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| PANACÉIA - Nesta seção, textos sobre
plantas medicinais; rezas; benzeduras; simpatias; crenças; superstições; amuletos;
orações; devoções; magia e feitiçaria... |
"INSELÊNCIAS" PARA UMA BOA MORTE |
"Excelência" Diz-nos mestre Câmara Cascudo em seu monumental Dicionário
do folclore brasileiro (Rio de Janeiro, 1954 p.252) "É um canto entoado
à cabeça dos moribundos ou dos mortos, cerimonial de velório, ainda existente na
Paraíba, Rio Grande do Norte e Pernambuco e possivelmente noutros estados".
Na boca do povo a palavra se estropia nasalando-se em "inciência", ou mais
freqüentemente, na forma plural "inselências".
O melhor e até agora mais completo estudo sobre esses cânticos de velório e morte, foi
feito por meu prezado amigo Téo Brandão, focalizando os "Cantos e ritos funerários
de Alagoas" (Folklore Brasiliano, separata da Revista Folklore, ano X.
fasc.54, 1958, Nápoles, Itália).
Nesse estudo que acabo de receber, com generosa dedicatória do autor, o
folclorista Téo Brandão, divulga numerosas variantes que colheu da tradição oral nas
Alagoas, quer de "Excelências", quer de "Benditos" além da
análise bem feita, comentários e confrontos que valorizam seu erudito e belo trabalho.
Diz Téo Brandão, à página 5, definindo o que seja "Excelência": "é
tipo especial de hino ou reza cantada, em que uma estrofe se repete certo número de
vezes". ("As excelências de anjo crianças pequena, geralmente antes do
batismo diz Téo Brandão repetem-se apenas sete vezes").
A denominação de excelências decorre do fato de "as formas mais típicas e comuns
(se iniciarem) sempre pela palavra "excelência", no primeiro verso.
Essas orações ou hinos fúnebres como se vê na definição de mestre Cascudo
não se entoam apenas nos velórios de defuntos. Podem ser cantadas também para
ajudarem alguém a morrer, e morrer bem.
Diz Téo Brandão a esse respeito (p.4): "Nas localidades do interior, nos vilarejos,
arruados, engenhos de açúcar ou fazendas de criação de gado, sítios de coqueiros ou
propriedades de lavoura, há sempre indivíduos que se especializam no piedoso e
meritório mister de ajudar a morrer o próximo. Chamam-se "Exaltadores",
parece, pois a função que lhes cabe é exortar os moribundos nos terríveis momentos da
passagem para outra vida, e porque exatamente assim é que são chamados em outras
regiões do Brasil".
Gonçalvez Fernandes, em seu conhecido livro O folclore mágico no Nordeste (Rio de
Janeiro, Civilização Brasileira, 1938, v.XVIII, p.65) também se refere a esse curioso
ajutório. Diz ele: "Ajudar a morrer é uma coisa enorme, e há quem tenha fama de
saber ajudar a morrer em quase todo o município" (Alagoinha, Paraíba). E prossegue:
"Mas esse ofício sempre é dado à pessoa mais chegada ao homem em agonia.
Gritam-lhe os amigos em altos suplicados que ele vai morrer, com indicações de ordem
religiosa e despedidas muito dramáticas".
Aqui no Espírito Santo, sei que se entoam excelências por esse interior a dentro. Tenho,
em meus arquivos, registros de várias delas: "Inselência da Virgem de
Conceição", "Inselência dos Anjos", " de Nossa Senhora da Boa
Graça", etc.. Todas, porém, são orações para velório ou enterros, salva esta
que aqui vai transcrita, recolhida, em 1945, lá em Afonso Cláudio, pela Professora Elsa
Fernandes Gastin, do Grupo Escolar "José Cupertino".
Diz assim a "inselência" que lá se usava (ou se usa ainda) para ter uma boa
morte:
Primeira inselência
Nossa Senhora do Porto (ou do Parto?)
Rogai a Deus por este corpo
Na passagem deste mundo
Para o outro
(reza-se depois uma Ave-Maria)
Segunda inselência
Nossa Senhora do Porto
Rogai a Deus por este corpo
Na passagem deste mundo
Para o outro.
(Ave-Maria)
Terceira inselência
Nossa senhora do porto
Rogai etc. etc.
E assim por diante, até à sétima inselência, arrematando cada uma delas por uma
Ave-Maria.
Porque se reduzem a sete as estrofes, presumo dentro do informe de Téo Brandão
fosse essa inselência de Afonso Cláudio dedicada a um anjinho e não a um doente
adulto.
Com essas cantorias dolentes, afirmam que o pobre agonizante passará desta vida para a
outra numa boa morte morrendo como se diz por aí tal como
passarinho.
(Neves, Guilherme Santos. ""Inselências" para uma boa morte". A
Gazeta. Vitória, 15 de agosto de 1958)
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