Jangada Brasil, nº 14, outubro de 1999: Festança – Samba Rural Paulista

SAMBA RURAL PAULISTA

Reúne-se um grupo de indivíduos, na enorme maioria negros e seus descendentes, pra dançarem o samba. Freqüentemente esse ajuntamento mantém uma noção de coletividade, quero dizer, forma realmente um grupo, um rancho, um cordão, uma associação enfim, cuja entidade é definida pela escolha ou imposição dum chefe, o dono-do-samba. Este chefe é quem toma determinações gerais e manda em todos. Manda sem muita força, obedecido sem muita obrigação. Creio que a sua autoridade é mais ou menos equiparável à dos tuxáuas ameríndios, que só se mantém legítima nas guerras e grandes ocasiões em que periclitarem de qualquer forma, é certo. Mas, à feição da autoridade mais ou menos relaxada dos tuxáuas, nenhuma vez pude sentir a autoridade real destes donos-dos-sambas.

O grupo, formado de indivíduos de ambos os sexos, tem seus instrumentos. Instrumentos sistematicamente de percussão, em que o bumbo domina visivelmente. A sua colocação sempre central na fila dos instrumentistas bem como por ser da decisão dele o início de cada dança (além do seu valor financeiro) lhe indicam francamente a primazia entre os instrumentos. Primazia que se estende ao seu tocador.

As mulheres nunca tocam. Os homens, pelo contrário, todos tocam, e indiferentemente qualquer dos instrumentos passando estes de mão em mão.

Está o grupo reunido pra dançar. A pinga circula. Eis justamente uma das atribuições do dono-do-samba. Ele é que de garrafa e copinho vai de um a um dando pinga. Os homens não recusam nunca. As mulheres vi algumas recusar. Numa congada de Lambari notei que o dono dela mantinha, neste particular, verdadeira autoridade sobre os seus comandados. Proibia a pinga antes da realização do bailado e ninguém que se lembrasse de desobedecer. Nunca observei essa força nos sambas rurais. Se é certo que o dono-do-samba procedia à distribuição de pinga, vi dançadores que tomavam por si mesmos a iniciativa de beber no boteco mais próximo, sem que o dono-do-samba interferisse. Neste samba de Pirapora, um dos figurantes trazia mesmo um enorme chifre às costas, que segundo informação dele podia conter dois litros e meio de cachaça. Três destes sambistas paulistanos, dois homens e uma mulher, vi que traziam consigo desses cantis de soldado, suspensos a tiracolo. Só que em vez de água, pinga.

Enfileirados os instrumentistas, com o bumbo ao centro, todos se aglomeram em torno deste, no geral inclinados pra frente como que escutando uma consulta feita em segredo.

Isto faz parte sistematizada do samba, e também existe no jongo, pelo que vi nas proximidades de São Luiz do Paraitinga. É pois a coletividade que decide do texto-melodia com que vai sambar.

No grupo em consulta, um solista propõe um texto-melodia. Não há rito especial nesta proposta. O solista canta, canta no geral bastante incerto, improvisando. O seu canto, na infinita maioria das vezes, é uma quadra ou um dístico. O coro responde. O solista canta de novo. O coro torna a responder. E assim, aos poucos, desta dialogação, vai se fixando um texto-melodia qualquer. O bumbo está bem atento. Quando percebe que a coisa pegou e o grupo, memorizando com facilidade o que lhe propôs o solista, responde unânime e com entusiasmo, dá uma batida forte e entra no ritmo em que estão cantando. Imediatamente à batida mandona do bumbo, os outros instrumentos começam tocando também, e a dança principia. Quando acaso os sambistas não conseguem responder certo ou memorizar bem, ou, por qualquer motivo, não gostam do que lhes propôs o solista, a coisa morre aos poucos. Nunca vi uma recusa coletiva formal. Às vezes é o mesmo solista que, percebendo pouco viável a sua proposta, propõe novo texto-melodia, interrompendo a indecisão em que se está. Às vezes surge outro solista. Desse jeito vão até que uma proposta pegue e toca a sambar.

