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Ir para a página principal O CÍRIO DE NAZARÉ

Corre fama pelos brasis, o Círio de Nossa Senhora de Nazaré, a maior procissão religiosa do país. Incalculável massa humana proporciona impressionante espetáculo de rua, no segundo domingo de outubro. As amplas vias públicas de Belém tornam-se pequenas para abrigar os romeiros.

Os belemenses, que são quatrocentos mil, parecem todos sair à rua, nessa manhã de festa. E acorre gente do interior do estado, do Maranhão, do Amazonas, do Ceará, do Piauí e até do Sul, aumentando o número de pessoas na cidade ao ponto de causar problemas de habitação e alimentação.

Um espetáculo – torno a repetir – impressionante, em que a fé se manifesta ao lado do folguedo, a contrição religiosa ao lado de regozijos profanos. A cidade cria, no domingo do Círio, uma nova alma. Transfigura-se. Perde o seu modo de ser cotidiano.

As criaturas vivem horas diferentes. Há o "almoço do Círio", comemoração da qual participam os parentes, os amigos. Repastos soberbos em quitutes e bebidas regionais. Há os almoços de pagamento de promessas, mesa onde se reunem dois, três desconhecidos, rigorosamente pobres. Donas de casa ficam na porta de suas residências com pote e bilha d’água para mitigar a sede dos romeiros: pagamento de promessas e mesmo auto-determinação que se repete todos os anos, porque o trajeto da procissão é longo, dura horas, debaixo de um sol de quenturas abrandadas pelas mangueira, e a sede é grande.

Os lares mais modestos não deixam de melhorar o seu almoço com um pato-no-tucupi, uma maniçoba, um vatapá, um caruru. Em consideração à Santa, em reconhecimento de graças recebidas em favor da paz e felicidade no futuro. Assim como os norte-americanos, que nunca deixam de fazer a sua mesa comemorativa no Thanksgiving Day, com o tradicional peru assado.

Quem vai assistir o Círio nas janelas das residências compreendidas no trajeto da procissão está implicitamente convidado pelo dono da casa a tomar guaraná e comer salgadinhos, depois da passagem da berlinda de Nossa Senhora de Nazaré. É uma das muitas maneiras de regozijo.

Ninguém, na cidade, escapa ao contágio da grande festa religiosa, que talvez seja uma das poucas no Brasil a guardar o mesmo fervor do passado, e certas sobrevivências de procissões da Europa medieval.

Os portugueses trouxeram os elementos litúrgicos e os rituais de rua para o Círio de Nazaré. Festa do povo, desde a Idade Média, as procissões jamais deixaram de sê-lo. Belém é o palco. E o povo belemense o ator na procissão do Círio de Nossa Senhora de Nazaré. E que montagem, que jeu de theátre são encenados no Coliseu gigantesco em que se transforma Santa Maria de Belém!

Mas, como tudo na vida social tem uma origem, vamos, turista, conversar um pouco sobre as raízes da procissão em honra da Virgem que salvou o fidalgo luso, dom Fuas Roupinho, na localidade portuguesa de Nazaré. Ele quase se despenhando do alto de um rochedo ao mar, durante a perseguição a um cervo, ao qual o povo liga a figura do diabo.

sabeis do interesse do governador e capitão general dom Francisco de Souza Coutinho pela sorte da ermida nas matas do Utinga. Seu interesse foi mais longe: determinou, a 3 de julho de 1793, o estabelecimento de uma feira geral em cada ano, nos dias dos festejos de Nossa Senhora de Nazaré. O certame deveria obrigatoriamente ser realizado no "largo de sua ermida: e que este se faça público por editais". Assim versava a ordem governamental.

Souza Coutinho pediu à confraria da igreja a solenização da festa com novenas, missa cantada, e que a imagem da santa fosse conduzida à capela do palácio do governo, na véspera da novena, sendo no dia seguinte levada em procissão para o seu templo.

Eis a origem do Círio de Nossa Senhora de Nazaré. Não terá influído no espírito do governador Souza Coutinho a lenda da fuga da santa, da capela do palácio para as matas do Utinga? Sim, porque seu pedido à Confraria repete o movimento que o povo atribuiu à Virgem. E o Círio, até hoje, cumpre o mesmo ritual, sendo que ao invés de iniciar o trajeto na capela do palácio do governo, já desaparecida, procede da igreja da Sé. Há evidentemente, um simbolismo, como na palavra Círio – procissão que leva um círio, vela grande de cera, de uma para outra localidade. Pois, círios levavam, nos anos dos mil e setecentos, através da floresta, até à ermida de Nazaré, os primeiros devotos belemenses da Virgem.

