Jangada Brasil, nº 14, outubro de 1999: Almanaque – 1/3

Nascido de um escorregão em hora imprópria da mãe dona Nicota e batizado por engano do padre surdo com o nome de Cornélio, ao invés de Rogério, esse paulista de Tietê tem em sua própria história muito da vida rústica da “civilização cabocla”. Civilização que, ao retratar em inúmeras outras comunidade pelo Brasil a fora, tornou-o conhecido e reverenciado nas décadas de 1920 e 1930.

Mistura de poeta, escritor, contador de casos, conferencista e humorista, Cornélio Pires foi uma espécie de showman da cultura caipira. Para o pesquisador e escritor Macedo Dantas, que lhe dedica uma obra a vasculhar minuciosa e bibliograficamente a existência, “ele é o pai do folclore paulista, notável observador da linguagem , dos costumes, da paisagem humana e física do mato”.

Tendo convivido na infância com os escritos e as apresentações de Cornélio, no sul de Minas Gerais, onde morou, o historiador Antônio Cândido, ao prefaciar o livro de Dantas, sintetiza: “Meio escritor, meio ator, meio animador; generoso, combativo, empreendedor, simpático – a sua maior obra foi a ação nos palcos nas palestras na literatura falada que perde bastante quando é lida. Como os oradores, como certo tipo de poetas, como os repentistas e os velhos glosadores de mote, a dele foi uma literatura de ação e comunhão direta, eletrizante, com o público”.

Os caipiras deste mato
Não anda de quatro pé
Não são, Montêro Lobato
Como tu, feição de gato,
Qis pintá nos Urupé.

A característica mais importante a se recuperar no universo caipira, como enfatiza o professor e editorialista do jornal O Estado de São Paulo, Hélio Damante, é a forma de fala que tem o poder de captar o espírito do caboclo. Transformar em representação gráfica esses fonemas, possibilitando fidelidade aquela realidade, era algo que não havia sido explorado até Cornélio Pires”.

Essa dificuldade técnica era ainda agravada no caso de Cornélio por seus primeiros escritos terem surgido quando a moda literária era a erudição gramatical.

Desprovido de preparação intelectual, pois nunca se dedicara aos estudos embora dispusesse de condições financeiras para tal. Cornélio vivia, na capital, no meio jornalístico e buscava aceitação de sua roda social , dividindo entre cultivar as suas raízes caipiras ou bancar o intelectual que jamais seria.

Essa contradição se refletirá em toda a sua obra, repleta de altos e baixos no que diz respeito à aceitação crítica já que como conta Dantas: “Há um Cornélio dialetal, folclórico, costumista, desenhista notável de coisas sertanejas psicológico sutil da alma cabocla, cheio de ternura, pitoresco e simpático para com a gente do mato. Há o Cornélio metido a literato de tom acadêmico ignorante da literatura universal e de língua culta, da música dos movimentos nacionais e mundiais, das leis e da ficção e da estilística.

O primeiro merece respeito, o segundo já estaria fora da literatura se não fosse o outro”.

O momento certo para impulsionar Cornélio a publicar seus primeiros escritos se dará em 1910, quando se revaloriza a vida sertaneja principalmente em decorrência do sucesso de Euclides da Cunha com o livro Os Sertões. Nessa época ele lança sua primeira coletânea de poesias, a mais conhecida até hoje Musa Caipira, que consagra o soneto Ideal caboclo:

Ai, seu moço, eu só quiria
P’ra minha filicidade
Um bão fandango por dia,
E um pala de qualidade.
Porva espingarda e cutia
Um facão fala verdade,
E u’a viola de harmonia
P’ra chorá minha sodade.
Um rancho na bêra d’água
Vara de anzó, pôca mángua,
Pinga boa e bão café…
Fumo forte de sobejo,
P’ra compretá meu desejo,
Cavalo bão – e muié…

O sucesso conquistado serviu de estímulo, fazendo com que passasse a dedicar maior empenho à divulgação desse universo que conhecia tão bem, já que vivera boa parte de sua juventude entre os matutos. Mas isso não fez com que ele abandonasse de vez suas pretensões literárias, tanto que anos mais tardes em 1921, persiste nesse caminho e, ao lançar uma coletânea de versos, é devidamente bombardeado pelo escritor e crítico Tristão de Athayde:

“Procure despojar-se o senhor Cornélio de toda essa escória de falsa literatice, cultive cada vez mais esse delicioso impressionismo regionalista em que já é mestre, acentue o sentimento interior de sua poesia um pouco descritiva demais e será como Catulo (Catulo da Paixão Cearense) ainda que sem sua prodigiosa riqueza de inspiração e emoção, um poeta à parte, o nosso poeta caipira.”

