NÃO É DOCE MORRER NO MAR
Se a manhã está bonita não precisa o visitante afastar-se da cidade para assistir a um
belo espetáculo: a ida e a vinda dos saveiros, das jangadas, das canoas, através da
baía de Todos os Santos. São centenas, com suas velas brancas, batidas de luz e de
vento, deslizando serenamente sobre um mar profundo e azul. Da amurada da praça
Municipal, da praça Castro Alves, da Sé, da ladeira da Montanha, da ladeira da Barra,
admira-se a cena. O espectador domina o panorama, vê surgir de todos os lados as pequenas
embarcações: da Barra, de Itaparica, dos lados de São Roque, do Monteserrate. Ninguém
esquece momento de tanta poesia que não se verifica em nenhuma outra cidade brasileira.
Muitas destas embarcações são de carga, são de mercadorias do Recôncavo que vêm para
a capital, para voltarem à tarde. Descarregam na rampa do Mercado ou na feira de Água de
Meninos. Ali arriam suas velas, ali descansam, enquanto os seus tripulantes ficam na faina de receber e entregar os gêneros que trazem e que levam.
Mas outras são de pesca, dirigem-se para os pontos preferidos dentro da própria baía ou
se dirigem para as costas do mar batido. E se há interesse de conhecer outros saveiros,
outras jangadas, outras canoas que se dediquem exclusivamente à pesca, que se vá de
automóvel pela Barra, Rio Vermelho, Amaralina, Pituba, Chega Negro, Armação, Itapoã. A
nova estrada asfaltada construída pelo governador Mangabeira é uma delícia. Tornou
possível um dos passeios mais agradáveis da Bahia: da cidade até a lagoa do Abaeté,
pela faixa das praias mencionadas. Aí, então, está a zona de maior influência da pesca
da cidade de Salvador. Aí nascem, vivem e morrem os pescadores baianos, na sua faina
rude, tantas vezes glosadas em poemas, em romances, em
cantigas. Muito se escreveu e ainda se escreve sobre a vida destes bravos baianos, que
enfrentam o mar, o mar belo e terrível, todos os dias, em troca de minguados cruzeiros
que garantem a sua existência.
"É doce morrer no mar" já cantou Caymmi. A canção é bela, nos enche a alma
de muita poesia mas para o pescador não é doce nem morrer nem viver no mar. O mar é sua
razão de ser, a sua vida envolve-se toda ela na luta, na terrível luta pela
sobrevivência. Não somente o mar é adverso, são também as condições duras e
difíceis em que trabalham, o seu escasso rendimento, a falta de assistência dos
governos. "Toda profissão tem seus direitos e o pescador? O pescador não tem nada e
ninguém se incomoda em melhorar a sua situação. Veja quando da heróica proeza de
Jacaré e seus companheiros. Foram do Ceará ao Rio numa jangada, os jornais cantaram a
sua bravura, o Presidente da República os recebeu, o povo os aclamou, prometeram-se as
maiores garantias ao pescador. E depois? Depois nada, o pescador continua na sua vida de
sempre". Isto ouvimos na praia de Mariquita, no Rio Vermelho, de um negro, descrente
de tudo, até do seu velho e amado mar, muitas vezes irado, impedindo que os pescadores
lancem as redes para conseguir o sustento das famílias. Não, não "é doce morrer
no mar", como não é doce viver no mar. A canção de Caymmi é bela, é um dos seus
grandes momentos de compositor do povo baiano, mas o verso não é verdadeiro.
De Itapoã saem muitas jangadas, muitas canoas para a pesca, mas sobretudo muitos saveiros
que são os barcos mais pesados para tal mister. São mais
seguros, levam vários homens, podem passar a noite, afastar-se da costa, indo muito
longe. Não é raro qualquer navio encontrar em sua rota, saveiros de pesca. Levam gelo
para conservação dos peixes, voltam vezes abarrotados, com excelente colheita que
entregam na praia. Os saveiros de que já nos ocupamos atrás, são a embarcação mais
comum na baía de Todos os Santos, para a pesca e sobretudo para a carga. As jangadas e as
canoas, porém, somente servem para a pesca. Já em Chega Negro e Armação, a pesca
principal é a do xaréu. Nela, pode haver prejuízos, passar o dia inteiro, a pesca ser
um fracasso. Nunca porém os riscos da pesca de fora da praia, como os saveiros, as
jangadas, por exemplo.
Não é a jangada produto exclusivo, coisa da Bahia. Embarcação muito mais ligada, por
exemplo, ao nome do Ceará. Um poeta, por sinal, grande, o grande Manuel Bandeira, em um
soneto sobre os mares bravios, vê "sobre as águas, arfando, uma breve
jangada". E acrescenta: "Tão frágil. Deus a leve onde ela vá". E por ser
assim tão frágil é que seus homens se retemperam, se tornam fortes, duros, rijos. Para
que as domine e as torne o instrumento passivo dos seus mistéres.
