Embora dele se extraia um óleo rico em
estearina, utilizando industrialmente na fabricação de velas, quando duro, e de sabão,
quando mole, foi como azeite, óleo comestível, que o dendê se tornou conhecido no
Brasil, e especialmente na Bahia. Até o primeiro quartel deste século, o óleo era
chamado universalmente azeite de cheiro, expressão com que, atualmente, se designa o
óleo mais refinado.Parece com efeito, muito recente esse nome de dendê.
O dendê constitui um dos poucos resultados benéficos do comércio negreiro com a
África, pois fornece um óleo ou azeite de grande riqueza em provitaminas A. não o
trouxeram os escravos, mas os traficantes. Parece viável a suposição de que os
primeiros indivíduos dessa espécie vegetal tenham vindo da Costa da Mina: era "dos
melhores" o óleo que se adquiria no porto de Lagos, escoadouro da maior produção
mundial a da atual Nigéria.
Segundo Jamieson (Vegetable fats and oils, 1943), à medida que se avança
para o sul do continente africano o dendezeiro muda de nome Ade-Quoi, Adersan,
na Costa do Marfim; Abe Pa, Abobobe, na Costa do Ouro (Gana); DeYaya,
De-kla, De-Gbakun, Votchi, Fade, Kissede, no
Daomé; Dibope, Lisombe, nos Camarões; Mohei no Kungwana; Esombe,
na Bangala... Eurico Teixeira da Fonseca já afirmava, sem indicação de fontes,
designar-se esta planta por dendém ou andim na África.
Ladislau Batalha (Costumes Angolenses) escreveu que o fruto da palmeira
chamava-se denden em Angola, enquanto "o azeite de planta para negócio e
tempero doméstico" era magi man dende. Esta palavras, em quimbundo,
pronunciam-se denden e dendê não obstante o "e"
fechado final, a acentuação tônica recai na primeira sílaba. Foi no Brasil que dendê
se tornou oxítona.
Trata-se de uma palmácea que ostenta, no encontro das palmas, com haste,
inflorescências na forma de cachos, seis a oito por ano, que amadurecem duas vezes em
cada translação. Produto da floresta tropical, nasce espontaneamente nas terras pretas e
no massapê, e em geral nos solos frescos a úmidos, leva cerca de oito anos para
frutificar, mas não necessita de cuidados especiais: dão maior produção os pés que
recebem lixo, cinzas, urinas, e detritos em geral sobre as suas raízes. O habitat natural
desta monocotiledônea vai da Gâmbia até Angola, sem solução de continuidade, ocupando
uma faixa litorânea de cerca de 450Km de largura, que o Congo invade o interior até os
lagos Alberto Nyanza e Tanganyika.
Os traficantes de escravos acrescentaram o dendezeiro a paisagem natural do Brasil sem
maiores dificuldades. Era natural que o plantassem primeiro na Bahia então o grande
centro do comércio de negros. Na sua Notícia da Bahia (1759), José Antonio
Caldas informava que os navios negreiros, na ocasião freqüentavam a Costa da Mina para
negociar "azeite de palmas" além de escravos. Se isto não prova a
inexistência da palmeira no país pelo menos indica que a produção de azeite, ou não
fazia ainda ou era íntima em relação às necessidades brasileiras, Vilhena conseguiu
encontrar estatísticas de 1798 que mostram que, naquele ano, entraram na Bahia mil
canadas de azeite de palmas, da Costa da Mina e 500 canadas da ilha de São Tomé, no
valor total de 1.500$, ou seja a mil réis a canada cerca de 4.000 litros. No
momento, porém, em que escrevia suas Cartas Soteropolitanas (1802), já estava
aclimado o dendezeiro tanto que o professor régio propunha que fossem plantados nas
terras dos engenhos a fim de se extrair do coco "azeite, tempero essencial da maior
parte das viandas dos pretos e ainda dos brancos, criados com eles".
O azeite conquistou facilmente a preferência da população que se vale do dendê de
vários modos e maneiras, seja como tempero, seja como alimento seja para outros fins. A
polpa do coco pode ser comida crua, mais, sempre que possível os cocos eram fervidos em
água e sal, ingerindo depois a polpa, mais tenra e macia. Uma verdadeira guloseima eram
cafuné, o coco novo, do olho do cacho que praticamente é apenas polpa, sem amêndoa. O
sedimento acumulado no fundo do tacho depois da primeira fervura, o bambá de coloração
turva, era vendido pelas ruas da cidade da Bahia em medidas de folhas-de-flandres e comido
com farinha e sal. E, quando o azeite está chegando ao ponto, os últimos restos de borra se aglutinam em forma de torresmos, catetê, de sabor muito
apreciado pelos baianos. Manuel Querino conta que os negros faziam vinho de dendê na
Bahia uma beberagem muito estimada na África.
Para as pessoas exigentes há a flor do azeite, o óleo mais apurado, transparente no
seu alto grau de refinação. O povo prefere o óleo de fabricação industrial. Há
pessoas que não dispensam o azeite, quente ou frio, na comida, na salada, no pão, no
doce...
As palhas do dendê, depois de batidas , ficam ainda levemente impregnadas de óleo.
Fazem-se com essas palhas, uns rolos chatos do tamanho de um pires, aguxó, para acender -
e daí o nome que se dá ao penteado feminino que assume essa forma.
Dura e trabalhosa era a extração do azeite como se pode aquilatar por exata
descrição de técnicos do Ministério da Agricultura (1916):
Os rácimos separados pela foice sem gavião são expostos durante quatro dias no
mínimo ao sol e mesmo unicamente três dias, se tem frutos bem maduros. Então toma-se
cerca de dois quilos de frutos e se cozinha em uma marmita de ferro, e a massa polposa que
deles resulta é pisada em um almofariz ou pilão e misturada com água morna. Com a mão
separa-se então as fibras do envoltório dos caroços e se deitam fora umas e outros. O
óleo que sobrenada é misturado com água morna; deita-se em uma peneira, depois a polpa
é posta a ferver em água até que não deixe mais exsudar
novo óleo, novamente é passado em peneira e assim separado em diversas vezes é reunido
e fervido até a eliminação da água. O produto assim obtido é excelente e convém
muito bem aos usos culinários.
Esta é, em geral, a forma por que se obtém o óleo grosso, pesado, quase pastoso, que
empresta sabor especial às comidas "africanas" da Bahia e do Maranhão.
(CARNEIRO, Edison. Ladinos
e Crioulos.)