Ano V - novembro  2002 - nº 51

Sua revista com a cara e a alma brasileiras


SUMÁRIO - EDIÇÃO 51
FESTANÇA
CANCIONEIRO
IMAGINÁRIO
OFICINA
PALHOÇA
COLHER DE PAU
PANACÉIA

"Inselências" para uma boa morte, por Guilherme Santos Neves.

Ritos fúnebres do interior do Ceará: Enterro em Canto Grande, por Cândida Galeno.

A crença na existência da alma humana. Bicho venenoso, por Ademar Vidal.

CATAVENTO
ALMANAQUE
REALEJO
COLABORAÇÕES

 

PANACÉIA - Nesta seção, textos sobre plantas medicinais; rezas; benzeduras; simpatias; crenças; superstições; amuletos; orações; devoções; magia e feitiçaria...


ENTERRO EM CANTO GRANDE

Cândida Galeno


Morrera, a 25 de julho de 1956, João Maximiniano, agricultor, irmão de Josefa e Raimunda Maximiniano, as mais afamadas rendeiras do lugarejo Canto Grande, município de São Gonçalo do Amarante, que dista uma légua de areia frouxa de Siupé, em cujo cemitério se deu o enterro.

Logo que acabou de expirar, ajudado pela invocação de "Jesus, Maria, José, a minh’alma vossa é" e pelas orações do Santo Sudário e do Anjo da Guarda, o morto foi trazido da camarinha para a sala. Houve o cuidado de se efetuar tal transporte com os pés do defunto para o lado da porta da rua, o que é feito para evitar que morra outra pessoa da casa.

— Entra-se no mundo pelos pés, são eles que mandam nosso corpo, por eles devemos sair.

No dia em que sai enterro, não se deve varrer a casa. Não se deixa caixão ou rede em que vai defunto bater no portal, pois morre outra pessoa.

Depois de colocado na sala, o corpo vai ser vestido, o que se faz cantando a Ave-Maria. Quando se está vestindo o defunto, chama-se por ele, assim: — João, acorda pra vestir a tua derradeira camisa. Esta constou de urna mortalha de morim branco, vestida por cima das calças e da camisa, com o cordão de São Francisco amarrado à cintura do morto.

Quando o defunto é rico, vai ensapatado, engravatado e vestido com a melhor roupa. Quando é pobre, vai de mortalha, que pode ser branca ou de cor. Na cintura põe-se sempre o cordão de São Francisco.

Não havendo na casa de taipa e palha onde estávamos uma mesa grande, o defunto foi colocado numa esteira, no centro da sala com piso de areia socada, sendo acesas quatro velas, colocadas em tijolos, à falta de castiçais, em forma de cruz — uma aos pés, outra à cabeceira, uma à direita e outra à esquerda.

Começou-se em seguida a rezar, eram treze horas, aproximadamente, "Maria, valei-me", o Santo Ofício e outros benditos. Cantou-se a "inselência" das almas, que é repetida doze vezes, mudando-se apenas o primeiro verso:

Uma inselência das almas
Quem nos deu foi a Mãe de Deus,
Adeus, irmão das almas,
Ó irmão das almas, adeus.

Na segunda vez canta-se alterando o primeiro verso da seguinte forma:

Duas inselências das almas

Na terceira vez: — Três inselências das almas, — e assim por diante, até cantar doze vezes, com o restante da quadra igual à primeira.

As "inselências" têm diversas letras e músicas, e diversas delas foram cantadas no "quarto" feito a João Maximiniano.

Raimunda Maximiniano da Silva, prima do morto, que foi o grande amor de sua vida, é exímia "cantadeira" (nome que se dá, no interior do Ceará, às carpideiras), acostumada a cantar nas "sentinelas" dos defuntos da região. Neste enterro, porém, a sua dor impediu-a de cantar e as "inselências" foram tiradas pelas jovens Maria Silva, Francisca e Antônia Maximiniano, sobrinhas do morto. Sentadas no chão, do lado dos pés do cadáver, tinha cada uma delas um lenço na mão, que, de vez em quando, levavam ao olhos, como se isso fizesse parte do ritual, pois não estão chorando. Vão cantando seguidamente as "inselências", primeiro a das Almas, depois a dos Anjos, mesmo sendo enterro de adulto:

Lá vai um anjinho pro céu
Todo cercado de luz,
Nossa Senhora da Guia
Abra as portas, meu Jesus.

Deus te salve, casa santa,
Onde Deus fez a morada,
Onda mora o cálix bento
E a hóstia consagrada.

Os versos prosseguem neste diapasão, até completarem doze anjinhos.

O número de vezes que se repetem os versos varia: há "inselências" que devem ser cantadas 7, 10, 11 ou 12 vezes e delas nos fala a poetisa paraibana radicada em São Paulo.

Marilita Pozzoli:

"Vão cantar a noite inteira
até o dia raiar.
Vão cantar as "inselença"
que é pro João se salvar.
Uma "inselença" da Virge da Conceição,
Deus num primitas que eu morra sem confissão,
Duas "inselença" da Virge da Conceição,
Deus num primitas que eu morra sem confissão.
Três "inselença" da Virge da Conceição,
Deus num primitas que eu morra sem confissão,
Quatro "inselença."

