Quando um cavalheiro vai em visita a outro
que não seja seu íntimo, deve comparecer todo paramentado, de tricórnio,
fivelas nos sapatos e nos joelhos, e de espada ou adaga à ilharga.
Uma vez alcançado o pé na escada, bate palmas a fim de atrair a atenção e emite uma
espécie de som sibilante, colocando a língua entre os dentes, como se estivesse a
pronunciar as sílabas tchiu-uu. O fâmulo que
atende ao chamado pergunta rispidamente: "Quem é?", e, depois de informado, vai
comunicar ao dono da casa o que deseja a visita. Se se tratar de um amigo ou de outra
qualquer pessoa já suficientemente conhecida para que a recebam sem cerimônia, o dono da
casa vem logo a ele, levando-o para a sala, ao mesmo tempo que declara em altas vozes o
prazer que tem em receber a visita, entremeando seu discurso com inúmeras reverências.
Antes de entrar a tratar de negócios, se estes constituírem o motivo da visita,
repetidas desculpas se apresentam pela maneira singela do visitante ser recebido. E, de
fato, freqüentemente sobram motivos para tais pedidos de escusas, pois que é comum o
cavalheiro aparecer com uma barba de vários dias, os cabelos pretos em franco desalinho,
embora besuntados de gordura, e sem roupa alguma sobre sua camisa de algodão. É verdade
que esse traje é bem feito, ornamentado com trabalhos de agulha, especialmente sobre o
peito; mas freqüentemente o põem de peito aberto e com as mangas arregaçadas até os
ombros; mas se, noutras vezes, acha-se atacado ao pescoço e em redor dos pulsos por
grossos botões globulares de ouro, as fraldas ficam de fora, pendentes a meia-canela por
cima da cinta que firma ao redor do lombo um par de calças curtas; as pernas vão nuas e
os pés metidos em tamancas. Nada disso é lá muito correto, tanto mais que a epiderme
dos brasileiros abunda em pelos e é bastante queimada de sol no peito e nas pernas.
No caso de se tratar de visita de cerimônia, um criado condu-la à sala, donde, no
momento de entrar, ela ainda bispa as pessoas que nela
estavam, escapando pela outra porta. Ali, a visita espera sozinha, cerca de meia hora
talvez, surgindo então o dono da casa, trajando a meiro, digamos. Ambos se inclinam, à
distância; depois de terem demonstrado o bastante de habilidade nessa ciência e assim
ganho tempo em que empregam em avaliar a categoria e as pretensões de cada qual,
aproximam-se; se desiguais, com dignidade e respeito correspondentes, e com familiaridade,
no caso de se considerarem aproximadamente iguais. Ataca-se imediatamente o motivo da
visita, liqüidando rapidamente o assunto. Esses cumprimentos entre estranhos e essa
aproximação lenta, chego quase a louvar, pois que permitem uma oportunidade às pessoas
de se medirem e avaliarem reciprocamente, evitando milhares de equívocos desagradáveis e
igualmente desagradáveis escusas. Partilho com meus conterrâneos em geral de uma
profunda aversão pelo abraço de uso entre os brasileiros.
ADVOGADOS E MEIRINHOS NA RUA
A primeira residência que tive no Rio fez-me vizinho de uma classe numerosa e importante
dos seus habitantes. Era na esquina da rua do Ouvidor com a rua da Quitanda; pois
justamente nesse canto, pela manhã de cada dia útil, os advogados junto com os meirinhos
se juntavam para tratar de seus negócios. Era então, creio eu, o único lugar em que os
homens de profissão ou do comércio se reunissem para tal fim, e, por isso, a reunião
tornava-se objeto da atenção particular dos estrangeiros. A maioria deles aparecia
vestida de casacas pretas, velhas e coçadas, algumas bem
remendadas, mas tão mal ajustadas à estatura e ao volume dos seus portadores que
despertavam, a suspeita de não serem eles os primeiros que as usavam; seus coletes eram
de cores mais alegres, corpo comprido e bordado, abas longas e algibeiras
profundas; seus calções, pretos também, eram tão curtos que mal alcançavam os rins de
um lado e os joelhos de outro, lugar em que se atavam com fivelas quadradas de brilhantes
de fantasia; suas meias, de algodão nacional, as fivelas dos sapatos, imensas. Traziam a
cabeça coberta com uma peruca empoada sobre que punham um enorme chapéu armado, já
sebento, geralmente ornado de um tope. À coxa esquerda repousava um espadim muito velho e
gasto. Era divertido observar a cerimônia melindrosa com que esses cavalheiros e seus
subalternos se falavam; a ordem precisa com que saudavam, tirando os chapéus sujos, a
forma minuciosa e a tranqüila decisão com que combinavam esvaziar os bolsos dos seus
clientes.
[1808]
(LUCCOCK, John. In BANDEIRA, Manuel; ANDRADE, Carlos Drummond de. Rio
de Janeiro em prosa e verso)
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 Algibeiras Bolsos;
Pequenos saco ou bolso numa peça de vestuário.
Bispa Dar o fora, escapar.
Coçadas Surradas, gastas.
Fâmulo Criado, serviçal, subalterno.
Ilharga Cada uma das partes inferiores do
baixo-ventre .
Tricórnio Chapéu de três pontas. |