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| PANACÉIA - Nesta seção, textos sobre
plantas medicinais; rezas; benzeduras; simpatias; crenças; superstições; amuletos;
orações; devoções; magia e feitiçaria... |
Morrera, a 25 de julho de 1956, João Maximiniano, agricultor, irmão de Josefa e Raimunda
Maximiniano, as mais afamadas rendeiras do lugarejo Canto Grande, município de São
Gonçalo do Amarante, que dista uma légua de areia frouxa de Siupé, em cujo cemitério
se deu o enterro.
Logo que acabou de expirar, ajudado pela invocação de "Jesus, Maria, José, a
minhalma vossa é" e pelas orações do Santo Sudário e do Anjo da Guarda, o
morto foi trazido da camarinha para a sala. Houve o cuidado de se efetuar tal transporte
com os pés do defunto para o lado da porta da rua, o que é feito para evitar que morra
outra pessoa da casa.
Entra-se no mundo pelos pés, são eles que mandam nosso corpo, por eles devemos
sair.
No dia em que sai enterro, não se deve varrer a casa. Não se deixa caixão ou rede em
que vai defunto bater no portal, pois morre outra pessoa.
Depois de colocado na sala, o corpo vai ser vestido, o que se faz cantando a Ave-Maria.
Quando se está vestindo o defunto, chama-se por ele, assim: João, acorda pra
vestir a tua derradeira camisa. Esta constou de urna mortalha de morim branco, vestida por
cima das calças e da camisa, com o cordão de São Francisco amarrado à cintura do
morto.
Quando o defunto é rico, vai ensapatado, engravatado e vestido com a melhor roupa. Quando
é pobre, vai de mortalha, que pode ser branca ou de cor. Na cintura põe-se sempre o
cordão de São Francisco.
Não havendo na casa de taipa e palha onde estávamos uma mesa grande, o defunto foi
colocado numa esteira, no centro da sala com piso de areia socada, sendo acesas quatro
velas, colocadas em tijolos, à falta de castiçais, em forma de cruz uma aos pés,
outra à cabeceira, uma à direita e outra à esquerda.
Começou-se em seguida a rezar, eram treze horas, aproximadamente, "Maria,
valei-me", o Santo Ofício e outros benditos. Cantou-se a "inselência" das
almas, que é repetida doze vezes, mudando-se apenas o primeiro verso:
Uma inselência das almas
Quem nos deu foi a Mãe de Deus,
Adeus, irmão das almas,
Ó irmão das almas, adeus.
Na segunda vez canta-se alterando o primeiro verso da seguinte forma:
Duas inselências das almas
Na terceira vez: Três inselências das almas, e assim por diante, até
cantar doze vezes, com o restante da quadra igual à primeira.
As "inselências" têm diversas letras e músicas, e diversas delas foram
cantadas no "quarto" feito a João Maximiniano.
Raimunda Maximiniano da Silva, prima do morto, que foi o grande amor de sua vida, é
exímia "cantadeira" (nome que se dá, no interior do Ceará, às carpideiras),
acostumada a cantar nas "sentinelas" dos defuntos da região. Neste enterro,
porém, a sua dor impediu-a de cantar e as "inselências" foram tiradas pelas
jovens Maria Silva, Francisca e Antônia Maximiniano, sobrinhas do morto. Sentadas no
chão, do lado dos pés do cadáver, tinha cada uma delas um lenço na mão, que, de vez
em quando, levavam ao olhos, como se isso fizesse parte do ritual, pois não estão
chorando. Vão cantando seguidamente as "inselências", primeiro a das Almas,
depois a dos Anjos, mesmo sendo enterro de adulto:
Lá vai um anjinho pro céu
Todo cercado de luz,
Nossa Senhora da Guia
Abra as portas, meu Jesus.
Deus te salve, casa santa,
Onde Deus fez a morada,
Onda mora o cálix bento
E a hóstia consagrada.
Os versos prosseguem neste diapasão, até completarem doze anjinhos.
O número de vezes que se repetem os versos varia: há "inselências" que devem
ser cantadas 7, 10, 11 ou 12 vezes e delas nos fala a poetisa paraibana radicada em São
Paulo.
Marilita Pozzoli:
"Vão cantar a noite inteira
até o dia raiar.
Vão cantar as "inselença"
que é pro João se salvar.
Uma "inselença" da Virge da Conceição,
Deus num primitas que eu morra sem confissão,
Duas "inselença" da Virge da Conceição,
Deus num primitas que eu morra sem confissão.
Três "inselença" da Virge da Conceição,
Deus num primitas que eu morra sem confissão,
Quatro "inselença."
São doze "inselença" E não pode parar porque senão dá azar..."
Quando se aproxima a hora do enterro, canta-se então o Santo Ofício (Ofício de Nossa
Senhora), o que foi feito por um tio do morto, Raimundo Maximiniano da Silva, homem de
idade avançada, acompanhado por Josefa, irmã do morto e outras pessoas presentes.