A falta de método, entretanto, será uma tônica inseparável de Cornélio em todas as sua ações, a começar por seu curriculum que se estende do poeta e contista a conferencista e humorista; de jornalista e editor, a professor de educação física e empresário; de cineasta a realizador de gravações em disco de músicas sertanejas.

Quanto a esse seu perfil, Macedo Dantas pondera que “é preferível ele ter sido como foi, com todos os defeitos apontados, com sua indiferença pelo estudo, mas com essa criatividade notável, com esse poder de observação raro. Preferível ter sido um ignorante criativo, a um medalhão impotente.”

Graças a esses traços de sua personalidade, Cornélio se transformou num contador de “causos” que lotava as salas de espetáculos por onde se apresentava.

Sempre entrando em cena de fraque ou casaca, ele divulgou intensamente a figura do caipira, incentivando a fixação da imagem do matuto irônico e debochado, contrastando com a figura frágil do caboclo ingênuo.

Uma de suas anedotas, registrada em livro, conta que “um granfino, a passeio pelo interior, alugou um cavalo e saiu percorrendo os arredores da cidade, indo parar na casa do caipira. Bem acolhido, entrou e começou a examinar a sala. Ao notar que na parede havia numerosas fotografias, perguntou ao dono da casa:

-De quem é esse retrato?
-É retrato de mea mãe…
-E aquele outro?
-Aquele é de meu pai…

Finalmente, vendo a fotografia de um burro bem escanelado com sete palmos de altura, arreio prateado, rédea bambeada, peitoral enfeitado, perguntou:

– Esse também é da família?
– Nhor, não. Mercê tá enganado. Esse num é retrato.
– Quem é então?
– É espêio…

Com toda essa flexibilidade e dinâmica Cornélio merece no mínimo ser lembrado como um grande ativista cultural de seu tempo. E é em defesa dessa memória que alguns estudiosos e folcloristas que se definem cornelianos, estão procurando através de delicados trabalhos de recuperação bibliográfica preservar a sua imagem.

No caso da sua discografia , apesar de se especular em torno de 108 discos gravados, até hoje só se consegui recuperar 48 gravações. Num país onde inexiste o hábito de se arquivarem informações para o futuro, muitos dos discos gravados por ele deve ter virado brinquedo na mão de crianças.

Em relação aos filmes realizados, há notícias de quatro, (Brasil pitorescoVamos passearSertão em festa), teve grande êxito, como registram informações veiculadas na época, porém localizar qualquer um deles é tarefa para super-herói, pois ninguém dispõe de cópias.

A obra escrita, por sua vez, além de ser uma das responsáveis pelo desaparecimento do autor do conhecimento público é literalmente um caso jurídico. Boêmio incorregível, Cornélio sofreu a vida toda de grandes e graves problemas financeiros.

Numa de sua eternas crises de falta de fundos vendeu os direitos autorais de seus livros.

“No tempo de dante, aqui prás berada do riu era tudo mataria virge. Anta aqui era cardume. Era ciso (…) Pegô o burro véio em vez da besta? Nhor não. Muito pó.

Peguei u’a anta… tava amuntada numa anta mantiúda…”

Macedo dantas relata que “nenhum dos proprietários das obras de Cornélio se interessou em editá-las ou ceder os respectivos direitos”. E, mais adiante Dantas considera ainda que “não é fácil, por vários motivos, lançar com êxito, qualquer obra de Cornélio, hoje esquecido do grande público e das novas gerações”. Com essa perspectiva a reedição de Cornélio é tarefa para orgãos públicos pois sem verba oficial dificilmente seus trabalhos voltarão às prateleiras das livrarias. Atualmente qualquer exposição sobre Cornélio é realizada graças à concessão de colecionadores já que o que restou de Cornélio são os estudos sobre seus trabalhos feitos por folcloristas e amigos.

