
Direi desde logo, ao iniciar este capítulo, que não
existe no Brasil nenhum quadrúpede em tudo e por tudo semelhante aos nossos. Por outro
lado convém acrescentar que os tupinambás só muito raramente se alimentam com animais
domésticos. Na descrição dos animais silvestres do país, chamados genericamente só
começarei pelos que lhe servem de alimentação. O primeiro e mais comum é o tapirussu
de pêlo avermelhado e assaz comprido, do tamanho mais ou menos de uma vaca, mas sem
chifres, com pescoço mais curto, orelhas mais longas e pendentes. Pernas mais finas e pé
inteiriço com forma de casco de asno. Pode-se dizer que, participando de um e outro
animal, é semi-vaca e semi-asno. Difere entretanto de ambos pela cauda, que é muito
curta (há aqui na América inúmeras alimárias sem cauda) ,
pêlos dentes que são cortantes e aguçados; não é entretanto animal perigoso, pois só
se defende fugindo. Os selvagens o matam a flechadas como fazem a muitos outros ou o
apanham com armadilhas astuciosas.
Esse animal é muito estimado entre os indígenas por causa da pele, depois de esfolado
cortam-lhe o couro do dorso e põem-no a secar, fazendo rodelas do tamanho de um tampo de
tonel médio, que lhe servem de escudos contra as setas inimigas na guerra. Com efeito, a
pele assim seca e preparada é tão rija que não há flecha,
creio, por mais violentamente lançada que possa furá-la. A título de curiosidade trazia
eu para a França dois desses broquéis, mas assaltando-nos a
fome no mar, vimo-nos obrigados, na falta de víveres de depois de comermos os bugios, papagaios e outros animais, a consumir as nossas rodelas
tostadas na brasa, bem como todos os couros e peles que tínhamos a bordo.
A carne do tapirussu tem quase o mesmo gosto da do boi; os selvagens a preparam à sua
moda, moqueando-a. Consiste esse sistema, que pretendo desde já descrever, para que não
fique suspenso à curiosidade do leitor, no seguinte: os americanos enterram profundamente
no chão quatro forquilhas de pau, enquadradas à distância de três pés e à altura de
dois pés e meio; sobre elas assentam varas com uma polegada ou dois dedos de distância
uma da outra, formando uma grelha de madeira a que chamam boucan. Têm-no todos
em suas casas e nele colocam a carne cortada em pedaços, acendendo um fogo lento por
baixo, com lenha seca que não faça muita fumaça, voltando a carne e virando de quarto
em quarto de hora até que esteja bem assada. Como não salgam suas viandas para
guardá-las, como nós fazemos, esse é o único meio de conservá-las. Se em um dia
apanham trinta animais ferozes ou outros dos que aqui descrevemos, para evitar a
putrefação, cortam-no logo em pedaços e os moqueiam durante mais de vinte e quatro
horas às vezes até que as partes internas fiquem tão assadas quanto as externas. O
mesmo fazem com os peixes quando os pescam em grande quantidade, principalmente com os da
espécie denominada piraparati que são verdadeiros sargos. Depois de os secar bem,
reduzem-nos a farinha. Em suma esses moquém (boucan) lhes servem de salgadeira,
aparador e guarda-comida; e entretanto em suas aldeias vemo-los sempre carregados não só
de veações ou peixes mais ainda de coxas, braços, pernas e postas de carne humana dos
prisioneiros que matam e costumam comer, como veremos adiante. Eis o que tinha a dizer
acerca do moquém e da moqueação (boucannerie) dos americanos, os quais em que
se pesem às opiniões em contrário, não deixam de cozinhar as suas viandas quando lhes apraz.
Voltando aos animais direi que os maiores, depois do asno-vaca de que acabo de falar, são
certas espécies de veados e corças a que chamam soo-uassus os quais, além de
ser bem menores do que os nossos e ter chifres menos desenvolvidos, destes ainda se
diferenciam pelos pêlos compridos como os das cabras da Europa.
