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| PANACÉIA - Nesta seção, textos sobre
plantas medicinais; rezas; benzeduras; simpatias; crenças; superstições; amuletos;
orações; devoções; magia e feitiçaria... |
O homem do Cariri acredita na existência da alma humana. Confia nos poderes do céu.
Tanto que as suas experiências atmosféricas se acham ordinariamente relacionadas com os
santos. A religião católica é o refúgio de sua alma atribulada pela preocupação de
melhorar sempre as suas condições materiais. Mas corre uma história que traz
certa independência de pensamento: faz acreditar que o sertanejo tem lá suas dúvidas
acentuadas.
É o caso de que dois vaqueiros saíram para o campo na sua eterna faina de cuidar do
eebanho magro na seca e gordo no inverno. Rumaram por dentro da caatinga cheia de sol
ardente. La pelo meio-dia beberam a água e comeram o que havia no bornal. Depois foram
tirar uma pestana. Deitaram-se à sombra da oiticica, fatigados das correrias
intermináveis, sangrando com os espinhos de chique-chique enfiados na carne e
pegaram no sono reparador das forças amolecidas. Adormeceram profundamente à margem do
riacho que passava por perto. As águas não faziam barulho porque eram apenas fios de
nada. A terra engolia tudo com voracidade sedenta. E havia até chovido nos dias
anteriores. Foi mesmo sono bom.
Porém um dos vaqueiros acordou espreguiçando-se e, reparando bem, viu uma cobra de coral
se aproximando do seu companheiro que dormia à vontade, regaladamente. Aquele bicho era
venenoso. Convinha matá-lo. Entanto, reparando direito viu que não era bem uma cobra,
nem muito menos da espécie coral; era calangro ou coisa parecida e sobretudo muito
bonito. Cobra é que não era, vira assim de perto. Mas aconteceu que o pequeno ofídio ia
de marcha batida na direção do ouvido do companheiro que dormia como o maior dos justos.
Depois mudou de pensamento e, já agora, estando o vaqueiro respirando pela boca, esta se
achava inteiramente aberta. E por ela começou a entrar de mansinho. O amigo não podia
admitir que se consumasse tão desgraçado desastre como aquele. É quando, dando pancada
certeira, matou o réptil (seria mesmo réptil ou inocente representante da famílias das
borboletas ainda em formação?) que logo se transmudou nas cores: ficou pálido no corpo
e arrocheado nas extremidades. Imediatamente procurou acordar o vaqueiro e nada.
Cadê que o homem queria abrir os olhos? Estava duro. Tinha morrido.
Por isso circulou a novidade que se espalhou veloz, tomando foros de muito crédito:
aquele bicho tão bonito era a alma do homem que saíra para tomar fôlego fora do corpo
humano e, quando voltava para o seu lugar, acabou-se, fora morto pela mão assassina do
desprevenido amigo. Morrendo, com ela também morrera o vaqueiro.
Se a isto se pode chamar lirismo, será, pois, a melhor manifestação de lirismo, aliás
muito rara entre os habitantes do sertão.
(Vidal, Ademar. Lendas e superstições; contos populares
brasileiros. Rio de Janeiro, Empresa Gráfica O Cruzeiro, 1950, p.617-618)
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