Ano V - novembro  2002 - nº 51

Sua revista com a cara e a alma brasileiras


SUMÁRIO - EDIÇÃO 51
FESTANÇA
CANCIONEIRO
IMAGINÁRIO
OFICINA
PALHOÇA
COLHER DE PAU
PANACÉIA

"Inselências" para uma boa morte, por Guilherme Santos Neves.

Ritos fúnebres do interior do Ceará: Enterro em Canto Grande, por Cândida Galeno.

A crença na existência da alma humana. Bicho venenoso, por Ademar Vidal.

CATAVENTO
ALMANAQUE
REALEJO
COLABORAÇÕES

 

PANACÉIA - Nesta seção, textos sobre plantas medicinais; rezas; benzeduras; simpatias; crenças; superstições; amuletos; orações; devoções; magia e feitiçaria...


"INSELÊNCIAS" PARA UMA BOA MORTE

Guilherme Santos Neves


"Excelência" – Diz-nos mestre Câmara Cascudo em seu monumental Dicionário do folclore brasileiro (Rio de Janeiro, 1954 p.252) – "É um canto entoado à cabeça dos moribundos ou dos mortos, cerimonial de velório, ainda existente na Paraíba, Rio Grande do Norte e Pernambuco e possivelmente noutros estados".

Na boca do povo a palavra se estropia nasalando-se em "inciência", ou mais freqüentemente, na forma plural "inselências".

O melhor e até agora mais completo estudo sobre esses cânticos de velório e morte, foi feito por meu prezado amigo Téo Brandão, focalizando os "Cantos e ritos funerários de Alagoas" (Folklore Brasiliano, separata da Revista Folklore, ano X. fasc.54, 1958, Nápoles, Itália).

Nesse estudo – que acabo de receber, com generosa dedicatória do autor, o folclorista Téo Brandão, divulga numerosas variantes que colheu da tradição oral nas Alagoas, quer de "Excelências", quer de "Benditos" – além da análise bem feita, comentários e confrontos que valorizam seu erudito e belo trabalho.

Diz Téo Brandão, à página 5, definindo o que seja "Excelência": "é tipo especial de hino ou reza cantada, em que uma estrofe se repete certo número de vezes". ("As excelências de anjo – crianças pequena, geralmente antes do batismo – diz Téo Brandão – repetem-se apenas sete vezes").

A denominação de excelências decorre do fato de "as formas mais típicas e comuns (se iniciarem) sempre pela palavra "excelência", no primeiro verso.

Essas orações ou hinos fúnebres – como se vê na definição de mestre Cascudo – não se entoam apenas nos velórios de defuntos. Podem ser cantadas também para ajudarem alguém a morrer, e morrer bem.

Diz Téo Brandão a esse respeito (p.4): "Nas localidades do interior, nos vilarejos, arruados, engenhos de açúcar ou fazendas de criação de gado, sítios de coqueiros ou propriedades de lavoura, há sempre indivíduos que se especializam no piedoso e meritório mister de ajudar a morrer o próximo. Chamam-se "Exaltadores", parece, pois a função que lhes cabe é exortar os moribundos nos terríveis momentos da passagem para outra vida, e porque exatamente assim é que são chamados em outras regiões do Brasil".

Gonçalvez Fernandes, em seu conhecido livro O folclore mágico no Nordeste (Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1938, v.XVIII, p.65) também se refere a esse curioso ajutório. Diz ele: "Ajudar a morrer é uma coisa enorme, e há quem tenha fama de saber ajudar a morrer em quase todo o município" (Alagoinha, Paraíba). E prossegue: "Mas esse ofício sempre é dado à pessoa mais chegada ao homem em agonia. Gritam-lhe os amigos em altos suplicados que ele vai morrer, com indicações de ordem religiosa e despedidas muito dramáticas".

Aqui no Espírito Santo, sei que se entoam excelências por esse interior a dentro. Tenho, em meus arquivos, registros de várias delas: "Inselência da Virgem de Conceição", "Inselência dos Anjos", " de Nossa Senhora da Boa Graça", etc.. Todas, porém, são orações para velório ou enterros, salva esta que aqui vai transcrita, recolhida, em 1945, lá em Afonso Cláudio, pela Professora Elsa Fernandes Gastin, do Grupo Escolar "José Cupertino".

Diz assim a "inselência" que lá se usava (ou se usa ainda) para ter uma boa morte:

Primeira inselência

Nossa Senhora do Porto (ou do Parto?)
Rogai a Deus por este corpo
Na passagem deste mundo
Para o outro
(reza-se depois uma Ave-Maria)

Segunda inselência

Nossa Senhora do Porto
Rogai a Deus por este corpo
Na passagem deste mundo
Para o outro.
(Ave-Maria)

Terceira inselência

Nossa senhora do porto
Rogai etc. etc.

E assim por diante, até à sétima inselência, arrematando cada uma delas por uma Ave-Maria.

Porque se reduzem a sete as estrofes, presumo – dentro do informe de Téo Brandão – fosse essa inselência de Afonso Cláudio dedicada a um anjinho e não a um doente adulto.

Com essas cantorias dolentes, afirmam que o pobre agonizante passará desta vida para a outra numa boa morte – morrendo – como se diz por aí – tal como passarinho.


(Neves, Guilherme Santos. ""Inselências" para uma boa morte". A Gazeta. Vitória, 15 de agosto de 1958)

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