Quanto ao javali do país, que os selvagens denominam taiassu, embora semelhante aos das
nossas florestas pela cabeça, pelas orelhas, pernas e pés, têm os dentes muito
compridos, curvos e pontiagudos, o que os torna perigosíssimos. É mais magro,
descarnado; tem um grunhido espantoso e apresenta nas costas uma deformidade notável, uma
abertura natural, como a do golfinho na cabeça, por onde sopra, respira e aspira quando
quer. E para que não se imagine ser isso uma coisa extraordinária direi que o autor da História
Geral das Índias afirma existirem na Nicarágua, perto do reino da Nova Espanha,
porcos com o umbigo no espinhaço, os quais devem ser da mesma espécie dos que acabo de
descrever.
Esses três animais: o tapirassu, o soouassu e o taiassu são os maiores dessa terra do
Brasil.
Passando a outros bichos mais bravios dos nossos americanos, notarei um bicho vermelho
chamado aguti, é do tamanho de um leitão de mês, tem o pé fendido, a cauda muito
curta, o focinho e as orelhas como os da lebre e é de sabor agradabilíssimo.
Outros, de duas ou três espécies diferentes, chamados tapitis, parecem-se muito com as
nossas lebres e tem quase o mesmo gosto, embora o seu pêlo seja mais avermelhado. Também
apanham nas florestas certos ratos do tamanho dos esquilos, com pêlo quase idêntico e de
carne tão delicada quanto a do coelho.
O pag ou pague (não pudemos distinguir a pronúncia), é um animal do porte do cão
perdigueiro médio; tem a cabeça felpuda e malfeita e a carne com o gosto de vitela; a
pele é muito bonita, manchada de branco, pardo e preto e se o tivéssemos seria muito
apreciado no vestuário. Existe outro animal do feitio de uma doninha e de pêlo
pardacento, ao qual os selvagens chamam sariguá, tem mau cheiro, e não o comem os
índios de boa vontade. Esfolamos alguns desses animais verificando estar na gordura dos
rins o mau odor; tirando-lhe essa víscera a carne é tenra e boa.
O tatu da terra do Brasil, tal qual os nossos ouriços, não pode correr tão rapidamente
quanto os outros; por isso arrasta-se pelas moitas; em compensação está bem armado,
coberto de escamas fortes e duras, capazes de resistirem a um golpe de espada. Com essa
carapaça, fazem os selvagens cestinhos chamados caramemo, encurvada parece manopla de
armadura. A carne do tatu é branca e muito saborosa. Não vi porém, nesse país, nenhum
quadrúpede semelhante, na altura das pernas, ao que Belon representou no fim do terceiro
livro de suas observações com o nome de tatu do Brasil.
Além desses animais, que constituem a alimentação habitual dos americanos, comem eles
crocodilos, chamados jacarés, os quais têm a grossura da coxa de um homem e comprimento
proporcional; não são perigosos pois, como me foi dado ver muitas vezes, os selvagens os
trazem vivos para as suas casas e as crianças brincam em redor deles sem mal algum.
Entretanto, ouvi contar aos velhos das aldeias que, nas matas, são às vezes assaltados e
encontram dificuldades em se defender a flechadas contra uma espécie de jacarés
monstruosos que, ao pressentir gente, deixam os caniçais aquáticos, onde fazem o seu
covil. A esse respeito, além do que Plínio e outros referem dos crocodilos do Nilo, no
Egito, diz o autor da História Geral das Índias que matou crocodilos perto da
cidade de Panamá, com mais de cem pés de comprimento, o que é coisa quase incrível.
Observei os jacarés medianos e vi que têm a boca muito rasgada, as pernas altas, a cauda
chata e aguda na extremidade. Confesso que não verifiquei se esses anfíbios conservam
imóvel a mandíbula superior, como geralmente se acredita.
Os nossos americanos também apanham tuús, lagartos que não são verdes, como os nossos,
mas cinzentos, de pele áspera como a das lagartixas. Embora tenham de quatro a cinco pés
de comprimento, e sejam proporcionalmente grossos e repugnantes à vista, conservam-se em
geral nas margens dos rios e nos lugares pantanosos, tais quais as rãs, e não são
absolutamente perigosos. Direi ainda que, destripados, lavados e bem cozidos, apresentam
uma carne branca, delicada, tenra e saborosa como o peito do capão, constituindo uma das
boas viandas que comi na América. A princípio, em verdade, repugnava-me esse manjar, mas
depois que o provei não cessei de pedir lagarto.
