem, que não hão de nascer. E as fêmeas os vão
apanhar, e, segundo seu uso, hão de ser as mesmas que os plantem; e para durarem todo o
ano curam-nos no fumo, onde os tem até vir outra novidade.
Desta fruta fazem as mulheres portuguesas todas as coisas doces, que fazem das amêndoas,
e cortados os fazem cobertos de açúcar, de mistura com os confeitos. E também os curam
em peças delgadas e compridas, de que fazem pinhoadas; e quem os não conhece por tal os
come, se lhos dão. O próprio tempo em que se os amendoins plantam é em fevereiro, e
não estão debaixo da terra mais que até maio, que é o tempo em que se lhes colhe a
novidade, o que as fêmeas vão fazer com grande festa.(SOUZA, Gabriel Soares de. Tratado
descritivo do Brasil em 1587) |