Dentre os que mereciam ser reeditados na opinião dos conhecedores da obra do poeta caipira estão as famosas Aventuras de Joaquim Bentinho (O queima-campo). Quando foi lançado em 1924, Joaquim Bentinho tornou-se personagem famoso tendo até um rival, o Jeca Tatu, de Monteiro Lobato.

(Quando o caipira piava à vontade…)

– Ói a cartola dele
– Suba ! Senta …senta
– Ói o pala!
– Ói o andá de corvo!
– Ô purguento! Guardanapo de tropêro!
– Sapicuá de lazarento!
– Baú de sordada!
– Barba de bugiu!
– Tição!
– Treze de maio!

Em certa ocasião, referindo-se a Cornélio Pires Monteiro Lobato disse que “o caboclo do Cornélio é uma bonita estilização sentimental, poética ultra-romântica fulgurante de piadas e rendosa. O Cornélio vive e passa bem, ganha dinheiro gordo com sua exibições que faz do seu caboclo. Dá caboclo em conferência a cinco mil réis a cadeira e ao público mija de tanto rir”.

Essa declaração pouco amistosa de Lobato é atribuida pelos biógrafos de Lobato a um momento de ciumeira entre dois concorrentes, já que os personagens que ambos criaram disputavam o mesmo público. Mas aí, então é inevitável a pergunta – porque Lobato ficou e Cornélio não?

Hélio Damante arrisca uma opinião ao salientar que “Lobato teve um editor e soube investir na sua própria obra, no seu futuro. Já Cornélio, além de não ter se organizado enquanto autor, tem suas obras fora do alcance do leitor desde 1950”.

Damante acredita que mesmo Lobato está com seu espaço se restringindo apesar de muito conhecido e cultuado no meio educacional. “A criança – diz ele – aprecia mais o superman do que o visconde de Sabugosa já que o primeiro está mais próximo do mundo em que ele vive. Isso é inevitável em relação às crianças referentes ao universo caboclo embora alguns traços dessa cultura tenham se tornado definitivos já que foram incorporados ao cotidiano . Um exemplo? É muito comum ouvir repórteres de conceituados canais de televisão carregarem da expressão às direitas, muito familiar ao matuto do interior de São Paulo”.

Para Damante, é inegável o impacto da cultura de massa que, na sua opinião já atingiu em cheio a música sertaneja, “hoje descaracterizada em relação a sua raiz. A urbanização é um dado contra o qual nada se pode fazer. Além do mais novas realidades surgem realimentado velhos costumes e atribuindo-lhes outra dinâmica”.

A miscigenação nordestina, tão presente no interior paulista mistura seus hábitos e costumes aos da terra, promovendo uma nova mobilidade naquele universo produzindo outros traços culturais. Partindo dessa análise, Damante lembra ainda que: “se Cornélio Pires fosse vivo, na certa transportaria essas mudanças para seus relatos, como fez na sua época com as vivências dos italianos, habitantes do interior e muitas vezes personagens de seus livros”.

(DEFESA DA CULTURA NACIONALnº 3, 1984)

Cornélio Pires nasceu no dia 13 de julho de 1884, na cidade paulista de Tietê, e morreu de câncer na laringe no dia 17 de novembro de 1958, na capital de São Paulo. Muito cedo, com 14, 15 anos, Cornélio deixou a tranqüilidade do lar e partiu para ganhar a vida, primeiro como biscateiro e aprendiz de tipógrafo, depois como jornalista, poeta, contista e folclorista. Publicou 23 livros, o primeiro em 1910. Fora isso, criou uma companhia de teatro e realizou quatro filmes sobre o dia-a-dia da gente caipira, que tão bem entendia. Em 1929, através do selo Columbia, representado no Brasil de então por Byington & Company – depois Continental e agora Warner Continental – conseguiu realizar o seu grande sonho, que era gravar em disco as diversas manifestações culturais e artísticas do povo.

Cornélio Pires foi o primeiro artista a gravar de forma independente no país, já que teve de bancar, ele próprio, a sua famosa série de discos.

(Assis Angelo, texto no encarte do CD Cornélio Pires – Som da Terra)

Entrevista

Faz muitos dias que ando à procura de Cornélio Pires, a ver se dele obtendo uma entrevista, quando, afinal, o acaso vem em meu auxílio e encontro-o a porta de um café, em plena rua Libero Badaró. Gardalhurdo, o chapeirão enorme à cabeça, o cigarrão de palha espetado entre os dentes, está muito pacatamente conversando com dois amigos.