Também costumam os tupinambás comer certos sapos grandes, moqueados com o couro e os
intestinos, donde concluo que ao contrário dos nossos sapos cuja carne e sangue são
geralmente mortíferos, os do Brasil em virtude talvez do clima, não são venenosos. Os
selvagens também comem serpentes grossas como um braço de homem e longas de uma vara;
mas vi-os entretanto trazerem certas serpentes rajadas de preto e vermelho para casa; silvavam entre as mulheres e as crianças que, em vez de se
atemorizar, as acariciavam com as mãos. Preparam as serpentes em pedaços e as cozinham,
mas a carne é insípida e adocicada. Não faltam aí cobras de variada espécie,
sobretudo nos rios, onde se encontram algumas compridas e delgadas, verdes como a acelga e
cuja mordedura é muito venenosa. Pela narração seguinte pode-se ver que, além dos
tuús a que me referi, existem no mato lagartos grandes e perigosos.
Certa ocasião dois franceses e eu cometemos o erro de visitar o país sem guias
selvagens; perdemo-nos na mata e, quando ladeávamos profundo vale, ouvimos o rumor de um
bruto que vinha em nossa direção mas, pensando que fosse algum selvagem não paramos nem
demos importância ao caso. De repente, a trinta passos de distância, à direita, vimos
na encosta da montanha um enorme lagarto maior do que um homem e com um comprimento de
seis a sete pés. Parecia revestido de escamas esbranquiçadas, ásperas e escabrosas como
cascas de ostras; ergueu uma pata dianteira e com a cabeça levantada e os olhos
cintilantes encarou-nos fixamente. Como nenhum de nós trazia arcabuz
ou pistola, mas somente espadas e arcos e flechas na mão, armas inúteis contra animal
tão bem armado, ficamos quedos e imóveis, pois temíamos que, fugindo, o bruto viesse
contra nós e nos devorasse. O monstruoso e medonho lagarto, abrindo a boca por causa do
grande calor que fazia e soprando tão fortemente que o ouvíamos muito bem,
contemplou-nos durante um quarto de hora; voltou-se depois, de repente, e fugiu morro
acima fazendo maior barulho nas folhas e ramos varejados do que um veado correndo na
floresta. O susto nos tirou a lembrança de persegui-lo e, louvando a Deus por ter-nos
livrado do perigo, prosseguimos no passeio. E como dizem que o lagarto se deleita ao
aspecto do rosto humano, é certo que esse teve tanto prazer em olhar para nós quanto
nós tivemos pavor em contemplá-lo.
Existe nesse país um animal chamado Ian-u-are pelos selvagens, o qual tem pernas
quase tão altas e é tão veloz na carreira quanto o galgo; muito se parece porém com a
onça, com pêlos no mento e a pele lindamente manchada. Os selvagens temem essa fera,
pois vive de presa como o leão e quando pode agarrar algum índio o mata, despedaça e
devora. E como os selvagens são cruéis e vingativos contra tudo que os prejudica, quando
pilham nas suas armadilhas uma dessas feras, o que não raro conseguem, flecham-na e a
golpeiam e a deixam nos fossos durante muito tempo antes de acabar de matá-la.
Para que melhor se compreenda como esse animal os maltrata, contarei o seguinte: certa vez
eu e cinco ou seis franceses passamos para a grande ilha, advertiram-nos os selvagens do
lugar que nos acautelássemos contra a ian-u-are pois naquela semana comera ela
três pessoas numa aldeia indígena.
