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A ARRAIA

Nunca se deu aqui outro nome a essa armação de talas coberta de papel, poucas vezes de pano, que se chama eruditamente papagaio, e pandorga em algumas terras brasileiras, segundo informam os dicionários. Era arraia para todos os efeitos e na boca de todos. Talvez não seja desarrazoado supor que o engenho tirasse seu nome do conhecido peixe, pela sua conformação aproximadamente quadrangular ou em losango e sua cauda longa e fina. Cada formato tinha, porém, uma designação especial, sendo a de arraia aplicada particularmente àquele que representava um retângulo em sentido vertical. Havia mais: O corujão - um hexágono alongado; a coruja - um hexágono de lados iguais; o índio - um quadrado perfeito, mas funcionando em diagonal; o gamelo ou urupema - um triângulo isósceles, alongado, com a base para cima; o treme-treme, que era o mesmo gamelo com outro triângulo superposto, esse, porém achatado; a estrela, com o formato que o nome indica, tendo oito pontas ou mais; a moça, uma figura de mulher, com longa saia roçagante, os braços em ângulo, as mãos apoiadas nos quadris. Raro outras formas apareciam - o escudo, a águia, a truta; mas sempre de um único plano, jamais em caixa ou semelhantes, como hoje vemos.

Brincar com um desses aparelhos, dizia-se - soltar arraia, ao invés de empinar, como é de uso noutros lugares. Esse último vocábulo tinha o sentido restrito de - segurar o papagaio, com uma porção do fio distendido, a certa distância do dono que, tendo presa na mão a outra extremidade, ao vir uma boa lufada, gritava: - Larga! ou Solta! e corria ou puxava rápida e energicamente o fio, fazendo a arraia erguer-se e, entre descaídas e puxadas, chegar ao ponto de equilíbrio, sustentada pelas correntes aéreas. O ato de empinar era praticado por um companheiro ou ajudante.

Em todos os aparelhos os ângulos salientes eram ligados entre si dois a dois, por meio das talas que constituíam a armação e eram quase sempre flechas tiradas, ao que parece, da planta chamada cana do rio (Gynerium parviflorum Nees) e cortadas ao meio no sentido longitudinal, de modo a apresentarem um perfil transverso semicircular, cuja face plana ia colada ao papel. Essas talas cruzavam-se as mais das vezes no centro do aparelho, umas no anverso, outras do lado oposto. Da extremidade de algumas, segundo o tipo da máquina, partiam fios que se reuniam em nó e que, quando esticados, representavam um poliedro, sendo o próprio aparelho uma de suas faces. A esse conjunto de fios chamava-se cabresto e nele se atava a linha ou cordel de sustentação do engenho, ligando-se com a terra. O cabresto dos índios, treme-tremes e gamelos era mais simples. Constituía-se de um só fio, amarrado no ângulo inferior e na interseção das talas, formando um único plano quanto esticado pelo cordão principal. Para comodidade do transporte, muitas vezes só um pedaço de fio, de cerca de 20 centímetros, partia diretamente do cabresto, trazendo na extremidade uma pequena travessa de madeira, chamada chave. Formava-se então um anel na ponta do fio principal e, chegado o momento de empinar a arraia, nele se introduzia a chave, ficando o todo preparado para a ascensão.

Arraia, corujão, coruja, estrela e outros traziam na parte inferior, ligado à saliência de dois ângulos, outro cordel, formando seio, em cujo centro se ligava o rabo, que produzia a estabilidade do aparelho. Feito de uma tira de pano, tinha esse acessório de obedecer, ainda que, empiricamente, a certas regras quanto ao peso, comprimento e largura. Não era vista por aqui a cauda feita de chumações de papel amarrados a intervalos num cordel, usada noutros lugares. O índio, o gamelo e outros, como funcionassem com um dos ângulos apontando diretamente para baixo, traziam a cauda ligada diretamente ao vértice do mesmo.