— São doze "inselença" E não pode parar porque senão dá azar..."

Quando se aproxima a hora do enterro, canta-se então o Santo Ofício (Ofício de Nossa Senhora), o que foi feito por um tio do morto, Raimundo Maximiniano da Silva, homem de idade avançada, acompanhado por Josefa, irmã do morto e outras pessoas presentes.

No trecho do Ofício em que há o verso — "Desce Deus céu para as criaturas" — os rezadores se inclinam até encostar a testa no chão. O Oficio é reza muito em uso em toda a região e é cantado, tanto como o terço e a ladainha são rezados de joelhos. Depois dele vem então a "inselência" da Despedida, também cantada doze vezes, da seguinte forma:

Bendito, louvado seja
Meu Jesus da Piedade.
Vamos rezar aos doze apóstolos
E à Santíssima Trindade.

É um irmão apóstolo
Que ganhou o Paraíso,
Adeus, irmão, adeus,
Até o dia de juízo.

Quando eu falo em Deus, me alegro
No meio da cristandade,
Me alembro das três pessoas, irmão,
Da Santíssima Trindade.

Esta "inselência" é das mais longas, pois estes versos vão repetidos doze vezes, com esta simples mudança:

É um irmão apóstolo, na primeira vez,
Somos dois irmãos apóstolos, na segunda,
Somos três irmãos apóstolos, na terceira, e assim por diante, acrescentando:
Que ganhemos o paraíso, a partir da segunda vez.

Depois de rezada a "inselência" da despedida, a rede é trazida para a sala, depois de colocada numa grade feita de quatro paus fortes. Às testas da grade são amarrados os punhos da rede onde o defunto é colocado, sem que cesse a cantoria. Ao colocar o morto verificaram que a grade estava estreita, não dando passagem ao corpo enlarguecido pela posição dos braços cruzados e das mãos trançadas sobre o peito. Apesar de experimentarem a entrada do cadáver em todas as posições, de quina, virado para um e outro lado, não conseguiram fazê-lo entrar. Colocam novamente o defunto na esteira, no centro da sala e voltam com a rede para o terreiro, a fim de alargar a grade.

Enquanto o enterro não sai, fica-se rezando ou cantando terços, benditos, "inselências", pois é corrente que quando não se reza, o demônio vem para perto do morto, em forma de raposa ou de cachorro.

Sem que cesse a reza, ouve-se por fim a cantoria da "despedida" propriamente dita, nestes termos:

Lá se vai quem cá tomou
Que Jesus nos concedeu,
Vem nos renovar saudade
Adeus, Nossa Senhora, adeus.

Se o tempo for durante
Eu cá tornarei a vir,
Vem nos renovar saudade
Adeus, Nossa Senhora, adeus.

Ajudai-me, meu povo,
Ajudai-me a despedir,
Até o dia de juízo
Adeus, Nossa Senhora, adeus.

Adeus casa, adeus saudade,
Onde as aves entristeceram,
Vem nos renovar saudade,
Adeus, Nossa Senhora, adeus.

Nesta "inselência" o termo durante (se o tempo for durante) quer dizer duradouro, e o verso "eu cá tornarei a vir", evidencia claramente a idéia cristã da sobrevivência do espírito.

Colocado por fim o defunto na rede, trazida pela segunda vez para o centro da sala, repousa este de braços cruzados sobre o peito. A rede é carregada por quatro homens, cada um dos quais segura uma das pontas dos quatro paus que formam a grade.

Na zona de São Gonçalo do Amarante o enterro se faz geralmente entre quatorze e quinze horas, debaixo de uni sol de fogo, tendo os acompanhantes que romper uma légua de areia, subindo morro, com a rede aos ombros. Para terem ânimo nesta escalada, tomam cachaça, quando vêm para a casa do defunto, e nesta a garrafa de cachaça anda entre os que vão acompanhar o enterro, para que cada um tome o seu "trago". No caminho ainda vão parando nas vendas para tomar outras "doses".

No trajeto de casa para o cemitério os acompanhadores do enterro marcham em compasso de trote e vão gritando, numa espécie de aboio:

— Chega, "irmãos das almas" — para que venham outras pessoas ajudar a carregar o defunto. Este, ao ser levado para o cemitério, não deve parar diante de nenhuma residência, o que é sinal de mau agouro — está chamando outro.

No enterro verificado no cemitério de Siupé, não houve toque de sinal (dobre de sino), nem encomendação do corpo na igreja, em virtude da ausência de padre na região. A rede foi conduzida diretamente para o cemitério, onde foi depositada no chão, enquanto abriam a cova, após o que o corpo foi enterrado apenas com a mortalha. Rede e lençol voltaram para a família e, depois de bem lavados, terão a serventia anterior.


Artigo originalmente publicado em Revista do Arquivo Municipal. São Paulo, nº32, julho/setembro de 1969, p.73-99.

(Galeno, Cândida. "Ritos fúnebres no interior cearense". Em Seraine, Florival. Antologia do folclore cearense. 2ª ed. Fortaleza, Edições UFC, 1983, p.238-244)

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