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Uma descrição com um final, no mínimo, curioso, do que o
escritor Augusto Zaluar encontrou na capelinha consagrada à Nossa Senhora Aparecida,
entre os anos de 1860 e 1861:
CAPELA DE NOSSA
SENHORA APARECIDA
As lendas poéticas do cristianismo, que
derramam tão misterioso perfume nas tradições dos povos do antigo continente,
encontra-as o viajante que percorre as vastas regiões da América Meridional, mais
vivazes e por ventura eloqüentes nas povoações espalhadas no seio dos desertos, ou escondidas
nas dobras das florestas, como salmos truncados de um poema divino que se ouve levantar a
Deus a criação inteira.
Aqui, no interior desses imensos e majestosos descampados, nesses recônditos sertões cuja penumbra
se começa a abrir agora ao sol da civilização, a imaginação popular, longe dos
grandes teatros do mundo, compraz-se em revestir de formas
maravilhosas não só os sucessos que a razão explica, quanto mais aqueles que, não
tendo uma decifração verossímil, escapam à inteligência e ao raciocínio vulgar.
O sentimento religioso, o fervor da crença em sua primitiva pureza,
que o ceticismo do século de dia para dia destrói nas nossas grandes cidades
civilizadas, tem entre as povoações centrais um sentido mais elevado, um influxo mais
grandioso e sublime, porque o requinte da corrupção ainda lhes não fez gerar a dúvida,
nem o egoísmo fanático mercadejar com a consciência, como
acontece aos filhos degenerados, das sociedades que se dizem polidas.
E para quem há de levantar os olhos o infeliz que sofre ao desamparo no meio das
solidões? A quem invocar no transe das amarguras supremas aquele que não tem senão o
céu que o ampare, e a religião que o console e o proteja contra o destino?
A mão do criador está patente por toda a parte nas obras da natureza. O
rio que murmura pelo leito caprichoso dos vales, a cachoeira que se despenha ruidosa no
leito escalvado dos rochedos, as matas
que segredam aos ventos frases misteriosas, as aves cujos gritos selvagens ou hinos
melodiosos erguem concertos no silêncio recatado dos ermos, as nuvens que se enovelam na
aurora e no oceano em formas fantásticas no horizonte, todas estas grandes cenas devem
forçosamente atuar sobre o espírito do povo e dar um colorido poético e religioso à
sua imaginação.
Todos os cultos da antigüidade, se excetuarmos o misticismo tenebroso de alguns ritos
primitivos, procuraram a eminência das colinas ou a coroa das montanhas para edificarem
seus templos religiosos. A Grécia, mais do que nenhum outro país antigo, nos dá o
exemplo dessas construções por assim dizer aéreas, onde o pensamento, mais desprendido
da terra, se abstrai despreocupado nas abstrações do infinito, e se embebe todo na
adoração do criador.
O cristianismo, religião da alma, não podia deixar de procurar para a
sua oração os lugares que estivessem mais próximos do céu. Nas montanhas mais
inacessíveis, nos píncaros gelados dos Alpes, ergueram os apóstolos do evangelho os
símbolos sacrossantos de sua liturgia.
Assim fizeram também nas vastas e acidentadas regiões da América do Sul os piedosos
sacerdotes do novo mundo.
Entre todos esses templos que temos visto no interior do país, nenhum achamos tão bem
colocado, tão poético, e mesmo, permita-se-nos a expressão, tão artisticamente
pitoresco, como a solitária capelinha da milagrosa Senhora da Aparecida, situada a um
pouco mais de meia légua adiante da cidade de Guaratinguetá, na direção de São Paulo.
A sua singela e graciosa arquitetura está de acordo com a majestosa
natureza que a rodeia e com a montanha que lhe serve de pedestal, e domina, moldurado em
um horizonte infinito, um dos panoramas mais arrebatadores que temos contemplado em nossas
digressões.
Reza a tradição que a imagem de Nossa Senhora, que se venera nessa igrejinha, foi
encontrada por uns pescadores, como melhor se verá da seguinte notícia, que textualmente
reproduzimos de um manuscrito que nos foi confiado:
"No ano de 1719, diz o referido documento, pouco mais ou menos, passando por esta
vila para as Minas o governador delas e de São Paulo, o conde de Assumar, dom Pedro de
Almeida, foram notificados pela câmara os pescadores para apresentarem todo o peixe que
pudesse haver para o dito governador. Entre muitos foram a pescar Domingos Martins Garcia,
João Alves e Francisco Pedroso, com suas canoas; e, principiando a
lançar suas redes no porto de José Correia Leite, continuaram até o porto de Itaguaçu,
distância bastante, sem tirar peixe algum; e, lançando nesse porto João Alves a sua
rede de arrasto, tirou o corpo da Senhora,
sem cabeça; e, lançando outra vez a rede mais abaixo, tirou a cabeça da mesma Senhora,
não se sabendo nunca quem aí a lançasse.
