Ano V - novembro  2002 - nº 51

Sua revista com a cara e a alma brasileiras


SUMÁRIO - EDIÇÃO 51
FESTANÇA
CANCIONEIRO
IMAGINÁRIO
OFICINA
PALHOÇA
COLHER DE PAU
PANACÉIA

"Inselências" para uma boa morte, por Guilherme Santos Neves.

Ritos fúnebres do interior do Ceará: Enterro em Canto Grande, por Cândida Galeno.

A crença na existência da alma humana. Bicho venenoso, por Ademar Vidal.

CATAVENTO
ALMANAQUE
REALEJO
COLABORAÇÕES

 

PANACÉIA - Nesta seção, textos sobre plantas medicinais; rezas; benzeduras; simpatias; crenças; superstições; amuletos; orações; devoções; magia e feitiçaria...


BICHO VENENOSO

Ademar Vidal


O homem do Cariri acredita na existência da alma humana. Confia nos poderes do céu. Tanto que as suas experiências atmosféricas se acham ordinariamente relacionadas com os santos. A religião católica é o refúgio de sua alma atribulada pela preocupação de melhorar sempre as suas condições materiais. Mas corre uma história que traz certa independência de pensamento: faz acreditar que o sertanejo tem lá suas dúvidas acentuadas.

É o caso de que dois vaqueiros saíram para o campo na sua eterna faina de cuidar do eebanho magro na seca e gordo no inverno. Rumaram por dentro da caatinga cheia de sol ardente. La pelo meio-dia beberam a água e comeram o que havia no bornal. Depois foram tirar uma pestana. Deitaram-se à sombra da oiticica, fatigados das correrias intermináveis, sangrando com os espinhos de chique-chique enfiados na carne — e pegaram no sono reparador das forças amolecidas. Adormeceram profundamente à margem do riacho que passava por perto. As águas não faziam barulho porque eram apenas fios de nada. A terra engolia tudo com voracidade sedenta. E havia até chovido nos dias anteriores. Foi mesmo sono bom.

Porém um dos vaqueiros acordou espreguiçando-se e, reparando bem, viu uma cobra de coral se aproximando do seu companheiro que dormia à vontade, regaladamente. Aquele bicho era venenoso. Convinha matá-lo. Entanto, reparando direito viu que não era bem uma cobra, nem muito menos da espécie coral; era calangro ou coisa parecida — e sobretudo muito bonito. Cobra é que não era, vira assim de perto. Mas aconteceu que o pequeno ofídio ia de marcha batida na direção do ouvido do companheiro que dormia como o maior dos justos. Depois mudou de pensamento e, já agora, estando o vaqueiro respirando pela boca, esta se achava inteiramente aberta. E por ela começou a entrar de mansinho. O amigo não podia admitir que se consumasse tão desgraçado desastre como aquele. É quando, dando pancada certeira, matou o réptil (seria mesmo réptil ou inocente representante da famílias das borboletas ainda em formação?) que logo se transmudou nas cores: ficou pálido no corpo e arrocheado nas extremidades. Imediatamente procurou acordar o vaqueiro — e nada.

Cadê que o homem queria abrir os olhos? Estava duro. Tinha morrido.

Por isso circulou a novidade que se espalhou veloz, tomando foros de muito crédito: aquele bicho tão bonito era a alma do homem que saíra para tomar fôlego fora do corpo humano e, quando voltava para o seu lugar, acabou-se, fora morto pela mão assassina do desprevenido amigo. Morrendo, com ela também morrera o vaqueiro.

Se a isto se pode chamar lirismo, será, pois, a melhor manifestação de lirismo, aliás muito rara entre os habitantes do sertão.


(Vidal, Ademar. Lendas e superstições; contos populares brasileiros. Rio de Janeiro, Empresa Gráfica O Cruzeiro, 1950, p.617-618)

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