Assim que os instrumentos principiaram tocando, avançam em fila para a frente. As filas de dançantes que os defrontam recuam. Depois são estas que avançam enquanto os instrumentos recuam. A visão que se tem é dum bolo humano mais ou menos ordenado em filas, e que, estreitamente apertado, num áspero movimento de inclinar e erguer de torso, avança e recua em poucos passos. A extensão de terreno que um samba exige é portanto mínimo, ao contrário do jongo que forma rodas largas. Um terreno de cinco metros por cinco é suficiente para um samba de trinta pessoas.

Na aparência a coreografia é muito precária. Incerto rebolar de ancas, nenhuma virtuosidade com os pés, nunca vi a umbigada tradicional, nesses quatro sambas que observei. Apenas aquela marcha pesada para a frente e, no recuo, uns como que saltinhos inda mais pesados, apesar de rápidos. Mas aquele inclinar e erguer de torso no avanço traz a nós, dotados do sal civilizado, uma sensação fácil de sensualidade.

Na noite de 14 de fevereiro de 1931, foi mesmo sublime de coreografia sexual o par que se formou de repente no centro da dança coletiva. O tocador de bumbo era um negrão esplêndido, camisa-de-meia azul-marinho, maravilhosa musculatura envernizada, com seus 35 anos de valor. Nisto vem pela primeira vez sambando em frente dele uma pretinha nova, de boa doçura, que entusiasmou o negrão. Começou dançando com despudorada eloqüência e encostou o bumbo com afago bruto na negrinha. O par ficou admirável. A graça da pretinha se esgueirando ante o bumbo avançado com violência, se aproximando quando ele se retirava no avanço e recuo de obrigação, era mesmo uma graça dominadora. Às vezes o negrão obliquava mais o bumbo, dava uma volta toda, pretendendo ou mimando se aproximar da parceira, porém ela fazia a volta toda com ele, ainda achando mais graça voltear sobre si mesma. Isso o bumbo chorava em malabarismos expressivos, grandes golpes seguidos dum gemer de batidinhas repicadas a que finalizava sempre o golpe seco em contratempo, no último quarto de um compasso. Era impossível não sentir que o negrão, afastado da negrinha, mandava o seu gozo todo pro instrumento. Era visível a necessidade que tinha de apalpar com o bumbo enorme o corpito da companheira. Às vezes, quando recuava, avançava de sopetão dando em cheio com o arco do bumbo no ventre dela. Com violência ele fazia. Mas a pretinha dava de banda, ou se, pressentindo a investida, o impulso o permitia, se afastava em resposta, num arretiradinho de corpo. Nunca senti maior sensação artística de sexualidade, que diante daquele par cujo contato físico era no entanto realizado através dum grande bumbo. Era sensualidade? Deve ser isso que fez tantos viajantes e cronistas chamarem de indecentes os sambas de negros… Mas, se não tenho a menor intenção de negar haja danças sexuais e que muitas danças primitivas guardam um forte e visível contingente de sexualidade, Não consigo ver neste samba rural coisa que o caracterize mais como sensual. A observação mais atenta apaga logo a primeira impressão. É um frenesi saltatório, mais que obscenidade, como observou Chauvet. O que domina é o ritmo, o peso, a bulha violenta da percursão, as melodias primárias, e uma brutalidade insensível. De vez em quando, no recuo, uma negra volteia rápido sobre si mesma.

O samba dura poucos minutos, cinco, seis. De repente acaba sem nenhum sinal que determine esse fim. Volta o grupo a se reunir em torno do bumbo e se repete a consulta coletiva, até que se pegue um samba novo.

Na terminologia dos negros que observei, a palavra samba tanto designa todas as danças da noite como cada uma delas em particular. Tanto se diz “ontem o samba esteve melhor” como “agora sou eu que tiro o samba”. A palavra ainda designa o grupo associado pra dançar sambas. O dono-do-samba de São Paulo me falou que este ano “o samba de Campinas não vem”. E outros acrescentaram que a qualquer momento devia chegar a Pirapora “o samba de Sorocaba”.

Em 1933 os negros falavam indiferentemente samba ou batuque.

(ANDRADE, Mário de. O samba rural paulista. In CARNEIRO, Edison. Antologia do negro brasileiro)

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