Gamão é joguinho que só tem
graça entre parceiros cavaquistas...Não falo em gamão
que não me lembre do saudoso padre Lúcio, ou melhor, do cônego Antonio Lúcio Ferreira,
virtuoso pároco de Quixadá. Ih, meus amigos, quando o vigário estava de sorte, de sua
boca fluíam por causa do gamão, fora deportado pra Fernando de Noronha de onde fugira
com um tabuleiro, mas sempre surrando um adversário, embora com água pelo pescoço...
Estivesse, porém, de azar o bom do sacerdote, e o rival preferisse qualquer remoque inocente, ele atirava para longe dados e
"corrimboque" , tonitroando raivando que não agüentava
"sarcasmos"...
Outro dia, estando a ler o paremiólogo Leroux de Lincy, capacitei-me de que no meu Adagiário
Brasileiro são cabíveis as parlendas dos gamonistas. As expressões coletivas,
referentes a jogos e diversões, estão inclusas na décima das quatorze divisões gerais
em que Leroux preconiza sejam os rifões distribuídos por ordem alfabética.
Vários desses ditos que têm cursos aqui no Norte não me eram estranhos mas eu
precisava me enfronhar no que se repete nos estados do Sul.
Felizmente, a memória me ajudou e eu me lembrei de que, há vários anos, lera no Jornal
do Commercio, do Rio, um artigo em que o eminente escritor paulista Afonso de Taunay
relatava pitorescas e ruidosas partidas de gamão em que se empenhava com o Conselheiro
Martim Francisco e nosso Capistrano de Abreu. Dirigi-me em carta ao preclaro historiador,
que é um dos vultos exponenciais da Academia Brasileira, e tive o júbilo e
desvanecimento de dele receber mas do que lhe pedira: Taunay enviou-me seus livros Martim
Francisco III e A Vida Gloriosa e Trágica de Bartolomeu de Gusmão. No
primeiro desses preciosos tomos é que são descritas as tremendas turras entre os ínclitos jogadores que, no mais aceso das disputas, tinham a lhes
aplacar os nervos excitados à interferência manuseia da bondosa e veneranda esposa de
Martim Francisco, apropriada e amoravelmente chamada de "Quebra Mar"...
Hei de referir-me em sucessivas ocasiões, aos dois prefalados livros que, nas últimas
quarenta e oito horas, têm sido o pábulo de minha pobre
inteligência, que andava tão carecida da companhia de um espírito como o de Taunay.
Por hoje desejo frisar apenas que, mesmo não abundantes, são saborosos os
"relaxos" gamoníacos incorporados à minha coletânea. O que eu sabia era:
- Três e ás, casa faz!
- Cinco e três, casa fez!
- Azeites, senhora avó!
- Duques de Caxias!
- Ternuras de um peito amante!
- Quadratura do círculo!
- Quinas quinóricas!
- Senatus populusque romanus!
- Sena Madureira!
Vejo agora o que se diz em terras sulistas, consoante o depoimento de Taunay:
- O forte dos ases é em Cataguazes!
- Duques, duquesas e ducais!
- O forte dos ternos é nos infernos!
- Quadras quadradas e quadrinhas!
- O forte das quadras é nas esquadras!
- O forte das quinas é em Campinas!
- Quinas e repimpinas das pernas finas em Campinas!
- Senatus senator senatoris!
- O forte das senas é em Alfenas!
Quem com isso solenemente implicava era Taunay quem de uma feita, protestou, irritado,
fitando Martim Francisco:
"O senhor atordoa-me com os seus rifões! Eis aí sua principal e única força: -
estonteia o pobre adversário, com esta torrente de palavreado por vezes tão desenxabido,
freqüentemente tão