Há também nessa terra do Brasil grande números de pequenos macacos pretos a que os
selvagens chamam cay, como entretanto já se encontram muitos por aqui, parece-me inútil
descrevê-los. Direi todavia que vivem nas matas desse país, trepados em certas árvores
produtoras de um fruto com caroços semelhantes às nossas grandes favas e que lhes serve
de alimento. Reunidos geralmente em bandos, sobretudo no tempos das chuvas, é grande
prazer ouvi-los gritar e celebrar o seu sabbat nas árvores, tal como o fazem os
nossos gatos nos telhados. Esse animal só traz no ventre um feto, o qual ao nascer logo
se agarra ao pescoço do pai ou da mãe; perseguido pelos caçadores, salta de galho em
galho e assim se salva. Por isso não conseguem os selvagens facilmente apanhar nem
indivíduos novos nem velhos e só os chegam a pegar derrubando-os das árvores a
flechadas, donde caem atordoados e algumas vezes feridos. Depois de curados e domesticados
em casa, trocam-nos os selvagens com os estrangeiros que por aí viajam por quaisquer
mercadorias. Digo depois de domesticados, porque, quando recém-apanhados, são esses
macacos ferozes; mordem e dilaceram os dedos e as mãos dos apreensores, causando-lhes
tamanha dor que os pacientes os matam a pancadas para se livrarem da agressão.
Também existe na terra do Brasil outra espécie de macacos a que os selvagens chamam
saguim. Têm o tamanho e o pêlo do esquilo, mas o focinho, e o pescoço e a cara
parecidos com os do leão; apesar de bravio é o mais lindo animalzinho que já vi. Se
resistisse como o mono à travessia, seria aqui muito
apreciado; mas é delicadíssimo, não suporta o balanço do navio e é tão melindroso
que qualquer contrariedade o mata de desgosto. Entretanto já se vêem na Europa alguns
desses animalzinhos a que Marot alude quando assim se exprime fazendo falar seu servo
Fripelipes com um certo Sagon:
Conbien que Sagon soit um mot,
est le nom dun petit marmot.
Embora eu confesse que apesar de minha curiosidade não notei todos os animais dessa terra
da América como o desejara, descreverei para terminar dois outros de forma
extraordinária e singular.
O maior, chamado hay pelos selvagens é do tamanho de um cão-dágua grande e sua
cara de bugio se assemelha a um rosto humano; tem o ventre pendurado como o da porca
prenhe, o pêlo pardo-escuro como a lã do carneiro preto, a cauda curtíssima, as pernas
cabeludas como as do urso e as unhas muito longas. Embora seja muito feroz, no mato,
facilmente se amansa. Mas é verdade que, por causa das unhas, nossos tupinambás, que
andam sempre nus não gostam de folgar com ele. O que parece fabuloso, mas é referido
não só por moradores da terra mas ainda por adventícios com longa residência no país,
é não ter jamais ninguém visto esse bicho comer, nem no campo nem em casa e julgam
muitos que ele vive de vento.
O outro animal a que me refiro e ao qual os selvagens chamam coati é do porte de uma
lebre grande, tem pêlo curto, reluzente e mosqueado, orelhas pequenas, eretas, pontudas;
a cabeça é pouco volumosa e o focinho que começa nos olhos, tem mais de um pé de
comprimento; redondo como um bastão afina de repente conservando a mesma grossura desde
cima até perto da boca, a qual é tão pequena que nela cabe apenas a ponta do dedo
mínimo. Não me parece que exista algo mais extravagante ou monstruoso do que esse
focinho semelhante a um canudo de gaita de foles. Quando apanhado, conserva os quatro pés
juntos, caindo sempre para um ou para outro lado ou se esparramando no chão, de sorte que
ninguém pode mantê-lo de pé; só se alimenta de formigas.
Quase oito meses depois de chegarmos à ilha em que se encontrava Villegagnon, os
selvagens trouxeram-nos um desses coatis o qual, como é de imaginar foi muito apreciado
pela novidade. Por ser tão estranho, em comparação com os animais da Europa, mais de
uma vez pedi a um tal João Gardien, perito desenhista da nossa comitiva, que mo
desenhasse juntamente com outros animais desconhecidos na Europa; infelizmente ele nunca
me atendeu.
(LÉRY, Jean de. Viagem à terra do Brasil)
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 Alimárias
Animais irracionais; Animália; Animal.
Apraz Agradar, gostar de.
Arcabuz Primeira arma de foto portátil,
usada no final do século XV até o início do século XVII.
Broquéis Broquel, escudo redondo e pequeno.
Bugios Um dos nomes dos macacos do gênero Alouatta.
Mono Nome genérico dos macacos.
Rijas Duras.
Silvavam Assobiavam, sibilavam. |