No tempo de Souza Coutinho, (dia 8 de setembro de 1773 é a data do primeiro Círio de Nossa Senhora de Nazaré) o bispo comparecia ao Círio num carro puxado a bois, levando no colo a imagem da Santa, sob a assistência dos fiéis que, a pé, recitavam orações e entoavam hinos. Os esquadrões de cavalaria, os batalhões de infantaria, as baterias de artilharia, formavam a guarda de honra da Santa e do governador, que, em uniforme de gala, ia montado no melhor corcel de sua cavalariça.

Quando o pastor protestante Daniel Kidder andou por Belém, no ano de 1841, fez um bom retrato da procissão. Nas vésperas do acontecimento religioso ele viu turmas de homens capinando a estrada de Nazaré. No dia da festa desfilaram pelas suas vistas guardas militares e civis, a cavalo, abrindo o cortejo. Logo em seguida vinha o "carro do triunfo", tirado por uma junta de bois, banda de música, rapazes fogueteiros, piquetes de cavalaria com os soldados de espadas desembainhadas, guarda de civis, carruagens de nobres e de pessoas gradas, o presidente da província em grande uniforme. Finalmente, a sege que conduzia o bispo e a Santa.

O largo de Nazaré pontilhava-se de barracas, e a multidão convergia para elas, depois da novena, a procura de petiscos, de jogos, de objetos típicos, de produtos regionais. O largo ainda mantinha um pouco daquele aspecto de feira geral do estado, que lhe quis imprimir o governador Souza Coutinho.

Nas adjacências, realizavam-se bailes. "Nas esplêndidas noites enluaradas dos festejos, a cidade ficava quase inteiramente deserta, pois toda a população dirigia-se às festas de Nazaré", esclarece Kidder.

No correr dos anos o Círio ganhou elementos decorativos e plásticos: a berlinda e sua corda, puxada pelo povo, o carro alegórico do episódio de dom Fuas Roupinho – o carro dos milagres -, o escaler da marujada, que desfilava sob os ombros de marujos, os anjos cavaleiros, e mais os anjinhos de faces carminadas, uns vestidos de azul, outros, nus, com fita a tiracolo. Crianças tão angélicas quanto os querubins das igrejas barrocas, carregadas pelos marujos ou "embarcadas" no escaler.

Alguns destes elementos que emprestavam colorido, graça espontânea, sentimento popular, ao Círio, foram desaparecendo, em obediência aos cânones da liturgia católica. É claro que as autoridades religiosas procuraram imprimir ao Círio um sentimento de contrição religiosa, expurgando certas práticas e figurativos que o tornavam mais romaria pictórica e pagã, do que ato cristão.

O escaler, por exemplo, era uma figuração ousada e tumultuosa. Exigiam-se, a princípio, marujos autênticos, recrutados no porto, para carregá-lo na procissão. Depois, qualquer um resolveu desempenhar o papel, e foi uma coisa terrível para os romeiros enfrentarem blocos de homens, na maior balbúrdia, aos empurrões, aos atropelos, causados pela limitação dos movimentos do barco em alto-mar.

O naufrágio do brigue português São João Batista deu origem à figura do escaler no Círio de Nazaré. Em viagem de Belém à Lisboa, no ano de 1846, o barco foi a pique, salvando-se apenas doze náufragos que conseguiram utilizar um pequeno bote. Vagando no Atlântico, eles fizeram promessa a Nossa Senhora de Nazaré de levar aquele escaler até sua ermida, se chegassem salvos à terra.

Afinal, aportaram à Guiana Francesa, com quatorze dias de fome, sede e ansiedade por cumprir a promessa. Em Belém carregaram o escaler, depositando-o no templo da Santa que lhes restituíra a graça de viver. No ano de 1855 o pequeno barco foi incorporado ao Círio.

O caso da corda da berlinda chegou a empolgar a opinião pública. Quando o bispo dom Irineu Joffily pretendeu excluí-la houve protestos do povo, que se via privado de cumprir um de seus mais gratos deveres no Círio. O antístite achava que os empurrões, o espalhafato, o reboliço, em torno das cordas, não convinha ao ato religioso. Um governador do estado pronunciou-se a favor do povo. A demanda chegou a ir ao Santo Padre, por intermédio do Ministério das Relações Exteriores: o povo peticionava ao supremo pastor de Cristo!

O Vaticano, sem querer melindrar o seu bispo, ou desagradar os fiéis, recomendou uma corda bem curta, de cinco ou seis metros…

Acabou vencendo a tradição. A corda subsistiu dupla e bem comprida, puxada por centenas de fiéis que se revezam durante o trajeto do Círio. E vai a berlinda, apainelada em cristal, recoberta de ouro, com sua preciosa relíquia – repousando em pequena carruagem que desliza sob o impulso de uma legião de braços.

