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Outubro 2000
Ano III - nº 26

O BUMBA-MEU-BOI

Cena I

O cavalo-marinho, a dançar, e o coro

Coro

Cavalo-marinho
Vem se apresentar,
A pedir licença
Para dançar
Cavalo-marinho
Por sua atenção,
Faz sua mesura
A seu capitão
Cavalo-marinho
Dança muito bem:
Pode se chamar
Mariquinhas meu bem
Cavalo-marinho
Dança bem, baiano
Bem parece ser
Um pernambucano
Cavalo-marinho
Vai para a escola,
Aprender a ler,
E tocar viola
Cavalo-marinho
Sabe conviver
Dança o teu balanço
Que eu quero ver
Cavalo-marinho,
Dança no terreiro,
Que o dono da casa
Tem muito dinheiro
Cavalo-marinho
Dança na calçada
Que o dono da casa
Tem galinha assada
Cavalo-marinho
Você já dançou
Mas porém lá vai
Tome que eu lhe dou
Cavalo-marinho
Vamos nos embora
Fazê uma mesura
À tua senhora
Cavalo-marinho
Por tua mercê
Manda vir o boi
Para o povo ver


Cena II

 

O amo, o arlequim, o Mateus, o boi, o coro, o Sebastião e o Fidélis

Amo
Ó meu Arlequim
Ó pecados meus
Vai chamar Fidélis
E também Mateus
Ó meu Arlequim
Vai chamar Mateus
Venha com o boi
E os companheiros seus


Arlequim

Ó Mateus, vem cá
Sinhô está chamando
Traze o teu boi
E venhas dançando
Só achei Mateus
Não achei Fidélis
Bem se diz que negro
Não tem dó da pele


Amo
Ó Matheus, cadê o boi?


Mateus
Ólá, ólá, ólá,
Boio tá prá cá
Si minha Boi chegou
Eu tá aqui;
E que foi esse
Pur aqui?
O meu xinhô
Cadê-lo Bastião?
Cadê-lo Fidére?
P'ra onde fôro?
Venha cá vocês (para o coro)
E também o boio


Entra o boi


Coro
Vem, meu boi lavrado
Vem fazer bravura
Vem dançar bonito
Vem fazer mesura
Vem fazer mistérios
Vem fazer beleza
Vem mostrar o que sabes
Pela natureza
Vem dançar, meu boi
Brinca no terreiro
Que o dono da casa
Tem muito dinheiro
Este boi bonito
Não deve morrer
Porque só nasceu
Para conviver


Mateus
O boio, dare de banda
Xipaia, esse gente
Dare p'ra trage
E dare p'ra frente...
Vem mai p'ra baxo
Roxando no chão
E dá no pai Fidére
Xipanta Bastião...
Vem pra meu banda
Bem difacarina
Vai metendo a testa
No cavalo-marinho
O, ó, meu boio
Desce d'essa casa
Dança bem bonito
No meio da praça...
Toca esse viola
Pondo bem miúdo
Minha boio sabe
Dançá bem graúdo


Coro
Toca bem esta viola
No baiano gemedô
Que o Mateus e o Fidélis
São dois cabras dansadô
No passo do juriti
Tico tico roxinó
Se Fidélis dança bem
O Mateus dança milhó
O tocadô da viola
Tem os olhos muito esperto
O som da sua viola
Parece-me um céu aberto
Eu quero boa viola
Para fazer toda a festa
O bom pandeiro conserte
O samba na floresta
Eu fui dos que nasci
No maré dos caranguejo
Quanto mais carinhos faço
Mais desprezado me vejo
Como sou filho do povo
Tenho o dom da natureza
Não sou feliz, mas bem passo
Com toda minha pobreza
Dance o boi, dance o Mateus
Dancem todos os vaqueiros
Dancem que hoje nós temos
Grande festa no terreiro


Mateus
Pára, pára, pára!
Quero dizê um recado:
- Boio dançou, dançou
Mai agora tá deitado!


Sebastião
Ah! Pracêro meu
Boio de sinhô morreu...


Mateus
A timbora, bobo
O boio divertiu muito
Agora ficou cansado
Toca bico do ferrão
Pra tu vê como arrevira
E te dá no chão


Cena III

Os mesmos, o doutor, capitão do mato, dona Frigideira, Catarina e o padre; caído o boi, foge Fidélis, chama-se um capitão do campo para o prender, e um doutor para curar o boi: aparece um padre para fazer o casamento de Catarina.


Mateus
Minha boio morreu!
Que será de mim?
Manda buscá outro
Lá no Piaui


Amo
Ó Mateus, cadê boi?


Mateus
Sinhô, o boio morreu...


Sai o Mateus espancado pelo amo.


Amo
Ó Mateus, vá chamar
O doutor para curar
O meu rico boi;
Quero saber do Fidélis
Para onde foi
Ó Sebastião, vá a toda a pressa
Chame o capitão do mato
Dé as providências,
Que traga Fidélis
Na minha presênça


Chegando o doutor, ajusta com o amo a cura do boi; dona Frigideira e Catarina, e Sebastião quer casar com esta; aparece o padre para este fim.


Padre
Quem me ver estar dançando
Não julgue que estou louco
Não sou padre, não sou nada
Singular sou como os outros


Coro
Ó gente, que quer dizer
Um padre nesta função?
É sinal de casamento
Ou d'alguma confissão


Padre
Bula bem na prima
Bata no bordão
Leva a riba a função
Não se acabe não


Doutor para Mateus
Ó negro, teu desaforo
Já chegou aonde foi:
Quando tu me chamares
É pra gente e não pra boi


Mateus

Ah! uê, ah! uê!
Troco miúdo
Tu vai recebê


O capitão de campo dá com o Fidélis e vai prendê-lo.


Capitão
Eu te atiro negro
Eu te amarro, ladrão,
Eu te acabo, cão


O Fidélis vai sobre o capitão e o amarra.


Coro
Capitão de campo
Veja o que o mundo virou
Foi ao mato pegar negro
Mas o negro lhe amarrou


Capitão
Sou valente afamado
Como eu pode não haver
Qualquer susto que me fazem
Logo me ponho a correr


(Recolhido por Melo Morais Filho em Festas de Natal. In PADILHA, Viriato (org.). Os roceiros)

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