Guardou Alves essa imagem em uns panos, e continuando a pescaria, não
tendo até então achado peixe algum, dali por diante foi tão copiosa a pescaria em
poucos lanços, que os pescadores,
receosos de naufragar pelo muito peixe que tinham nas canoas, retiraram-se às suas
vivendas, admirando este prodígio.
Francisco Pedroso conservou seis anos esta imagem em sua casa, junto a Lourenço de Sá;
depois mudou-se para a Ponte Alta e dali para o Itaguaçu onde deu a imagem a seu filho
Atanásio Pedroso, o qual fez um oratório para colocar a Senhora, e no sábado iam todos
os devotos ali rezar o terço.
Em uma das ocasiões em que rezavam, apagaram-se as velas repentinamente, estando a
noite serena; então Silvano da Rocha, levantando-se para acendê-las, elas por si
acenderam-se. Foi este o primeiro prodígio; depois, em outro dia, viram tremer o nicho e
altar da Senhora, bem como as luzes. Em outra ocasião (sexta-feira para o sábado,
estando reunidas muitas pessoas para cantarem o terço), estando a Senhora guardada em uma
caixa, ouviu-se dentro da mesma grande estrondo.
As pessoas que presenciaram estes prodígios foram propalando a notícia, até que esta
chegou aos ouvidos do vigário da vara José Álvares Vilela. Este e outros devotos
edificaram uma capelinha, que depois foi demolida, sendo edificada em seu lugar a que
atualmente existe."
A fama da milagrosa Virgem espalhou-se por tal forma, e chegou a tão longínquas
paragens, que dos sertões de Minas, dos confins de Cuiabá e do extremo do Rio Grande,
vêm todos os anos piedosas romarias cumprir as religiosas promessas que nas suas
enfermidades ou desgraças fizeram àquela Senhora, se lhes salvasse a vida ou lhes desse
conforto nas tribulações do mundo.
As paredes da capela quase que não têm já lugar para as figuras de cera, troncos,
cabeças, braços, pernas e mãos de todos os tamanhos e feitios que se vêem
simultaneamente pendurados, ao lado de numerosos painéis, representando este um pai
salvando seu filho das garras de uma fera, aquele um moribundo restituído à vida por
haver invocado, cheio de religiosa piedade, o nome de sua divina protetora, e finalmente a
simbólica epopéia de todos os martírios e de todas as dores que angustiam a existência
humana.
Aí se mostram umas algemas de ferro que o tempo não conseguiu nunca
enferrujar, apesar dos muitos anos que têm decorrido depois que servem de relíquia à
veneração dos fiéis. Contam que um desgraçado (talvez dos que se costumam recrutar
para o exército), chegando a este lugar, extenuado de fadiga, devorado pela fome, exausto
de forças por caminhar descalço e a pé por entre os sertões inóspitos, e de mais a
mais acorrentado por estes pesados grilhões, entrou dentro da capela e com santo fervor
ourou a Nossa Senhora: tanta fé tinha em sua alma que as correntes lhe caíram
repentinamente dos braços e dos pés, restituindo-o por este prodígio à sua liberdade!
Numerosas e mesmo avultadas são as esmolas que todos os anos entram nos
cofres da bem-aventurada Senhora. As muitas curas que tem operado nos enfermos do mal de São Lázaro, que tanto
abundam neste ponto da província de São Paulo e na de Minas, estendendo-se mesmo às
outras que lhes são limítrofes, são o incentivo à maior parte das romarias que o povo
faz a este templo solitário e à protetora imagem da Senhora da Aparecida, que refulge no
altar-mor, adornada com um precioso manto de veludo azul ricamente bordado de ouro, e
parecendo sorrir compassiva a todos os infelizes que a invocam, e a quem jamais negou a
consolação e a esperança.
Afortunados os rudes sertanejos que têm mais fé na intervenção divina do que nos
resultados tantas vezes mentirosos da ciência humana!
No entanto a caridade cristã impõe-nos o dever de mitigar os
sofrimentos do nosso próximo; e neste intuito nos lembra um alvitre que nos parece merecer
alguma atenção do governo, e mais ainda da administração provincial de São Paulo.