Uma particularidade, porém, distingüia, muitas vezes o índio dos demais. Seu esqueleto, de que tirava o nome, era feito de uma flecha estendida entre os ângulos opostos verticalmente, e de um talo da conhecida gramínea barba-de-bode ou do nervo central de folíolos do coqueiro, vergado em forma de arco por um cordão e ligando os ângulos opostos horizontalmente. Dando notável flexibilidade às asas ou ângulos laterais, esse dispositivo permitia ao aparelho, dependendo de certa técnica, subir e equilibra-se no ar sem precisar de cauda. E o índio- sem- rabo era sempre preferido.

Se a cauda se afastava sensivelmente das regras, o aparelho dava cabeçadas para um lado e para outro e até fazia cambalhotas completas no ar, ou, se muito pesada, tornava a ascensão difícil ou mesmo impossível, dependendo até certo grau da força das correntes aéreas.

Ao índio, gênero muito sensível, podia acontecer que uma insignificante diferença de espessura entre um extremo e o outro do arco o fizesse pender para um lado. Nesse caso restabelecia-se o equilíbrio amarrando um pedacinho de papel no lado mais leve. Chamava-se força de uma arraia ao poder de tração exercida pelo engenho quando em vôo, na mão de quem o segurava. Obviamente, a velocidade do vento era o seu fator principal, mas o gênero também nisso exercia ponderável influência. Assim, a arraia, o corujão e outros de cabresto poliédrico tinham muito mais força do que os de freio simples, como o índio, etc. Compreende-se facilmente que os primeiros ofereciam ao ar em movimento uma resistência maior do que os outros, presos apenas por dois pontos e, pois, capazes de, oscilando, deixar escorregar o vento pelos lados.

O brinquedo era muitas vezes ornamentado com cordões de bandeirolas em todo o seu perímetro. Não raro, um pequeno mastro erguia-se acima da linha horizontal superior dos retangulares ou hexagonais, e dele desciam vários daqueles cordéis, formando um triângulo de bandeirinhas. Dizia-se então que a arraia era marca-navio.

Os combates entre arraias eram a pescaria e o corte. O primeiro consistia em fazer o atacante com que a cauda do adversário se enrolasse no fio do primeiro, perdendo o atacado o equilíbrio e ficando virado para baixo, incapaz de reerguer-se. Ao invés disso, no corte o atacante procurava com a própria cauda, adrede guarnecida de navalhas de vidro atingir o adversário e cortar-lhe o fio, fazendo-o rolar desaprumadamente pelo espaço, indo cair longe, conduzido pelo vento. Cá em baixo, a molecoreba vaiava o pássaro vencido e desembestava no seu encalço. Muitas vezes, porém, se o dono do aparelho atacado era bastante hábil e sabia dar uma boa descaída e uma vigorosa e oportuna puxada, o atacante era que ficava pescado, preso pelo rabo no fio daquele. Podia até acontecer que, se um aparelho mais vigoroso e de fio mais forte e longo pescava um mais fraco, aquele, dando linha, isto é, soltando tanto cordel quanto pudesse, partisse o fio do outro, incapaz de desvencilhar-se do baraço contrário ou de aguentar seu empuxão. Descaída chamava-se ao afrouxar mais fio, com a arraia no ar, sendo puxada o ato contrário de colher o fio.

De raro em raro via-se à noite flutuar no espaço uma candeia que oscilava ao sabor do vento. Era uma arraia notívaga, tendo no extremo da cauda uma velinha acesa, dentro de um pequeno vaso. Diziam, porém, que a Capitania dos Portos proibia aquela usança, por poder a pobre luminária confundir-se com o farol ou a Tramontana e desencaminhar os navegantes desprecatados.

O aviso era um pequeno círculo de papel forte com um furo no meio e um corte no sentido do raio. Por esse corte introduzia-se o cordel no furo da rodela, dava-se uma puxada, fazendo a rodela avançar um pouco pelo fio acima, seguia-se uma descaída e daí em diante o vento ascendente se encarregava de levar o aviso até a chave do cabresto. Mas aquilo tirava a força da arraia...


(SANTIAGO, Paulino. Jogos e brinquedos da minha infância. Em Boletim Alagoano de Folclore)