Sábado, véspera do Círio, a imagem de Nossa Senhora de Nazaré sai, à tardinha, da capela do Instituto Gentil Bittencourt, onde passa o ano todo sob a guarda das irmãs, e segue para a igreja da Sé, em concorrida procissão chamada Trasladação. Na passagem da Santa, as janelas das casas do trajeto se enchem de espectadores. Depois, é obrigatório a mesa de comes e bebes.

Mal o sol começa a pincelar de luz a cidade o povo já está concentrado no largo da Sé e nas ruas em que passa o Círio. A movimentação humana é extraordinária, do arrabalde mais pobre ao bairro mais elegante. Muitos não conseguem romper os caminhos tomados de gente e ficam em lugares onde possam juntar-se ao caudal humano, que à semelhança de um rio imenso, vai recebendo nas ruas e travessas a contribuição de afluentes volumosos de romeiros. Às sete horas da manhã a Santa baixa do altar da igreja da Sé para ser levada à berlinda. Começa a procissão, acompanhada pelo governador, o arcebispo, o prefeito, os oficiais generais das Três Armas, o presidente da Assembéia Legislativa, o presidente da Câmara Municipal, o presidente do Tribunal de Justiça, confrarias, membros do clero, banda de múscia e povo. Povo demais.

A procissão toma a rua Pedro Raiol, passa pelo Ver-o-Peso, alcança o boulevard Castilho França e a avenida Quinze de Agosto. Entra na avenida de Nazaré e chega à basílica, sob o estrondo dos foguetes e a música festiva dos sinos.

E quanta sugestão impressionista nos instantes de experiência humana que se observa nessa marcha apoteótica! Algo recordando a subjetividade de um mundo que os poetas sociais classificam de "forma e cor, fruto e flor, sonho e canção!"

É o carro dos milagres recolhendo pés, cabeças, braços, ventres, seios, pernas, modelados em cera, como pagamento de promessas à Nossa Senhora de Nazaré que curou este ou àquele órgão afetado por doença. Mulheres de pés descalços suportam resignadamente (nisto repousa o valor da promessa) o sacrifício dos paralelepípedos pontiagudos, dos pisões, causando-lhes equimoses. Outros levam pedras à cabeça, potes, bilhas ou miniaturas de lanchas, de barcos, de canoas, feitos de miriti, porque se salvaram de naufrágio. Alguém, que esteve às portas da morte, paga a promessa de ir vestido de mortalha branca. Aquele homem recebeu uma grande graça e se veste de Bom Jesus dos Passos: com túnica, coroa de espinhos e cruz aos ombros. Meninas com roupa de primeira comunhão entram com o seu tributo para o cumprimento das obrigações religiosas dos pais.

E quantas outras promessas se manifestam em gestos e angústias, em formas e símbolos, brotando, com pureza, da alma popular!

O carro dos foguetes e seus bois pachorrentos, onde só ao fogueteiro é permitido fumar, porque o cigarro alimenta o pavio do fogueteiro de vara, estralejando nos ares. É o primeiro do cortejo.

Em seguida, vem o escaler sobre o carro empurrado pelo povo. Meninos vestidos de marinheiro, substituindo os turbulentos marítimos de outrora, recebem promessas de cera que inundam o barco.

O carro dos anjos passa com uma grande imagem de arcanjo, em torno do qual crianças-querubins se desvelam em cumprir a sua missão na corte celestial. E o povo a empurrá-lo.

A reprodução da cena de dom Fuas Roupinho, em figuras de massa colorida, e a do escaler do brigue São João Batista, salvo do naufrágio no oceano, Nossa Senhora de Nazaré aparece em plano mais alto, envolta num resplendor, lembram os dois grandes milagres da Santa, e por isso mesmo é chamado o carro dos milagres – o quarto na ordem da procissão, precedendo à berlinda.

Ah! Mas que beleza lírica, sobrenatural, a Santinha em sua berlinda, rodeada de flores, de angélicas, de jasmins bogaris, elevar-se como a "rosa mais alta no mais alto galho", naquelas ondas de mil preces, de mil murmúrios de esperança.

À noite, é a alegria do arraial, em frente da basílica. Centenas de barracas armadas no largo, cheias de objetos, de comidas e bebidas. Carrosséis românticos, roda-gigante, aeroplano. Brincadeiras de crianças e de gente grande também. Luzes em profusão, algazarra, estouro de foguetes, sinos batendo, como no poema de Manuel Bandeira:

     Sino de Belém, pelos que inda vêm!
     Sino de Belém, bate bem-bem-bem.


Na barraca da Santa, senhoras e moças da sociedade são voluntárias, servindo os melhores petiscos da terra, em benefício das obras da basílica. Noutras barracas sentam-se os boêmios, e fazem a roda do chope, do uísque, da cerveja, onde não faltam os casquinhos de muçuã e de caranguejo. Numerosas barraquinhas vendem açaí, tacacá, maniçoba, mingaus. Pato-no-tucupi por toda a parte.

