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As observações de Luís da Câmara Cascudo sobre a vassoura, um objeto
presente em todos os lares do mundo:
Naturalmente, a vassoura é de uso
universal e os indígenas a conheciam antes que os portugueses trouxessem de outros e
diversos tipos. Há várias plantas (Malváceas, Sida acuta, Burm, Escrofulariáceas
e Rubiáceas) chamadas vassoura, vassourinha-de-botão, vassourinha-de-varrer, ou
simplesmente vassourinha, já denunciando velho e secular emprego na espécie. O simples
molho de folhas ásperas, amarrado com cipó, parece de área geográfica extensíssima
pelo mundo e uma forma primitiva do modelo que se pode ver em qualquer ponto da terra e em
qualquer museu etnográfico europeu.
Os romanos tinham a scopae e os varredores eram os scoparii. Nos templos, a
função não era humilhante e mesmo constituía um título, o neocorus, aparecendo
com uma scopa bem semelhante às nossas contemporâneas vassouras banais.
Os faunos e os silvanos eram o terror das
crianças gregas e romanas e também das parturientes, sempre temerosas de um assalto do
brutal semideus silvestre. Afugentavam faunos e silvanos de junto dos leitos das jovens
mães com objetos de ferro, lâminas cortantes e utensílios de lavoura, podões, tesouras, etc, dedicados
aos deuses Picumnus e Pilumnus, inseparáveis e poderosos. E para afastar silvanos e
faunos do pavor infantil? Havia duas maneiras. Acender as lâmpadas, ou colocar a vassoura
atrás da porta.
Ainda hoje é superstição tradicional em todo Brasil pôr uma vassoura, com o cabo para
baixo, detrás da porta, na doce intenção de a visita demorada e monótona lembrar-se de
fazer as despedidas e ir-se embora
A vassoura, tornada indispensável e familiar, participa de várias crendices e constitui
um dos objetos mais típicos da casa. Nas mudanças de residência, a primeira varredura
deve ser feita com vassoura velha, segundo uns, para continuar o equilíbrio anterior, ou
com vassoura nova para iniciar vida nova, segundo outros. Já inútil, a vassoura deve ser
queimada, e não lançada ao lixo, para não levar a felicidade da casa. Rasgam-na
cuidadosamente antes de queimá-la, para que nenhum fragmento possa tornar-se elemento de
feitiçaria, porque a vassoura pode ser um ótimo material contra a família que a
possuía, desde que um macumbeiro competente a consiga apanhar.
A vassoura nova começa seu serviço pelos aposentos interiores, e jamais pela calçada ou
sala de entrada ou de estar.
Deve ser guardada na posição vertical. Encontrando-a deitada, depressa recolocam-na
direita, sob pena de atrasar o dono da casa. Não é prudente emprestar-se vassoura já
servida, porque carrega a boa sorte ou parte dela.
A vassoura feita com determinados arbustos afugenta parasitos e sevandijas importunos. Vassoura
deitada é desgraça chamada. Surra com vassoura seca o corpo. A primeira vassourada de
vassoura nova pertence a mulher velha e nunca a gente nova.
Se um feiticeiro encontrar uma vassoura meio queimada e souber quem foi o seu
proprietário, poderá determinar grandes males. A vassoura vale tanto quanto uma peça de
roupa individual.
O cabo da vassoura é cheio de mistérios. Os meninos não podem fazer do cabo da vassoura
cavalo, porque não serão bons donos de casa. As meninas de forma alguma devem montar e
correr no cabo de vassoura, porque não serão felizes. No Yorkshire she will be
a mother before she is a wife (Edwin Mona A. Radford, Enciclopedia of Superstition,
50, Nova Iorque, 1949).
As feiticeiras da Idade Média e mesmo até meados do
século XVIII viajavam pelos ares cavalgando as vassouras. Decorrentemente, a vassoura se
tornou, na Europa, um amuleto contra o poder maléfico das feiticeiras e era aconselhado
deixar-se uma vassoura detrás da porta, sinal infalível para a defesa da residência de
qualquer possibilidade de aproximação malévola.
Não tivemos no Brasil a tradição do sabbat, a reunião das feiticeiras sob a
presença de Satanás em pessoa, transformado em bode gigantesco. A noite de primeiro de
maio, a noite de Walpurgis, derramava-se pela Europa como uma onda de medo incontido. As
feiticeiras, untadas com os óleos satânicos e montadas nos cabos de vassoura, corriam ao
sabbat. A vassoura tornou-se suspeita e, por ambivalência, protetora da casa
contra a presença da feiticeira que a usara.
A vassoura tem seu horário de uso. Não se varre a casa durante a noite para não
expulsar a tranquilidade ou incomodar as "santas almas" que porventura
estejam percorrendo os lugares onde estiveram quando tinham forma corpórea. Nem se varre
o lixo para a rua, e sim de fora para dentro, queimando-se ou enterrando-se, nas vilas
onde não há serviço municipal recolhedor.
Cachorro que apanha pancada de vassoura fica mofino (covarde) e o gato, ladrão.
A idéia de que a vassoura pode varrer tudo, inclusive as cousas abstratas
felicidade, tranquilidade, bem-estar, saúde, boa sorte atinge o amor também.
Rapaz ou moça cujos pés foram varridos não conseguirão casar-se.
J-G. Frazer (Le Rameau DOr, II, 235, trad. Stièbel e
Toutain, Paris, 1908) informa que as sacerdotisas dos Daiaks, em Bornéu, fazem expulsar o
infortúnio das casas, varrendo-as com vassouras feitas com certas plantas, aspergindo água de arroz e sangue.
O lixo é colocado numa casinha de bonecas, feita de bambu, posta na corrente de um rio.
O Brasil é o único país católico do mundo a possuir uma curiosa invocação de Nossa
Senhora da Vassoura. O senhor L. Gonzaga dos Reis, no seu estudo Alto Parnaíba, na
revista do Instituto Histórico e Geográfico do Maranhão (nº 3, 67-68, agosto de 1951,
São Luiz), escreve que em Jurubeba, povoado do distrito de Angico, alto Parnaíba,
Maranhão, um cartaz-reclame do preparado farmacêutico A Saúde da Mulher, representando uma enfermeira vassourando remédios inúteis, mereceu
popularidade e subsequente veneração popular, sendo chamada Nossa Senhora da Vassoura;
será a padroeira da nova capela em construção. Vassoura todos os males e
contrariedades. Era um desenho de Raul Pederneiras, ilustrando um produto de Daudt,
Oliveira & Cia., do Rio de Janeiro, e teve anúncio luminoso na avenida Rio Branco,
muitos anos, sendo um dos primeiros no gênero, na capital federal, nos fins do terceiro lustro do século XX.
(CASCUDO, Luís da Câmara. Superstições e costumes.) |
PARA TRAZER FELICIDADE:
Toda vez que for varrer sua casa, comece da porta da rua e siga para dentro
repetindo várias vezes: O que é bom fique melhor
e fique dentro da minha casa. Ao agir dessa forma você não joga sua felicidade na
rua.
Mas, se preferir varrer a casa de dentro
para fora, faça isso repetindo: O que houver de ruim, eu ponho para o lado de fora. |