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| PALHOÇA - Nesta seção, textos sobre a
casa em diferentes regiões; utensílios; materiais; móveis, indumentárias; usos e
costumes; tipos populares... |
Os leitores modernos hão de estranhar este título, mas, os que viveram no tempo das
sinhazinhas, isto é, no tempo em que os bailes exigiam carnê e casaca, e as danças
familiares fraque ou jaquetão, compreenderão facilmente o papel do lenço no nosso
folclore, embora, naquela época, não se conhecesse o significado dessa palavra.
Vou explicar: Desde que o mundo é mundo, o namoro sempre existiu, variando de país a
país, de região a região, de estado a estado. Pois bem, na época dos nossos avós, em
que os costumes vinha todos de Portugal, o namoro era todo à portuguesa: gargarejo
debaixo de uma janela; serenata, sob a mesma, quando todos dormiam; etiqueta, nos salões;
cartinhas amorosas e perfumadas, versos, recitativos ao som da Dalila, etc., etc.
De forma que, um namorado, ao entrar num salão de dança, poeta ou não, levava sempre,
além do lenço de limpar o suor, um outro lencinho perfumado para se comunicar com a
namorada, que, por sua vez, não dispensava o famoso leque, que, ainda hoje, é um
constante portador de mensagens amorosas, embora, tenha decaído muito com a desenvoltura
dos costumes contemporâneos.
Mas vamos ao caso do lenço: "em primeiro lugar, havia um código secreto para a
colocação do lenço, a fim de que os namorados se compreendessem, sem chamar a atenção
não só dos pais da garota como dos parentes e do público. É, quando havia
oportunidade, numa dança ou num colóquio fora das vistas dos indiscretos, ele, munido de
um lápis (geralmente o do carnê do baile, pois, naquele tempo não existiam ainda
canetas-tinteiros...) escrevia quadras amorosas ou alguma declaração no tal lenço
perfumado, que, em seguida, desaparecia no decote do vestido de baile.
Eis aqui algumas das amostras desses versinhos, geralmente quadras, que, na minha opinião
podem ser chamados hoje de "folclore popular erudito", pois, a maioria delas
pertencia a verdadeiros poetas:
I
Este lenço representa
A nossa grande amizade;
Cada ponta amor indica
Cada letra uma saudade.
II
Este lenço foi sinal
Dum pensamento de amor,
Agora é triste lembrança
Do mais injusto rigor.
III
Quando fito o meu olhar
Sinto infinito prazer;
Se nele encontrasse a morte
Não me importava morrer
IV
Tenho umas letras no lenço
Que me ofereceu o meu bem;
O que essas letras dizem
Só eu sei mais ninguém.
V
Tenho um lenço de ciúmes,
O meu amor pra te dar
Com quatro nós tão bem dados
Que não posso desatar.
VI
Ai senhora do meu peito,
Triste coisa é querer bem:
Quanto mais a gente sofre
Mais amor a gente tem.
(Almeida, Luiz R. de. "O lenço no folclore". Folha de Minas. Minas Gerais, 15 de novembro
de 1958)
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