Jangada Brasil, nº2, outubro de 1998: Cancioneiro – Patativa do Assaré

Meu passarinho
(ao meu neto Expedito)
Eu andando no mato achei um ninho
Bem fofinho e macio, que beleza!
Quando olhei para dentro, que surpresa!
Tinha um lindo e mimoso passarinho.
Era lindo e mimoso de encantar,
Não podia voar porque as penas
Inda estavam pequenas, bem pequenas,
Não podia seu corpo transportar.
Eu correndo ia lá toda manhã
Para ver o bichinho encantador
O retrato fiel do puro amor
No seu ninho feliz feito de lã.

Mas um dia fui lá com todo orvalho,
Era cedo e fazia muito frio,
Vi o ninho sem nada, bem vazio
E o maroto bem juntinho sobre um galho.

Do seu ninho o maroto estava fora
E quando um jeito de pegá-lo fiz,
Saiu ele a voar como quem diz:
Meu adeus, Expedito, eu vou me embora.

Linguage dos óio

Quem repara o corpo humano
E com coidado nalisa,
Vê que o Autô Soberano
Lhe deu tudo o que precisa,
Os orgo que a gente tem
Tudo serve munto bem,
Mas ninguém pode negá
Que o Auto da Criação
Fez com maior prefeição
Os orgo visioná.

Os óio além de chorá,
É quem vê a nossa estrada
Mode o corpo se livrá
De queda e barruada
E além de chorá e de vê
Prumode nos defendê,
Tem mais um grande mistér
De admirave vantage,
Na sua muda linguage
Diz quando qué ou não qué.

Os óios consigo tem
Incomparave segredo,
Tem o oiá querendo bem
E o oiá sentindo medo,
A pessoa apaixonada
Não precisa dizê nada,
Não precisa utilizá
A língua que tem na bôca,
O oiá de uma caboca
Diz quando qué namorá.

Munta comunicação
Os óio veve fazendo
Por izempro, oiá pidão
Dá siná que tá querendo
Tudo apresenta na vista,
Comparo com o truquista
Trabaiando bem ativo
Dexando o povo enganado,
Os óios pissui dois lado,
Positivo e negativo.

Mesmo sem nada falá,
Mesmo assim calado e mudo,
Os orgo visioná
Sabe dá siná de tudo,
Quando fica namorado
Pela moça despresado
Não precisa conversá,
Logo ele tá entendendo
Os óios dela dizendo,
Vica lá que eu vivo cá.

Os óios conversa munto
Nele um grande livro inziste
Todo repreto de assunto,
Por izempro o oiá triste
Com certeza tá contando
Que seu dono tá passando
Um sofrimento sem fim,
E o oiá desconfiado
Diz que o seu dono é curpado
Fez arguma coisa ruim.

Os óis duma pessoa
Pode bem sê comparado
Com as água da lagoa
Quando o vento tá parado,
Mas porém no mesmo istante
Pode ficá revortante
Querendo desafiá,
Infuricido e valente;
Neste dois malandro a gente
Nunca pode confiá.

Oiá puro, manso e terno,
Protetó e cheio de brio
É o doce oiá materno
Pedindo para o seu fio
Saúde e felicidade
Este oiá de piedade
De perdão e de ternura
Diz que preza, que ama e estima
É os óio que se aproxima
Dos óio da Virge Pura.

Nem mesmo os grande oculista,
Os dotô que munta estuda,
Os mais maió cientista,
Conhece a lingua muda
Dos orgo visioná
E os mais ruim de decifrá
De todos que eu tô falando,
É quando o oiá é zanoio,
Ninguém sabe cada óio
Pra onde tá reparando.

(SILVA, Antônio Gonçalves da (Patativa do Assaré). Ispinho e fulô; poesia)

OBRA COMPLETA:

• Discos:

– Patativa do Assaré; Poemas e Canções. CBS, 1979

– A terra é naturá. CBS, 1981 (disponível em CD)

– 85 anos de poesia. SomZoom, 1984 (disponível em CD)

– Seca d’água. 1985 (compacto simples da campanha Nordeste Já)

– Canto nordestino. 1988 (LP promocional)

• Livros:

– Inspiração nordestina. Borsoi, 1956

– Cantos de Patativa. Borsoi, 1966

– Cante lá eu que eu canto cá. Vozes, 1978

– Ispinho e fulô. Governo do Ceará/Vozes, 1988

– Aqui tem coisa. Secretaria de Cultura do Ceará, 1994

– FIGUEIREDO FILHO, José. Patativa de Assaré; novos poemas comentados. Universidade Federal do Ceará, 1970

– Patativa e o universo fascinante do sertão, de Plácido Cidade Nuvens. Fundação Edson Queiroz, Universidade Federal de Fortaleza, 1995

 

VACA ESTRELA E BOI FUBÁ

Seu doutor, me dê licença
Da minha história contar
Hoje eu tô em terra estranha
É bem triste o meu penar
Eu já fui muito feliz
Vivendo no meu lugar
Eu tinha cavalo bom
Gostava de campear
Todo dia eu aboiava
Na porteira do curral
Eeeeeiaaa, êeeeeee vaca Estrela
Ôooooo boi Fubá

Eu sou filho do nordeste
Não nego meu naturá
Mas uma seca medonha
Me tangeu de lá pra cá
Lá eu tinha o meu gadinho
Não é bom nem imaginar
Minha linda vaca Estrela
Meu belo boi Fubá
Quando era de tardinha
Eu começa a aboiar
Eeeeeiaaa, êeeeeee vaca Estrela
Ôooooo boi Fubá

Aquela seca medonha
Fez tudo se atrapalhar
Não nasceu capim no campo
Para o gado sustentar
O sertão se estorricou
Fez o açude secar
Morreu minha vaca Estrela
Se acabou meu boi Fubá
Perdi tudo quanto eu tinha
Nunca mais pude aboiar
Eeeeeiaaa, êeeeeee vaca Estrela
Ôooooo boi Fubá

Hoje nas terras do sul
Longe do torrão natal
Quando vejo em minha frente
Uma boiada a passar
As água corre nos óio
Começo logo a chorar
Lembro a linda vaca Estrela
E o meu belo boi Fubá
Com sôdade do nordeste
Dá vontade de aboiar
Eeeeeiaaa, êeeeeee vaca Estrela
Ôooooo boi Fubá

– Ouça a música Vaca Estrela e boi Fubá em: Renato Teixeira e Xavantinho e Pena Branca. Ao vivo em Tatuí. Kuarup Discos, 1992

 

• Patativa do Assaré na rede:

– Jornal de Poesia: Patativa do Assaré; notas biográficas

– Jornal de Poesia: Patativa do Assaré; obras

– Patativa do Assaré: auto-biografia; obras

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Copyright © All rights reserved. | Newsphere by AF themes.