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homenagem ao dias das aves e animais
O LUBZHOMEM DO MAR

Caipora, mãe d’água fantasma, Burra de Padre, reino encantado e outras visões terríveis que aparecem à noite, pelo mundo afora

Muita gente acredita
Em lubzhomem, em caipora
Fantasma e burra de padre,
Que andam fora de hora,
Se o amigo acredita
Leia a história bonita,
Dos fatos que narro agora.

O mar é um grande abismo
Que parece encantado
Não há sábio neste mundo
Por mais que seja ilustrado,
Que conheça seus encantos
Geme, suspira sem prantos
E é amalassombrado

No mar se vê gente morta
Junto à embarcação,
Gritos gemidos e ais
De cortar o coração
Jangadas correr sem gente
De outra tomar a frente
É apenas uma ilusão.

No Rio Grande do Norte
Desde da antigüidade
Na praia da Ponta Negra
Era grande a novidade
Na noite que tinha luar
Viam jangada encalhar
Trazendo peixe à vontade

Quem botava para cima
Corria para ajudar
Desaparecia a mesma
Sem nada mais encontrar
Retirava-se assustado
Todo atemorizado
Com o lubzhomem do mar.

De dentro do mar saía
Um grande tonel correndo
Quando a maré estava seca
Sentia o chão estremecendo,
Com tanta velocidade
Que a fraca humanidade
Ficava toda tremendo.

Em todo mar aparece,
Coisas de admirar
Pescadores e jangadas
Que no alto vão pescar
Quando arreiam os tauássus,
Fantasmas negros e nus
Vêem nas ondas boiar

Puxam embaixo na poita
Fazendo alagar a proa
O proeiro corta a mesma
Pois a cousa não é boa
Os fantasmas a saltar
Fingindo querer virar
A jangada, ou a canoa.

No alto do mar, aparece
Um navio, uma visão
Com as lâmpadas acesas
Com magnífico clarão,
Quando perto vai chegando,
Em vento vai se virando
Deixa todos em confusão

Aparece objetos
A noite no alto do mar
Pranchões, garrafas, baús,
E quando alguém vai pegar
Bota o barco a todo pano
Pode correr todo ano
Porém não pode alcançar.

Muitos têm visto cidades
O comércio em movimento
Vai encostando o navio
Para comprar mantimento,
A mesma desaparece
E a tempestade cresce,
Que é horrível o tormento.

Pescadores têm contado
Que à noite no alto mar,
Aferram peixes enormes
Que cansam de trabalhar
Soam que muda de clima
Quando o peixe chega em cima
E nada pode acreditar

Têm visto procissões,
Nas ondas do mar profundo
Com muito mais cerimônia
Das que se faz neste mundo
A depois desaparece
E a tempestade cresce
Ficando o mar
furibundo.

Na prainha do Ceará,
Naufragou-se um navio
No tempo da antigüidade
Não pode então ter desvio,
Era forte e majestoso
Possante e mui valoroso
De cômodo bom e sombrio.

Ainda hoje se ver
O casco dele enterrado
Aonde se naufragou
Ficara malassombrado
Alguém ir lá não se afoite
Aparece à meia-noite
Por completo iluminado.

Os habitantes da praia
Já estão acostumados
Não ligam mais importância
De ver estão enjoados
É tão visível a visão
Que verem com perfeição
Os nautas dentro animados

A trabalhar no navio
Fazendo a baldeação
Uma orquestra harmoniosa
Com grande animação
Muitos a cantar modinha
Essa visão na prainha,
Faz chamar muito atenção

Gritos de todas as formas
Se houve o povo gritar
Com ilusão de vivos,
Sem um til disso faltar
Vai até tarde a visão
Só tem desaparição
Perto do galo cantar.

No porto de Fortaleza
Aparece outro navio
Que ancora nesse porto
Sem consentimento prévio,
Quando vão ao visitar,
Desaparece no mar
Ficando o pessoal frio.

Botam a gasolina a toda
Para com urgência chegar
Quando dão fé o navio
Tem se sumido no mar
Quando voltam a estar no porto
Todo o pessoal, é morto
Cristão não pode alcançar

É sinistro de uma forma
Que faz até duvidar,
Quando chega arreia o ferro
E põe-se então a apitar
Pedindo urgente visita
Uma visão esquisita
O lubzhomem do mar.

