Jangada Brasil – Outubro 2000 – nº 26 – Festança – Festas Populares

FESTAS POPULARES

 

Para comemorar com brilho e pompa certas datas do calendário real, reuniam-se, de quando em quando, os senhores do Senado da Câmara. E organizavam festas extraordinárias, festas espantosas, que fossem depois falar ao reino da humildade satisfeita do leal vassalo da América, sem, contudo, insinuar a solicitude admirável dos seus governadores, pois pensavam eles, muito naturalmente, que, em lembrando o primeiro, os últimos não seriam esquecidos.

Esse fiel vassalo, nas correspondências oficiais que iam daqui para Lisboa, era sempre uma criatura tocada pela vara da felicidade e que, de feliz, vivia com as mãos postas, a agradecer aos céus, não só os tremendíssimos impostos, os vexames e outros sinais de opressão com que a metrópole o esmagava, mas, ainda, a ventura sem par de possuir, por amos e senhores, os monarcas mais justos e mais paternais postos pelo bom Deus sobre a crosta da terra…

Como se abusava de ti, alma ingênua e dolorosa de caboclo, figura sofredora e exaurida desse pobre e fiel vassalo tão das correspondências da colônia para a Corte! Príncipes bem-aventurados! Não nascia, não se batizava, não casava, um só, sem o espoucar do riso franco e ruidoso destes povos felizes, bem como um só não morria sem que a terra toda se umedecesse ao rolar das lágrimas sentidas pela imensa e desolada vassalagem fidelíssima. Nunca se viu solidariedade assim.

Saíam os almotacés a cavalo, em bando, não raro mascarado, pelas ruas da cidade, a anunciar ao povo os festejos decididos.

Iam ruidosos e chibantes, fazendo dançar as alimárias portentosas e irrequietas, que mostravam, sobre os ilhais suarentos e fogosos, xairéis do melhor veludo, roupas de sela da melhor qualidade, as crinas e os traseiros enfitados.

E logo foguetearia atrás. Foguetes do ar, com os seus bárbaros e neurastenizantes estouros, a bombarda infalível da colônia, que sempre definiu com indiscrição e bulha o regozijo desenfreado do reino!!

Era de ver, então, a farândola dos vadios, a corja deleitada e feliz, que corria em roldão, no coice dos cavalicoques do anúncio, formando, atrás, um séquito festivo e turbulento, de tal sorte a colaborar no alarde espalhafatoso dos edis.

Pelas praças ou pelas encruzilhadas das ruas, pelos lugares onde o povo se fizesse mais numeroso ou agitado, retesavam-se rédeas, continham-se ginetes, e do bando, então, um se destacava que lia o edital dos festejos. Aclamações. Rufar estrepitoso de tambores. Soar de clarins. Girândolas de fogos do ar… Recomeçava a cavalgada alvissareira sua corrida tumultuosa, varando ruelas, furando ruas e betesgas, por campos, por atalhos e caminhos. As grades de pau e os furos das urupemas das casas enchiam-se, pejavam-se de olhos maravilhados e satisfeitos, palpitando de ânsia, fuzilando de curiosidade. Por vezes, as próprias janelas ou as portas entreabriam-se em frinchas escandalosas de quase dois dedos. Inaudito! E toda a família, arriscando a reputação, atrás da frincha, a cocar, em cacho, gozando o tropel das cavalgaduras, o estardalhaço do poviléu esfuziante e desordenado gritando pelas ruas:

– Festas! Festas! Festas!

A notícia pegava fogo, alastrava, tomava conta da cidade. Da parte do Arsenal da Marinha à Glória ao Valonguinho, sabia-se logo que um bando vistoso corria, alegre, a anunciar festanças extraordinárias. O comércio exultava. A roda dos negócios começaria a girar gostosamente. Subiria o preço das fazendas de luxo, os sapateiros começariam logo a afirmar que o couro estava pela hora da morte. Fariam serão os peruqueiros, os alfaiates, as costureiras. Transbordariam de encomendas as casas de sege, de apassamanaria, de tinturaria… Sinhá moça, enlevada, quase enlouquecia de prazer.

O pássaro de encerro ia sair à rua e com sol! Que o papá não deixaria de levá-la pelo menos às festas dos touros, ou dos cavalos. Sinhá moça talvez mesmo fosse ver à noite as luminárias, ou os fogos artificiais. Que sonho!

Quanto aos programas de tais folganças, constavam eles pouco mais ou menos, de embandeiramentos, Te-Deum, beija-mão, procissão, touradas, cavalhadas, outeiros, ópera, luminarias… Festas para durar seis dias!

Naquela noite mesma, à luz dos candeeiros de azeite, nos interiores, em vigílias até quase madrugada, as penas de pato rangiam deliciadas, riscando orçamentos exorbitantes.

Se o movimento se fazia sentir ativo e vivo nas casas, nas lojas e oficinas, transformando o aspecto patriarcal e tranqüilo da cidade, não menos vivo e ativo era o que ia pelos campos indicados para o levantamento de um anfiteatro, onde pudessem se corridos touros e cavalos, exibidos danças e carros alegóricos. Trabalhavam carapinas vindos de toda parte; pedreiros e pintores de brocha até de madrugada, à luz de cabeças de alcatrão, que a escravaria carregava. E de um amontoado de lonas, de madeiras que carretas cuspiam sem descanso ao redor da praça, surgia, enfim, a grande peça de arquitetura, que se dispunha a impressionar os basbaques do tempo.

