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Outubro 2000
Ano III - nº 26

EM QUE SE DECLARA A NATUREZA DOS AMENDOINS
E PARA QUE SERVEM

Dos amendoins temos que dar conta particular, porque é coisa que se não sabe haver senão no Brasil, os quais nascem debaixo da terra, onde se plantam à mão, um palmo um do outro; as suas folhas são como as dos feijões da Espanha, e tem os ramos ao longo do chão. E cada pé dá um grande prato destes amendoins, que nascem nas pontas das raízes, os quais são tamanhos como bolotas, e têm a casca da mesma grossura e dureza, mas é branca e crespa, e tem dentro de cada bainha três a quatro amendoins, que são da feição dos pinhões com casca, e ainda mais grossos. Tem uma tom pardo, que se lhes sai logo como a do miolo dos pinhões, o qual miolo é alvo. Comê-los crus tem sabor de gravanços crus, mas comem-se assados e cozidos com a casca, como as castanhas, e são muito saborosos, e torrados fora da casca são melhores. De uma maneira e de outra é esta fruta muito quente em demasia, e causam dor de cabeça, a quem come muitos, se é doente dela. Plantam-se estes amendoins em terra solta e úmida, na qual planta e benefício dela não entra homem macho: só as índias os costumam plantar, e as mestiças; e nesta lavoura não entendem os maridos, e tem para sim que se eles ou seus escravos os plantarem, que não hão de nascer. E as fêmeas os vão apanhar, e, segundo seu uso, hão de ser as mesmas que os plantem; e para durarem todo o ano curam-nos no fumo, onde os tem até vir outra novidade.

Desta fruta fazem as mulheres portuguesas todas as coisas doces, que fazem das amêndoas, e cortados os fazem cobertos de açúcar, de mistura com os confeitos. E também os curam em peças delgadas e compridas, de que fazem pinhoadas; e quem os não conhece por tal os come, se lhos dão. O próprio tempo em que se os amendoins plantam é em fevereiro, e não estão debaixo da terra mais que até maio, que é o tempo em que se lhes colhe a novidade, o que as fêmeas vão fazer com grande festa.

(SOUZA, Gabriel Soares de. Tratado descritivo do Brasil em 1587)

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