Qualquer coisa de mercado oriental paira nesse tumulto, nesse colorido de peles e roupas – caboclos, pretos, brancos, cafuzos, curibocas -, indo-e-vindo, comendo, bebendo, falando, amando, rezando. Arraial bem brasileiro, que cheira a bafos de gentes, a temperos de comida, que exala esquisitas fragrâncias de ervas, que escorre mistérios de cada barraca e das multidões tranfundidas no ritmo morno dos corpos.

Alguns consideram que o arraial perdeu algo de seu modo de ser num passado recente. Ele era, também, anos atrás, uma espécie de passarela da elegância feminina: senhoras e mocinhas primavam nas toaletes, fazendo roda no largo. E depois iam tomar sorvetes de frutas regionais na desaparecida barraca do Grande Hotel, ou jantar na barraca da Santa.

Em frente à igreja havia uma fila de cadeiras de balanço, alugadas pela Confraria da Basílica, aos senhores e senhoras que preferiam apreciar, comodamente, a promenade elegante. O povo os apelidou de "sociedade do descanso", já extinta alguns anos atrás.

Hoje o que se podia chamar de gente "bem" (para usar o vocabulário dos cronistas sociais) abandonou o vai-e-vem do largo. Comparece às novenas, janta na barraca da Santa, na barraca de Santo Antônio, ou em outras barracas recomendadas pelos colunistas sociais, que são muito solícitos em anotar presenças daquilo que convencionaram chamar sociedade.

Entretanto, o arraial ganha mais autenticidade popular. A gente mais humilde dos subúrbios, os que trabalham e economizam durante todo o ano "para gastar na festa", este povo, sim, enche o arraial, dirige-se às caboclas vendeiras nas barraquinhas. Caboclas que não param no lava-lava das cuias, no amassar pimenta-de-cheiro para o molho de tucupi, no mexer a panela da goma do tacacá, no servir uma tigela de açaí, um prato de maniçoba, ou um de pato-no-tucupi, enquanto dão um tiquinho de prosa com o freguês.

Grupos cênicos representam nos "teatrinhos", o auditório da rádio e TV Marajoara exibe shows com artistas do sul, os cinemas regorgitam de frequentadores. O arraial é um ensaio de formas e ritmos que pode, às vezes, mudar alguns traços, porém, jamais de cor de suas peculiaridades.

A basílica faiscante de luzes, nas cúpulas das sinaleiras, no tímpano, nas colunas, no cruzeiro, no adro, pela arrumação de centenas de lâmpadas elétricas, derrama poeira dourada, como se quisesse distribuir ao povo, cristãmente, as estrelas de ouro do manto de Nossa Senhora de Nazaré.

(In: TOCANTINS, Leandro. Santa Maria do Belém do Grão Pará.)

 

A origem do Círio de Nazaré:
Em fins do século XVII, um caçador, José de Souza Plácido, mantinha em sua casinha na estrada de Utinga, arredores de Belém do Pará, grande devoção por uma imagem de Nossa Senhora de Nazaré, réplica da que se venerava em Nazaré, na Estremadura, recordando o milagre de dom Fuas Roupinho, alcaide de Porto de Mós, em 14 de setembro de 1182. A capelinha de taipa erguida pelas mãos dos primeiros devotos, portugueses e mestiços, atrai popularidade, espalhando milagres. Em 8 de setembro de 1783, houve, solenemente, o primeiro Círio, com a presença e auspício do governador Francisco de Souza Coutinho. A imagem foi levada processionalmente do Palácio do Governo para sua ermida, com acompanhamento do povo, e excepcional aparato de cavalaria, clarins, continências e filas de carros com a sociedade paraense de então. A imagem foi conduzida no colo do
arcipreste José Monteiro de Noronha, governador do bispado.

Ano a ano a festa se ampliou, com o carro dos milagres (ex-votos) e luxuosa berlinda que expunha a imagem aos fiéis. A festa consta, essencialmente, dessa procissão, chamada Círio, como a de Nazaré em Portugal, sua fonte devocional legítima, pela promessa de cera, de velas para os altares e, mesmo, caracteristicamente, pelo grande círio que era acesso durante a festividade. A atual basílica de Nazaré, em românico, num sabor tipicamente italiano, começou a ser construída em 1909. As capelas anteriores foram três. A começada por Plácido e conservada até 1774, quando se iniciou a segunda. A terceira é de 1799-180
2.

(CASCUDO, Luís da Câmara. Dicionário do folclore brasileiro.)

 

Saiba mais sobre o Círio de Nazaré:

- A basílica de Nazaré
-
O Círio de Nazaré em 1997

 

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