Não perco a oportunidade. Agarro-o pelo braço e, apesar de todas as suas banhas, acho forças para rebocá-lo até uma das mesas. Obrigo-o a sentar-se antes mesmo que ele se refaça de surpresa, intimo-o:

E – Você vai me dar uma entrevista.
CP – Eu?!

Você mesmo, sim. E deixe de olhar-me com esses olhos arregalados.
– Mas… é que eu… não sei explicar-me por que você vem pedir-me uma entrevista… sou uma espécie de “corpo estranho” no mundo literário e intelectual de São Paulo. Vivo muito quieto no meu cantinho, recolhido à minha insignificância … sinceramente, isso até me comove…

Não é preciso. Quero é a entrevista.
– Mas, deixe ao menos que eu refaça da surpresa. Quando você me agarrou, à porta até pensei que ia ser seqüestrado. Com perdão da palavra, julguei que estava sendo vítima de um gangster. E agora você me fulmina, à queima-roupa, com o pedido de uma entrevista. É emoção muito forte… fiquei assustado…

O garçom aproxima-se. Pedimos café. E enquanto saboreamos a rubiácea, formulo a primeira interrogação:

Quando você começou?
– Quando comecei o que?

Quando começou a escrever?
– Muito criança. Deixe eu dizer a coisa desde o princípio. Como sabe, nasci na roça. Ainda garoto, amanhecia nos fandangos assistindo a cururus e cateretês. Gostava imenso dessas danças e atribuo isso a uma questão de atavismo. Atavismo?! Ou coisa parecida. O cururu e o cateretê são de origem indígena e é bem possível que já fossem dançados pelos meus décimo terceiro e décimo quarto avós, isto é, por Piquerobi e Tibiriçá.

Tira um pedaço de fumo do bolso, escolhe uma palha e vai preparar outro cigarro, quando surpreende uma certa incredulidade nos meus olhos.

– Você está duvidando, hein? Pois embora isso pareça uma boa mentira, a verdade é que descendo daqueles dois caciques. Já estudei muito bem o caso e cheguei a essa conclusão. Ainda lhe mostrarei a minha árvore genealógica que, aliás, é uma verdadeira complicação internacional.

Enrola o cigarro, acende-o, tira uma baforada e continua:

– Uma complicação tremenda, que eu mesmo ainda não pude entender. Engraçado é que o sangue português que tenho nas veias, pois descendo de Antônio Rodrigues e João Ramalho que, dizem por aí, naufragaram em 1502 e deram à costa de São Vicente – sempre me atraiu, também , para os viras e os fados. Por seu turno, o galho castelhano me deixou inclinação especial para os trocadilhos. Do holandês, me ficou uma tendência para o fumo, a cerveja e a genebra…

Mas, você não bebe…
– Já bebi. Faz uns vinte e dois anos que me descartei da água que passarinho não bebe… e não me apartei muito, que se não eu perco o fio da meada. Do lado escocês – os Drummond – não cheguei a herdar nem mesmo a sovinice. Dos meus antepassados belgas, fiquei com a banacheironice moleirona. Dos franceses – Gurgel e Missel – recebi uma parcelazinha de espírito e uma sombra insignificantíssima de cortesia… E em razão de tudo isso você bem vê que eu poderia ser um escritor internacional. Mas, resolvi fazer-me exclusivamente brasileiro, como rabiscador de folhas impressas, a que, com muito boa vontade, há de quem dê o nome de livro.

Ainda não disse quando começou.
– Eu ainda era um rapazola quase um fedelho. E foi levado por uma paixonite que comecei. Assim, comecei como todos começavam nessas circunstâncias: poetando. Depois de muito ensaiar consegui que, nem Domingo, O Tiête, semanariozinho de vinhetas, a minha Obra-prima.

A obra-prima?
– Iniciava-se com esta quadra:

“Por que será, querida minha Alice,
que quanto mais procuro te deixar,
mais, no teu rosto, estampa-se a meiguice,
para melhor, assim, me cativar?”

