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Ir para a página principal A nau Caterineta
(Sergipe)

Faz vinte e um anos e um dia
Que andamos n’ondas do mar,
Botando solas de molho
Para de noite jantar.

A sola era tão dura,
Que a não pudemos tragar,
Foi-se vendo pela sorte
Quem se havia de matar,
Logo foi cair a sorte
No capitão-general.
"Sobe, sobe, meu gajeiro,
Meu gajeirinho real,
Vê se vês terras de Espanha,
Areias de Portugal.

- Não vejo terras de Espanha,
Areias de Portugal,
Vejo sete espadas nuas
Todas para te matar.
Arriba, arriba, gajeiro,
Aquele tope real,
Olha pra estrela do norte
Para poder dos guiar.

- Alvistas*, meu capitão,
Alvistas, meu general,
Avisto terras de Espanha,
Areias de Portugal.

Também avistei três moças
Debaixo dum parreiral,
Duas cosendo cetim,
Outra calçando o dedal.
"Todas três são filhas minhas,
Ai! Quem mas dera abraçar!
A mais bonita de todas
Para contigo casar."

- Eu não quero sua filha
Que lhe custou a criar,
Quero a nau Caterineta
Para nela navegar.

"Tenho meu cavalo branco,
Como não há outro igual;
Dar-te-lo-ei de presente
Para nele passear."

- Eu não quero seu cavalo
Que lhe custou a criar;
Quero a nau Caterineta
Para nela navegar.

"Tenho meu palácio nobre,
Como não há outro assim,
Com suas telhas de prata,
Suas portas de marfim."

- Eu não quero seu palácio
Tão caro de edificar;
Quero a nau Caterineta
Para nela navegar.

"A nau Caterineta, amigo
É d’El-Rei de Portugal,
Mas não serei mais ninguém,
Ou El-Rei te há de dar.

Desce, desce, meu gajeiro,
Meu gajeirinho real,
Já viste terras de Espanha,
Areias de Portugal…"
 

* Alvíssaras

(continua)

A nota de Luís da Câmara Cascudo para a Nau Catarineta:
Xácara portugesa narrando as peripécias de uma longa travessia marítima, as calmarias que esgotaram os mantimentos, a sorte para sacrificar um dos tripulantes, a presença da tentação diabólica e a intervenção divina, levando a nau a bom porto. Publicou-a Almeida Garrett no seu Romanceiro e Cancioneiro Geral, Lisboa, 1843. Impossível indicar o número de variantes em Portugal e no Brasil. No Romanceiro de Garrett é a XXVI, A nau Catarineta. Muitos dos elementos sobrenaturais da xácara ocorrem nos romances El Marinero e Santa Catarina, divulgadíssimos na península ibérica e América espanhola, motivos da sedução demoníaca e da bondade divina. Houve realmente uma nau Catarineta que sofreu dolorosa jornada para Lisboa. Em 1666, os capuchinhos Michael Angelo de Gattina e Denis Carli de Piacenza, indo do Brasil para Portugal, encontraram calmarias no Equador e recordaram a tragédia do infelice vascello detto Catarineta (Mário de Andrade, A nau Catarineta, Revista do Arquivo Municipal. LXXIII, São Paulo, 1941; Renato Almeida, História da música brasileira, 211-216, ed. Briguiet, Rio de Janeiro, 1942). É o documento mais antigo e revelador da historicidade do acontecimento. Transmitida oralmente, a xácara tem sido cantada ininterruptamente por todo o Brasil, isolada, como em Portugal, ou reunida às jornadas de um auto tradicional, fandango ou marujada, talqualmente sucede com outras xácaras portuguesas, O capitão da armada, por exemplo, que também está no fandango; (Jaime Cortesão, O que o povo canta em Portugal, 142. Livros de Portugal, Rio de Janeiro, 1942).

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