A praia da Mariquita, por exemplo, é um reduto de pescadores em jangadas e canoas. À
tarde, estão elas regressando, trazendo os peixes, os interessados aguardando na praia. O
visitante, se está curioso, que espere: vale a pena. Encostados na areia, estão algumas
delas que não foram ao mar e podem se olhadas. Faça perguntas e não faltará que
informe: as jangadas saem ao mar geralmente pela manhã para regressar muitas vezes à
tarde. Nada de ficar noites altas fora da costa. À indagação de "quantos paus se
fazem uma jangada" se ficará sabendo que com cinco ou seis. Que é uma madeira leve,
encontrada sobretudo em Rio das Contas ou Caixa-Prego. Os dois externos chamam-se
"Papu", os segundos "Bordo" e os do centro "Meios". Há as
linhas para a pesca, o remo, as tarrafas de sardinha, de petitinga e de chixarro, pequenos
peixes que são vendidos às classes humildes. Se o pescador deseja levar peixe melhor os
aproveita para isca e então faz a pescaria de anzol. Para que a jangada fique parada,
usa-se uma espécie de âncora que é uma pedra sustida pela "poita", que é a
corda que sustenta. Gilberto Freyre, no seu guia de Olinda, faz uma descrição
minuciosa sobre as jangadas de Pernambuco, como tem um capítulo que é uma maravilha
sobre os jangadeiros. Lá está um excelente mapa do pintor [Antônio] Bandeira, mostrando
as diversas partes da embarcação. Analisando-se comparativamente com as da Bahia, se
verá que são mais ricas de material e que alguns nomes de suas peças variam dos das
nossas. Mas são coisas que, às vezes, não interessam senão ao visitante abelhudo,
querendo ver de perto, conhecer os nomes. Outros as preferem "pandas aos
ventos", enfeitando o mar, se é que o mar já não é belo demais.
A canoa não se afasta da costa e geralmente pescam em pares: a de pescaria, propriamente
dita e a de socorro, que serve de depósito de peixe. Trazem cerca de sete homens, sendo
cinco de remo e dois chamados "abaixa chumbo". Estes últimos se encarregam de
fiscalizar a boa colocação da rede que, em círculo, se apoia entre as duas canoas.
Verificado que o peixe "malhou" isto é, caiu na rede ambas as
canoas fazem um movimento de aproximação que vai estreitando o círculo até que se
possa jogar a rede e sua colheita na canoa de socorro.
Outra pesca que se faz é com o "munzuá", descrito em Olinda com o
nome de cóvo. Cesto ou alçapão, feito de uma espécie de cana. Colocado na maré
vazante, aguarda-se a enchente. Aí o peixe se deixa pegar e não sai mais. Vazando
novamente a maré, é recolhido. Curioso é que se usa como isca cacos de louça. Ai,
porém, do munzuá se entra o caramuru! Estraga, rompe tudo, arrebenta-o . É uma praga
para o pescador a presença do caramuru.
Quanto custa uma jangada? Se das pequenas, uns quinhentos cruzeiros, inclusive cinqüenta
cruzeiros da confecção. Mas se das maiores, vai até um mil cruzeiros. Já uma canoa com
suas redes atinge dezoito mil cruzeiros. Nem sempre o jangadeiro é dono de sua
embarcação e, neste caso, ele tem que dar um quinto de sua pesca ao proprietário, pesca
que não atinge a mais de duzentos cruzeiros por dia. Já a canoa é geralmente de
terceiros, devido o seu alto preço. Aí, o dono da embarcação leva cinqüenta por
cento, enquanto o restante fica para os pescadores, em número de sete. Ambas as partes,
pagam, cada uma, dez por cento ao mestre, que leva assim vinte por cento sobre o bruto da
pescaria.
Chegada à praia, o peixe é entregue ao revendedor, ao "peixeiro", que o vende
no mercado ou às suas freguesas, a domicílio. O "peixeiro" é que é o terror
das donas de casa. Aumenta o preço fantasticamente, vende tudo como se fosse objeto de
luxo. No mercadinho da Barra, não há quem possa enfrentar os preços: uma barbaridade.
Não se concebe que as costas baianas possam oferecer peixes como se fossem saídos de
vitrines de joalheria, tudo pela hora da morte.
É que, infelizmente, não se encarou seriamente o problema, a pesca é empírica, feita como há duzentos anos quase, o pescador
enfrentando os mares nas embarcações que constituem motivos eternos de poemas e de
cantigas, mas que são ainda rudes veículos para a profissão de muitos.
"Nossa vida é dura. Tínhamos uma cooperativa para venda de gêneros, acabou-se. Uma
colônia de pescadores, já não sabemos onde ela está", dizia-nos um pescador,
enquanto partilhávamos de sua moqueca de chicharro. Mais adiante, saíam jangadas para a
pesca. E lembrávamos a bela canção de Caymmi:
"Minha jangada vai sair pro mar
Vou trabalhar, meu bem-querer
Se Deus quiser quando eu voltar do mar
Um peixe bom eu vou trazer
Meus companheiros também vão voltar
E a Deus do céu vamos agradecer."
O meu amigo pescador prosseguia contando a dura vida dos homens de sua profissão.
"Não temos onde cair morto. Nem o mar nos quer, pois se nos afogamos, ele joga o
cadáver na praia".
Não, decididamente não "é doce morrer no mar".
(TAVARES, Odorico. Bahia; imagens da terra e do
povo)
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 Empírica
Que se apóia exclusivamente na experiência e na observação, e não em uma
teoria.
Faina Qualquer trabalho a bordo de um navio
; Trabalho prolongado.
Glosadas Inertpretar, compor.
Mister Ocupação, ofício, trabalho. |