Faz uma pausa e acrescenta:

– Fiquei acordado, até madrugada, à espera de que pusessem o jornal por baixo da porta. Ao topar com o soneto na primeira página, senti alguma coisa que nem pode ser descrita. Mas, pouco durou a minha satisfação. Logo à noite, encontrei, dentro de um envelope que atiraram na sala de visita, um soneto que começava assim:

“Por que será, Cornélio, amigo meu,
que quanto mais procuro te querer,
mais te afiguras tipo sandeu,
para melhor, assim, me aborrecer?”

E em mais uma quadra e dois tercetos, um pedagogo despeitado alinhou coisas que me amargurassem as horas de alguns dias

Mas, você continuou.
– Clarissímo. Não me escarmentei e acabei criando o meu gênero, os sonetos caipiras, que tanto revoltaram, mais tarde , esse meu grande amigo e imortal puritano do verso, que foi Vicente de Carvalho. Ele achava que eu estava cometendo um crime de lesa-nobreza, contra o soneto… a propósito, devo acrescentar que foi ainda em Tiête que escrevi os primeiros desses sonetos. Um amigoconseguiu furtar alguns deles e remeteu-os troças da caixa dessa revista.

O resultado?
– O feitiço virou contra o feiticeiro. Eu, inocente, nem sabia da surpresa que ia ter. Foi assim num dezembro. Um dia, vieram perguntar-me se já vira o Almanaque do Malho. Respondi que não. “Traz quatro sonetos de você, em página especial”! – disseram-me. Saí correndo fui à livraria da cidade, pedi o tal almanaque… lá estavam os meus versos! Foi um deslumbramento! E, dessa vez, não recebi qualquer paródia…

O seu primeiro livro, como nasceu?
– Certa vez, minha tia, dona Belisária Ribeiro, viúva do grande filólogo Júlio Ribeiro, resolveu trazer-me para São Paulo, a ver se conseguia fazer-me estudar. Mas a veia poética não me deixava… tia Belisária tinha uma casa de pensão, à rua da Quitanda, nº 11 e aí sustentava uma ninhada de sobrinhos, pobres como ela e que queriam estudar. E como os quartos fossem ocupados pelos pensionistas que pagavam, nós, a bem dizer, morávamos no corredor, onde, todas as noites, enfileirávamos nossas camas. Para escrever – temendo ser ridicularizado – fechava-me no banheiro.

No banheiro?!
– Exatamente. E foi ali que, um dia, compus um soneto caipira, ao qual deve ser atribuída a culpa de ter me tornado escritor. É aquele que tem nome de Ideal do caboclo:

“Ai, seu moço, eu só quiria,
prá minha filicidade,
um bão fandango por dia
e um pala de qualidade.
Pórva, espingarda e cutia,
Um facão fala-verdade,
E uma viola de harmunia,
Pra mata minha sodade.
Um rancho na bêra dágua,
Vara de ânzó, pôca mágua,
Pinga boa e bão café.
Fumo forte de sobejo;
Pra cumpretá meu desejo,
Cavalo bão e muié…”

Mas uma bafaroada do cigarrão de palha, e Cornélio prossegue:

– Mostrei o soneto ao Simões Pinto que, então, dirigia a Farpa, uma revista do tipo da Kosmos. Ele pediu-me os versos, e, dias depois, publicou em página especial. Foi então que, num encontro casual com meu primo, o boníssimo e grande Amadeu Amaral, dele recebi, com um abraço, felicitações que muito me lisonjearam: “Muito bem! Você descobriu um filão a explorar e que esta inteiramente abandonado. Continue: escreva um livro…”

Veio, então, o livro?
– Tomei conta do banheiro e, dez dias depois, entreguei à livraria Magalhães os originais de meu primeiro livro – Musa caipira – dedicado a meus pais e ao Amadeu. A verdade é que a coisa saiu muito aquém de meus desejos: a capa era um borrão de tintas, à guisa de tricromia, com um caipira barbado empunhando uma viola; no alto das páginas, puseram vinhetas com mulheres nuas, em desacordo com o proverbial pudicía do caboclo. Apesar de tudo isso e mesmo assim…

