|
|
 

SAMBA RURAL PAULISTA
Reúne-se um grupo de indivíduos, na enorme
maioria negros e seus descendentes, pra dançarem o samba. Freqüentemente esse
ajuntamento mantém uma noção de coletividade, quero dizer, forma realmente um grupo, um
rancho, um cordão, uma associação enfim, cuja entidade é definida pela escolha ou
imposição dum chefe, o dono-do-samba. Este chefe é quem toma determinações
gerais e manda em todos. Manda sem muita força, obedecido sem muita obrigação. Creio
que a sua autoridade é mais ou menos equiparável à dos tuxáuas ameríndios, que só se
mantém legítima nas guerras e grandes ocasiões em que periclitarem de qualquer forma,
é certo. Mas, à feição da autoridade mais ou menos relaxada dos tuxáuas, nenhuma vez
pude sentir a autoridade real destes donos-dos-sambas.
O grupo, formado de indivíduos de ambos os sexos, tem seus instrumentos. Instrumentos
sistematicamente de percussão, em que o bumbo domina visivelmente. A sua colocação
sempre central na fila dos instrumentistas bem como por ser da decisão dele o início de
cada dança (além do seu valor financeiro) lhe indicam francamente a primazia entre os
instrumentos. Primazia que se estende ao seu tocador.
As mulheres nunca tocam. Os homens, pelo contrário, todos tocam, e indiferentemente
qualquer dos instrumentos passando estes de mão em mão.
Está o grupo reunido pra dançar. A pinga circula. Eis justamente uma das atribuições
do dono-do-samba. Ele é que de garrafa e copinho vai de um a um dando pinga. Os homens
não recusam nunca. As mulheres vi algumas recusar. Numa congada de Lambari notei que o
dono dela mantinha, neste particular, verdadeira autoridade sobre os seus comandados.
Proibia a pinga antes da realização do bailado e ninguém que se lembrasse de
desobedecer. Nunca observei essa força nos sambas rurais. Se é certo que o dono-do-samba
procedia à distribuição de pinga, vi dançadores que tomavam por si mesmos a iniciativa
de beber no boteco mais próximo, sem que o dono-do-samba interferisse. Neste samba de
Pirapora, um dos figurantes trazia mesmo um enorme chifre às costas, que segundo
informação dele podia conter dois litros e meio de cachaça. Três destes sambistas
paulistanos, dois homens e uma mulher, vi que traziam consigo desses cantis de soldado,
suspensos a tiracolo. Só que em vez de água, pinga.
Enfileirados os instrumentistas, com o bumbo ao centro, todos se aglomeram em torno deste,
no geral inclinados pra frente como que escutando uma consulta feita em segredo.
Isto faz parte sistematizada do samba, e também existe no jongo, pelo que vi nas
proximidades de São Luiz do Paraitinga. É pois a coletividade que decide do
texto-melodia com que vai sambar.
No grupo em consulta, um solista propõe um texto-melodia. Não há rito especial nesta
proposta. O solista canta, canta no geral bastante incerto, improvisando. O seu canto, na
infinita maioria das vezes, é uma quadra ou um dístico. O coro responde. O solista canta
de novo. O coro torna a responder. E assim, aos poucos, desta dialogação, vai se fixando
um texto-melodia qualquer. O bumbo está bem atento. Quando percebe que a coisa pegou e o
grupo, memorizando com facilidade o que lhe propôs o solista, responde unânime e com
entusiasmo, dá uma batida forte e entra no ritmo em que estão cantando. Imediatamente à
batida mandona do bumbo, os outros instrumentos começam tocando também, e a dança
principia. Quando acaso os sambistas não conseguem responder certo ou memorizar bem, ou,
por qualquer motivo, não gostam do que lhes propôs o solista, a coisa morre aos poucos.
Nunca vi uma recusa coletiva formal. Às vezes é o mesmo solista que, percebendo pouco
viável a sua proposta, propõe novo texto-melodia, interrompendo a indecisão em que se
está. Às vezes surge outro solista. Desse jeito vão até que uma proposta pegue e toca
a sambar.
