Ano V - novembro  2002 - nº 51

Sua revista com a cara e a alma brasileiras


SUMÁRIO - EDIÇÃO 51
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PALHOÇA

Dos lugares onde repousam os defuntos, o Rio de Janeiro no tempo dos vice-reis, por Luiz Edmundo.

Ritos fúnebres do interior do Ceará: Tratamento do corpo e vestuário do defunto, por Cândida Galeno.

O lenço no folclore, por Luiz. R. de Ameida.

COLHER DE PAU
PANACÉIA
CATAVENTO
ALMANAQUE
REALEJO
COLABORAÇÕES

 

PALHOÇA - Nesta seção, textos sobre a casa em diferentes regiões; utensílios; materiais; móveis, indumentárias; usos e costumes; tipos populares...


O LENÇO NO FOLCLORE

Luiz R. de Almeida


Os leitores modernos hão de estranhar este título, mas, os que viveram no tempo das sinhazinhas, isto é, no tempo em que os bailes exigiam carnê e casaca, e as danças familiares fraque ou jaquetão, compreenderão facilmente o papel do lenço no nosso folclore, embora, naquela época, não se conhecesse o significado dessa palavra.

Vou explicar: Desde que o mundo é mundo, o namoro sempre existiu, variando de país a país, de região a região, de estado a estado. Pois bem, na época dos nossos avós, em que os costumes vinha todos de Portugal, o namoro era todo à portuguesa: gargarejo debaixo de uma janela; serenata, sob a mesma, quando todos dormiam; etiqueta, nos salões; cartinhas amorosas e perfumadas, versos, recitativos ao som da Dalila, etc., etc.

De forma que, um namorado, ao entrar num salão de dança, poeta ou não, levava sempre, além do lenço de limpar o suor, um outro lencinho perfumado para se comunicar com a namorada, que, por sua vez, não dispensava o famoso leque, que, ainda hoje, é um constante portador de mensagens amorosas, embora, tenha decaído muito com a desenvoltura dos costumes contemporâneos.

Mas vamos ao caso do lenço: "em primeiro lugar, havia um código secreto para a colocação do lenço, a fim de que os namorados se compreendessem, sem chamar a atenção não só dos pais da garota como dos parentes e do público. É, quando havia oportunidade, numa dança ou num colóquio fora das vistas dos indiscretos, ele, munido de um lápis (geralmente o do carnê do baile, pois, naquele tempo não existiam ainda canetas-tinteiros...) escrevia quadras amorosas ou alguma declaração no tal lenço perfumado, que, em seguida, desaparecia no decote do vestido de baile.

Eis aqui algumas das amostras desses versinhos, geralmente quadras, que, na minha opinião podem ser chamados hoje de "folclore popular erudito", pois, a maioria delas pertencia a verdadeiros poetas:

I
Este lenço representa
A nossa grande amizade;
Cada ponta amor indica
Cada letra uma saudade.

II
Este lenço foi sinal
Dum pensamento de amor,
Agora é triste lembrança
Do mais injusto rigor.

III
Quando fito o meu olhar
Sinto infinito prazer;
Se nele encontrasse a morte
Não me importava morrer

IV
Tenho umas letras no lenço
Que me ofereceu o meu bem;
O que essas letras dizem
Só eu sei mais ninguém.

V
Tenho um lenço de ciúmes,
O meu amor pra te dar
Com quatro nós tão bem dados
Que não posso desatar.

VI
Ai senhora do meu peito,
Triste coisa é querer bem:
Quanto mais a gente sofre
Mais amor a gente tem.


(Almeida, Luiz R. de. "O lenço no folclore". Folha de Minas. Minas Gerais, 15 de novembro de 1958)

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