Mesmo assim?
– Fiquei encantado! Ao ter em mãos o primeiro exemplar, fiquei a namorá-lo uma porção de tempo… sim senhor! O caipirinha de Tietê que, seis meses antes, escrevia “cuando”, estava com um livro publicado! No alvoroço daqueles dias, ingenuamente audacioso, mandei exemplares do livreco a Sílvio Romero, a João Ribeiro, a Leite Vasconcelos, a Carolina Michaelis, ao jornais e às revistas. Uma noite metido na roupa dos grandes dias, fui à redação da Correio Paulistano, levar um volume ao Amadeu…

Ele, então?…
– Quando viu o livreco, não pode disfarçar a surpresa. Olhou me paternalmente. E com aquele jeitão que lhe era tão característico, não se fez de rogado para passar me uma descompostura: “Você está maluco! Não vê que livro não se faz assim, do pé para mão?” encabulado, muito timidamente arrisquei: “Mas você me disse que escrevesse um livro…” a resposta não se fez esperar: “Mas, um livro, para ser publicado, tem de ser trabalhado, polido, durante seis meses, durante anos, com paciência e cuidado!… enfim, vamos ver “isso” aí…” leu o primeiro soneto e sorriu. Leu o segundo e aprovou-o, com gestos de cabeças. Leu o terceiro e não pode conter o seu aplauso: “Muito bem! Mas, podia ser melhor, se você não fosse desleixado como é…”

E os outros?
– Que outros?

Sílvio Romero…
– Recebi, pouco depois, uma carta do grande mestre. Vibrei intensamente ao ler aquelas palavras, que ainda hoje não me saem da cabeça: “Vossa Senhoria saiu-se admiravelmente bem, pois o gênero que cultiva, muito ao contrário do que geralmente se pensa, é cheio de grandes dificuldades”. João Ribeiro, a seguir, manifesta sua opinião sobremodo lisonjeira para mim. Vieram as citações na revista da Academia Brasileira de Letras. Vieram cartas de Portugal, vieram as opiniões de nossos acadêmicos… comecei, assim, a minha carreira.

Estaca, fica meio indeciso. É ainda hesitante que continua:

– Tenho uma confissão a fazer… não sei se devo dizer…

Que confissão é essa?
– É o diabo a gente botar os podres na rua… em todo o caso, como quero penitenciar, devo dizer, aqui, num parêntesis que sou culpado de todos os erros, sobre brasileirismos, que existem no dicionário de Cândido de Figueiredo.

Como é isso?
– É que o velho filólogo me escreveu umas dez cartas juntando listas de vocabulários pedindo definições e rogando que eu perdoasse “as impertinências de um velho ignorante das coisas do Brasil”.

Você respondeu errado…
– Não é bem assim. Por desleixo e por preguiça não respondi a nenhuma dessas cartas.

Já foi tipógrafo…
– Já fui tanta coisa! Tipógrafo, caixeiro de sírio, oleiro, plantador de algodão, comerciante, industrial, revisor de jornais, repórter. Fui feitor da limpeza pública, a acompanhar varredores desde as quatro da manhã até às seis da tarde por cinco mil réis diários… fui mestre escola fui professor de ginástica…

Professor de ginástica?!
– Não precisa adimirar-se tanto. Fui professor de ginástica, sim. Houve uma ocasião em que eu estava desempregado. Pedi uma colocação a um amigo. Ele estava de cima na política… e como eu tivesse urgência em colocar-me em momento para dar-me fui nomeado professor de ginástica de uma escola do interior.

Como você se arranjou?
– Não era preciso saber. Era preciso ensinar.

E você ensinou?
– Não tenho muita certeza, não. Em todo caso, posso dizer-lhe que tive as melhores intenções…

Que mais você foi?
– Cinematografista. Fiz dois fimes sobre o Brasil e perdi dinheiro nessa brincadeira. Agora, sou inventor…

Você é inventor?
– Exatamente. Inventor, sim. Haverá alguma coisa demais nisso?

Que é que você inventou?
– Um cantil, a que dei o nome de “Decantil C. P.”. é de formato anatômico e provido de um filtro que torna potável a qualidade da água mesmo que seja de enxurrada. Já tenho a patente nacional e já requeri patente em outros países.

Você é o tipo do sujeito engraçado!… 
Ele olha-me de frente. E é sério – é paradoxalmente sério – que ele diz:
– Tenho vivido do humorismo, é real. Mas, francamente, acho que sou o tipo do sujeito sem graça!…

(SILVEIRA PEIXOTO, José Benedito. Falam os Escritores)

 

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