No trecho do Ofício em que há o verso "Desce Deus céu para as
criaturas" os rezadores se inclinam até encostar a testa no chão. O Oficio
é reza muito em uso em toda a região e é cantado, tanto como o terço e a ladainha
são rezados de joelhos. Depois dele vem então a "inselência" da Despedida,
também cantada doze vezes, da seguinte forma:
Bendito, louvado seja
Meu Jesus da Piedade.
Vamos rezar aos doze apóstolos
E à Santíssima Trindade.
É um irmão apóstolo
Que ganhou o Paraíso,
Adeus, irmão, adeus,
Até o dia de juízo.
Quando eu falo em Deus, me alegro
No meio da cristandade,
Me alembro das três pessoas, irmão,
Da Santíssima Trindade.
Esta "inselência" é das mais longas, pois estes versos vão repetidos doze
vezes, com esta simples mudança:
É um irmão apóstolo, na primeira vez,
Somos dois irmãos apóstolos, na segunda,
Somos três irmãos apóstolos, na terceira, e assim por diante, acrescentando:
Que ganhemos o paraíso, a partir da segunda vez.
Depois de rezada a "inselência" da despedida, a rede é trazida para a sala,
depois de colocada numa grade feita de quatro paus fortes. Às testas da grade são
amarrados os punhos da rede onde o defunto é colocado, sem que cesse a cantoria. Ao
colocar o morto verificaram que a grade estava estreita, não dando passagem ao corpo
enlarguecido pela posição dos braços cruzados e das mãos trançadas sobre o peito.
Apesar de experimentarem a entrada do cadáver em todas as posições, de quina, virado
para um e outro lado, não conseguiram fazê-lo entrar. Colocam novamente o defunto na
esteira, no centro da sala e voltam com a rede para o terreiro, a fim de alargar a grade.
Enquanto o enterro não sai, fica-se rezando ou cantando terços, benditos,
"inselências", pois é corrente que quando não se reza, o demônio vem para
perto do morto, em forma de raposa ou de cachorro.
Sem que cesse a reza, ouve-se por fim a cantoria da "despedida" propriamente
dita, nestes termos:
Lá se vai quem cá tomou
Que Jesus nos concedeu,
Vem nos renovar saudade
Adeus, Nossa Senhora, adeus.
Se o tempo for durante
Eu cá tornarei a vir,
Vem nos renovar saudade
Adeus, Nossa Senhora, adeus.
Ajudai-me, meu povo,
Ajudai-me a despedir,
Até o dia de juízo
Adeus, Nossa Senhora, adeus.
Adeus casa, adeus saudade,
Onde as aves entristeceram,
Vem nos renovar saudade,
Adeus, Nossa Senhora, adeus.
Nesta "inselência" o termo durante (se o tempo for durante) quer
dizer duradouro, e o verso "eu cá tornarei a vir", evidencia claramente a
idéia cristã da sobrevivência do espírito.
Colocado por fim o defunto na rede, trazida pela segunda vez para o centro da sala,
repousa este de braços cruzados sobre o peito. A rede é carregada por quatro homens,
cada um dos quais segura uma das pontas dos quatro paus que formam a grade.
Na zona de São Gonçalo do Amarante o enterro se faz geralmente entre quatorze e quinze
horas, debaixo de uni sol de fogo, tendo os acompanhantes que romper uma légua de areia,
subindo morro, com a rede aos ombros. Para terem ânimo nesta escalada, tomam cachaça,
quando vêm para a casa do defunto, e nesta a garrafa de cachaça anda entre os que vão
acompanhar o enterro, para que cada um tome o seu "trago". No caminho ainda vão
parando nas vendas para tomar outras "doses".
No trajeto de casa para o cemitério os acompanhadores do enterro marcham em compasso de
trote e vão gritando, numa espécie de aboio:
Chega, "irmãos das almas" para que venham outras pessoas ajudar a
carregar o defunto. Este, ao ser levado para o cemitério, não deve parar diante de
nenhuma residência, o que é sinal de mau agouro está chamando outro.
No enterro verificado no cemitério de Siupé, não houve toque de sinal (dobre de sino),
nem encomendação do corpo na igreja, em virtude da ausência de padre na região. A rede
foi conduzida diretamente para o cemitério, onde foi depositada no chão, enquanto abriam
a cova, após o que o corpo foi enterrado apenas com a mortalha. Rede e lençol voltaram
para a família e, depois de bem lavados, terão a serventia anterior.
Artigo originalmente publicado em Revista do
Arquivo Municipal. São Paulo, nº32, julho/setembro de 1969, p.73-99.
(Galeno, Cândida. "Ritos fúnebres no interior cearense". Em Seraine, Florival.
Antologia
do folclore cearense. 2ª ed. Fortaleza, Edições UFC, 1983, p.238-244) |
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