Dizem que ele uma noite
Pedira visita urgente,
Conseguiram visitá-lo
O médico ia na frente
Quando a lancha foi chegando
O navio foi mergulhando
Sobre as ondas de repente

Contam que um pescador,
Estava a pescar no mar,
Quando passava o navio
Ouvira um perguntar
Tem peixe para vender?
Nós estamos sem comer
Preferimos um jantar.

E perto do jangadeiro
Ficou o mesmo parado
O pescador foi vender
O peixe que tinha pegado,
Não lembrou-se de São Roque
O navio deu-lhe um choque
Que quase morre assombrado.

Ouvira uma voz dizer
Gente que morre não come!
E outra que contra dizia
Saiba que estamos com fome
O pescador já temido
Com o lub, referido
Que nesta ocasião se some.

Sempre vive aparecendo
Que causa espanto falar,
Aparece aos pescadores
Na noite que vão pescar
Verem o mar se incendiando
As chamas se levantando
É o lubzhomem do mar.

O mar é misterioso
Isto estar aprovado
Dizem que dentro dele
Existe reino encantado
Porém nisto o leitor não creia
Porém existe uma sereia,
Que canta até um bobado

Dizem que sempre aparece
Na linha do alto mar,
Cantar lindo como ela,
Mulher não pode cantar
Quando começa a canção
Detona-se um canhão
Para ela se calar.

O mar, é todo composto,
De matéria diferente,
Existe a visão do peixe,
Que aparece freqüente
Parece mitologia
Porém não é fantasia
É coisa séria existente

A mãe d’agua é um ser
Com aparência de gente
Tem beleza encantadora
De uma mulher excelente,
De aspecto sombrio
Habita dentro de um rio
Encantada eternamente.

É a deusa que governa
Nas águas as peixarias
Quando não quer não se mata
Um peixe na pescaria
Logo parece a visão
Aterrorizando o cristão
Nada mata nesse dia.

Aparece um tarrafeiro
Tarrafiando na frente
Ver-se a tarrafa cair
Na água perfeitamente
O freguês pesca que soa
Percorre toda lagoa
Porém não pega um vivente

Engancha a tarrafa vai pescar,
Em noite muito escura
Em lugar d’água profunda
Com seis metros de fundura
Aparece o tarrafeiro
Pescando no aguaceiro
Com água pela cintura.

Muitos n’água tem cobrido
Cabeças como de gente,
Engancha no chumbo da tarrafa
E quebra a corda da frente
Deixe o parelho enganchado
Corre para a casa assombrado
Fica com isso doente.

É uma mulher tão linda
Que faz o homem encantar
Sempre aparece despida
Nas águas a se banhar
De cor branca muito bela
Porém bolindo com ela
Faz a gente se afogar.

De repente dizem que faz
As águas do rio crescer,
O cristão fica inerte
Sem coragem para correr,
O rio fica profundo
O infeliz vagabundo
Tem que desaparecer.

Existe a visão da caça
Uma mulher invisível
Conhecida por caipora
Que é perversa e terrível
Habita em uma mata
Mete nos cães a chabata
É uma coisa impossível

As fêmeas são sedutoras
Caboclas bem moreninhas
Andam despidas no mato
Do tamanho de criancinhas
Possuem força gigante
De natureza irritante
E ferocidades mesquinhas.

Os machos são perigosos
Não gostam de caçador
Antes pelo contrário
Ao homem tem horror
Faz-se dele inimigo
Quando quer bota em castigo
Seja lá ele quem for.

As fêmeas namoram o homem
Com amizade singela
E é obrigado ele dar
Todo dia fumo a ela
No dia em que não levar
Terá muito quer apanhar
E perde a amizade dela

Porém não faltando fumo
É constante seu amor
Mata caça facilmente
Ela entrega ao caçador
Se isso for descoberto
O castigo terá por certo
Apanhar que causa horror.

Faz montaria na caça
Do
caititu ao veado
Com a caçaria na frente
Com que vaqueja o gado
Se o caçador atirar
No bando quando passar
Há de ficar enrascado.

Ela agarra o freguês
No tronco do mocotó
E para dar-lhe uma surra
Quebra um grosso cipó
Se o freguês não correr
Se desta vez não morrer
Apanha que causa dó.

O lubzhomem se vira
De um amarelo enjabrado,
Que se mete a virar bicho,
Para poder correr fado
Aonde um burro se espoja
O amarelo se arroja
E fica em bicho virado.