Assim que os instrumentos principiaram tocando, avançam em fila para a frente. As filas
de dançantes que os defrontam recuam. Depois são estas que avançam enquanto os
instrumentos recuam. A visão que se tem é dum bolo humano mais ou menos ordenado em
filas, e que, estreitamente apertado, num áspero movimento de inclinar e erguer de torso,
avança e recua em poucos passos. A extensão de terreno que um samba exige é portanto
mínimo, ao contrário do jongo que forma rodas largas. Um terreno de cinco metros por
cinco é suficiente para um samba de trinta pessoas.
Na aparência a coreografia é muito precária. Incerto rebolar de ancas, nenhuma
virtuosidade com os pés, nunca vi a umbigada tradicional, nesses quatro sambas que
observei. Apenas aquela marcha pesada para a frente e, no recuo, uns como que saltinhos
inda mais pesados, apesar de rápidos. Mas aquele inclinar e erguer de torso no avanço
traz a nós, dotados do sal civilizado, uma sensação fácil de sensualidade.
Na noite de 14 de fevereiro de 1931, foi mesmo sublime de coreografia sexual o par que se
formou de repente no centro da dança coletiva. O tocador de bumbo era um negrão
esplêndido, camisa-de-meia azul-marinho, maravilhosa musculatura envernizada, com seus 35
anos de valor. Nisto vem pela primeira vez sambando em frente dele uma pretinha nova, de
boa doçura, que entusiasmou o negrão. Começou dançando com despudorada eloqüência e
encostou o bumbo com afago bruto na negrinha. O par ficou admirável. A graça da pretinha
se esgueirando ante o bumbo avançado com violência, se aproximando quando ele se
retirava no avanço e recuo de obrigação, era mesmo uma graça dominadora. Às vezes o
negrão obliquava mais o bumbo, dava uma volta toda, pretendendo ou mimando se aproximar
da parceira, porém ela fazia a volta toda com ele, ainda achando mais graça voltear
sobre si mesma. Isso o bumbo chorava em malabarismos expressivos, grandes golpes seguidos
dum gemer de batidinhas repicadas a que finalizava sempre o golpe seco em contratempo, no
último quarto de um compasso. Era impossível não sentir que o negrão, afastado da
negrinha, mandava o seu gozo todo pro instrumento. Era visível a necessidade que tinha de
apalpar com o bumbo enorme o corpito da companheira. Às vezes, quando recuava, avançava
de sopetão dando em cheio com o arco do bumbo no ventre dela. Com violência ele fazia.
Mas a pretinha dava de banda, ou se, pressentindo a investida, o impulso o permitia, se
afastava em resposta, num arretiradinho de corpo. Nunca senti maior sensação artística
de sexualidade, que diante daquele par cujo contato físico era no entanto realizado
através dum grande bumbo. Era sensualidade? Deve ser isso que fez tantos viajantes e
cronistas chamarem de indecentes os sambas de negros
Mas, se não tenho a
menor intenção de negar haja danças sexuais e que muitas danças primitivas guardam um
forte e visível contingente de sexualidade, Não consigo ver neste samba rural coisa que
o caracterize mais como sensual. A observação mais atenta apaga logo a primeira
impressão. É um frenesi saltatório, mais que obscenidade, como observou Chauvet. O que
domina é o ritmo, o peso, a bulha violenta da percursão, as melodias primárias, e uma
brutalidade insensível. De vez em quando, no recuo, uma negra volteia rápido sobre si
mesma.
O samba dura poucos minutos, cinco, seis. De repente acaba sem nenhum sinal que determine
esse fim. Volta o grupo a se reunir em torno do bumbo e se repete a consulta coletiva,
até que se pegue um samba novo.
Na terminologia dos negros que observei, a palavra samba tanto designa todas as
danças da noite como cada uma delas em particular. Tanto se diz "ontem o samba
esteve melhor" como "agora sou eu que tiro o samba". A palavra ainda
designa o grupo associado pra dançar sambas. O dono-do-samba de São Paulo me falou que
este ano "o samba de Campinas não vem". E outros acrescentaram que a qualquer
momento devia chegar a Pirapora "o samba de Sorocaba".
Em 1933 os negros falavam indiferentemente samba ou batuque.
(ANDRADE, Mário de. O samba rural paulista. In CARNEIRO, Edison. Antologia
do negro brasileiro) |
|
|