Informaram-nos, quando passamos na capela de Nossa Senhora da Aparecida, que, desejando
dar-se uma aplicação meritória ao produto das esmolas que os fiéis oferecem à
Senhora, se resolvera edificar-lhe um templo de mais vastas proporções do que o que
atualmente existe, e assim dar também mais importância ao lugar, que já é hoje uma
bonita aldeia.
Respeitando o que há de religioso na intenção desta aldeia, não seria
mais útil e até agradável à benfeitoria dos aflitos que, em vez de uma igreja, se
construísse um hospital com a invocação da mesma Virgem, consagrado a recolher a grande
quantidade de morféticos que infestam as
estradas e os caminhos de quase todo o norte da província, oferecendo aos olhos do povo viandante o mais triste e lastimoso
de todos os espetáculos?
Causa realmente dó, compunge o coração ver esses desgraçados dentro
de suas choupanas de palha, cobertos de andrajos e de lepra, estenderem a
mão a quem passa, pedindo-lhe um óbolo para matarem a fome! É
realmente um quadro este que não tem perdão nem desculpa em pleno século XIX!
Ainda mais: nos domingos e dias santificados, como muitas vezes observamos, estes
infelizes concorrem aos mercados e andam por entre o povo esmolando, e em contato com os
vendedores e quitandeiras.
Os escravos fugidos vão ordinariamente acoutar-se nos albergues dos leprosos, e aí se
conservam muitas vezes dias e meses, até regressarem de novo para casa de seus senhores,
já inoculados do mal, que não tarda em propagar-se por seus companheiros, afetando até
os próprios brancos.
A criação de um hospital de lázaros seria pois, a nosso ver, uma das obras mais
meritórias à piedade divina. Assim se terá conseguido dois fins: prestar um culto à
divindade e concorrer para aliviar de sofrimentos tão grande parte de nossos irmãos.
A pouca distância da capela existe na beira da estrada uma pedra já meio encoberta pelos
espinheiros bravios, e a que chamam a pegada. Na sua face superior está
perfeitamente gravada a planta de um pé humano.
Contam os moradores antigos do lugar que um filho desnaturado, tendo
concebido o nefando intento de assassinar sua
mãe, a esperara sobre esta pedra, e que, no momento em que ela passava e ele ia perpetrar
este monstruoso crime, sentiu o pé agarrado ao lajedo, e tal foi o seu terror, que poucos
momentos sobreviveu a esta tremenda punição dos céus!
Estas tradições são os melhores exemplos, as mais profícuas lições de moral que a
religião e a piedade podem ensinar ao povo rude, porém impressionável e bom do interior
do país.
A capela de Nossa Senhora da Aparecida foi fundada em 1743, sendo bispo desta diocese dom
João da Cruz.
(In: ZALUAR, Augusto Emílio. Peregrinação
pela Província de São Paulo: 1860-1861.) |
AUGUSTO EMÍLIO ZALUAR nasceu em Lisboa, Portugal,
no ano de 1825. Vindo para o Rio de Janeiro em 1849, faleceu nesta cidade em 1882. No
Brasil, trabalhou incansavelmente como tradutor e escritor de prosa e verso. Residiu no
Rio de Janeiro, Vassouras e Paraíba do Sul, fundando nessas localidades pequenos jornais
de efêmera duração.
Em sua Peregrinação pela província de São Paulo, descreve o que observou em
suas viagens pela região nordeste de São Paulo, onde visitou Bananal, Areias, Barreiro,
Queluz, Lorena, Guaratinguetá, Pindamonhangaba, Taubaté, Caçapava, São José dos
Campos, Jacareí, Mogi das Cruzes, Campinas e a capital da província, São Paulo.
ROMARIA
(Renato Teixeira)
É de sonho e de pó
O destino de um só
Feito eu perdido em pensamentos
Sobre o meu cavalo
É de laço e de nó,
de gibeira o jiló
dessa vida, cumprida a sol
Sou caipira, Pirapora
Nossa Senhora de Aparecida
Ilumina a mina escura e funda
O trem da minha vida
O meu pai foi peão
Minha mãe solidão
Meus irmãos perderam-se na vida
A custa de aventuras
Descasei, joguei, Investi, desisti
Se há sorte eu não sei,
Nunca vi
Me disseram porém
Que eu viesse aqui
Pra pedir em romaria e prece
Paz nos desaventos
Como eu não sei rezar
Só queria mostrar
Meu olhar, meu olhar, meu olhar
Para conhecer mais:
- Nossa Senhora Aparecida, site oficial
- Nossa Senhora Aparecida, padroeira de
todo o Brasil
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