Que demasiado não sofra, porém, a nossa imaginação, pensando no que seriam, sob o ponde vista estético, esses surtos arquitetônicos desovados à incompetência dos homens do risco da época, os mesmos que mancharam a beleza da nossa paisagem com aquelas gaiolas coloniais sinistras e mal cheirosas que foram, aqui, a infecta e lúgubre morada do nosso pobre avô pelo correr dos séculos XVII e XVIII.

fiel vassalo, porém, sem cultura e ambiente, delirava assim mesmo. Podia lá haver melhor? Não podia, claro. A praça tinha que ser mesmo uma obra prima. Se assim as faziam em Lisboa! Só não mostrava janelas de vidro, toreuticas e os tapetes que iam buscar El-Rei ao pórtico da estrada. O resto…

Sem varandas de vidraça, alcatifas do Oriente ou da fábrica de Arrayolos, a construção indígena, como a casa do século, como a tela do tempo, como tudo enfim que pela época demandasse alguma inspiração ou um pouco de beleza, era coisa lamentável, mas de qualquer sorte dando sempre a impressão do melhor, e servindo.

Estamos diante da massa arquitetônica acaçapada e feia de uma dessas praças de curro, bem em face à boca hiante do arco monumental da entrada. Avança-se uma pouco e há logo, ao lado, uma escadaria de mangueira coberta de folhas de mangueira, tapete amável da natureza patrícia, amaciando e perfumando os passos de quem sobe, e, ao mesmo tempo, apagando as cincadas naturais do carapina. A escada é de poucos degraus e serve de acesso geral aos camarotes e as bancadas. Tem quantos degraus? Ponhamos vinte…

O camarote do Vice-Rei é o mais vasto e confortável. Fica em frente, sobre o vão elevado da escadaria, isolado e distinto. Não tem os desperdícios simbólicos do que posteriormente, quase no mesmo lugar, foi construído em honra ao príncipe D. João. Não há, aí, para delícia da pupilas árcades, musas e troféus nem a estátua da Justiça ou da Fama, uma de olhos vendados, ou quase isso, e a outra tendo na boca de gesso a trombeta emblemática, anunciando ao vassalo fiel a glória imorredoura de Portugal. Nada disso; apenas uma lona forte, de boa qualidade, esticada a capricho, e sobre ela as Reais Quinas em pintura gritante, e mais a baixo – Viva El-Rey Nosso Senhor!

A parte mais alta da praça é a representada pelos camarotes.

Descendo, caminho da arena, estão as bancadas. Vem depois a tranqueira, no estilo feio e forte, da época, mas capaz de servir à mais furiosa das investidas córneas nos momentos da função de touros. Depois, o campo de ação, a arena que, como quase todas do seu século, tem forma elíptica e é suficientemente vasta. Da sua parte mais larga mede-se uma distancia que se pode contar por uns quatrocentos palmos.

Quem lança, do centro da praça, a vista em torno, vê que as construções de madeira estão todas festivamente decoradas; cada camarote é um paliteiro de mastaréus onde se alvorotam bandeiras e galhardetes de todas as cores. Alguns há que são separados para que neles se instalem as filarmônicas cedidas pelas bandeiras de ofício e que entram na praça sob os aplausos de seus associados ou simpáticos, de estandarte ao alto, vistosamente uniformizadas.

Que não se ria o carioca de hoje da evocação que fizermos desses conjuntos musicais, de tal sorte confundindo-se com outras balbuciantes expressões de arte que na colônia tão pouco representavam a sensibilidade da raça brasílica. Lembramo-nos de que, pelo tempo, o Brasil, como exporte hoje café, exportava para Portugal música. Que nossos, rigorosamente nossos, eram o lundu, a modinha, e o próprio fado que ainda agora fala à alma portuguesa, como nos ensina Balbi num documento que data de 1821. (“Essais estatistique du Royaume de Portugal et Algarve”…). Na correspondência particular dos vice-reis do Brasil, no Rio de Janeiro, encontramos encômios especialíssimos, não só ao gênio criador dessa mesma solfa, como à proficiência das orquestras de cá, quase tão boas e tão perfeitas com as de lá.

Lembremo-nos que José Maurício explica, por si só, a vocação e o gosto pela música desses tempos.

Das festas populares que o Senado da Câmara organizava, as mais desejadas foram sempre as levadas nos anfiteatros. Como por elas delirava o avô colonial!

Como se praticavam, porém, tais folguedos entre nós, folguedos que no século XVIII particularmente requintou, e que tinham início pelo correr da tarde, depois da revista, do Te-Deum e do beija-mão do Vice-Rei?

Isso é o que vamos ver.

(EDMUNDO, Luís. O Rio de Janeiro no tempo dos vice-reis)

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Copyright © All rights reserved. | Newsphere by AF themes.