Percorre o mundo inteiro
Antes do galo cantar
Quando encontra uma pessoa
Se bota para chupar
Estando em luta cerrada
Dando-se uma furada
Faz ele desencantar

Quando mata bebe o sangue
Deixa a carne por subejo
Como estrume de galinha
E ossos de caranguejo
No lugar que tem matança
Come até encher a pança
E quando mata o desejo

Dizem que a burra do padre
É muito mais perigosa
Que para desencantá-la
Não é de graça nem prosa
Só corre com tinideira
É danada de coiceira
E de presença horrorosa

Dizem que ela se gera
De uma famosa concubina
Na morada de um padre
Que maculou a batina
Por causa da maldição
Se vira nessa visão
Que é assim tão ferina.

O fantasma é um monstro
Uma visão do luar
Quando aparece ao cristão
Põe-se a se envergar,
Para o lado do cristão
Se ele não correr então
Terá que se assombrar.

Dizem que ela se gera
do espírito do animal
Em logares de capoeiras
É onde aparecem a final
Porém não mata ninguém
Quase em toda parte tem
Esse obreiro do mal.

Verem sombras esquisitas
Sobre as ondas do mar
Choros de velhos e crianças
De fazer admirar
Tiros como de canhão
Campos com vegetação
Que faz até espantar

Homens nadando no alto
Estão cansados de ver
Outros a vagar nas ondas
Gemendo para morrer
Cabeças como de gente
Na água viva corrente
Fingindo querer morder.

Porém com o canto dela
Faz o navio se prender
O povo se esquece dele
Com ela se entreter
Quando o povo perde a vida
A sereia referida
Vai aos cadáveres comer.

Aparece outras diversas
À noite no oceano
Verem navios mergisem
Naufragar com todo pano
A implorar o socorro
Gritando dizendo eu morro
Porém tudo é um engano.

Existe também um fogo
A quem chamam batatão
Queima as carnaubeiras
Que fica feito carvão
Quando o dia amanhecer
Pode repara que ver
Com a mesma perfeição.

Dizem que o Amazonas
É um lugar arriscado
Além das feras que tem
E muito amalassombrado
Tem a mãe da seringueira
Uma visão feiticeira
Que faz o homem azarado.

Quando se vai tirar o leite
Algura o aviso mau,
Sai na frente do freguês
A cortar também o pão
Se ele teimar a cortar
Todo leite que tirar
Não dá para o mingau.

Existe outra visão
Um tal Martim Pereré
De forma de uma pessoa
Com escama de jacaré
Se alimenta com caça
Dizem que ele não passa
Aonde tem igarapé

Grita com voz humana
O cristão arremedando
Quando pega uma criatura
De repente via matando
Com dentes do puro aço
Bota debaixo do braço
Sai em pedaços rasgando.

No canal do rio profundo
Existe o boto encantado
Inimigo das crianças
Esse animal malvado
Moça ou mulher casada
Indo no rio embarcada
Faz o batel alagado.

Das 5 às 6 da tarde
Não se anda com criança
Porque o Boto encantado
Tem atração que alcança
De dentro d’água do rio
Dar um choque tão macio
Que faz perder a lembrança.

 

 (CASCUDO, Luís da Camara. Geografia dos mitos do Brasil.)

 
Um poeta popular, Luiz da Costa Pinheiro, é autor de um folheto registrando os principais mitos do nordeste e norte do Brasil. Escrevendo para o povo em cujo seio vive, o poeta, com ortografia curiosa e comentários imprevistos, passa em revistas as assombrações que vivem no espírito coletivo de toda uma imensa região. Transcrevendo os versos, comprovo apenas a vitalidade dos mitos. Alguns estão deformados, visivelmente pelo próprio vate; como o Mapinguarí que ele confunde com a Matinta-Pereira e chama "Martim Pereré" .

A parte sobre os mitos do mar são conhecidíssimos nas praias e muitos episódios tenho-os ouvido, narrados pelos pescadores veteranos em pescarias com "terra encoberta".


(Nota de Luís da Câmara Cascudo)
 

Caititu – Espécie de porco do mato.
 
Furibundo – Irado, enfurecido.
 
Poita – Corpo pesado que serve de âncora para pequenas embarcações.
 
"Subejo" – Sobejar, de sobra.
 
Vate – Poeta, versejador.

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