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| PALHOÇA - Nesta seção, textos sobre a
casa em diferentes regiões; utensílios; materiais; móveis, indumentárias; usos e
costumes; tipos populares... |
DOS LUGARES ONDE REPOUSAM OS DEFUNTOS |
José Correia Picanço traduziu para o português o trabalho de Vick dAzir, vertido,
por sua vez, do idioma italiano, da notável memória, de Scipião Pratolli, sob o título
Ensaios sobre os perigos das sepulturas dentro das cidades e nos seus contornos.
Vicente Coelho Seabra da Silva Telles publicou, antes de Picanço, um estudo sobre o
assunto, muito interessante que intitulou: Memórias sobre os prejuízos causados pelas
sepulturas aos templos e métodos de os prevenir.
Os enterros eram, em geral, feitos à noite, como em Lisboa. O cadáver ia descoberto e o
caixão, que menos era um caixão que um simples jogo de tábuas capaz de suspender o
morto, era conduzido por irmãos vestidos de suas opas, e tantos padres e frades quanto
possível. Fazia-se uma profusa distribuição de tochas.
Quando se tratava de um grande morto armava-se um cadafalso no templo. Havia missa
cantada. Chorava-se com bulha.
Essas manifestações de pesar ruidosas, espectaculosas, para as quais se contratavam
ciganos, verdadeiros tácnicos da arte de chorar, vieram de Portugal, onde os defuntos,
sobretudo em certa época, eram chorados com escândalo.
O príncipe dom Afonso, em julho de 1491, nove anos antes, portanto, da descoberta do
Brasil, caiu do cavalo e ficou sem fala. Fez-se por isso uma mui grande e devota
procissão com toda a cleresia e relíquias. Não se sabe bem se por isso, ou se pelas
lesões recebidas, o caso é que o príncipe, em vez de se salvar, morreu.
Descrevendo a dor que por tão grande acontecimento sobreveio, diz um cronista da época:
"El Rei, por tamanha perda e tamanho nojo, se tosquiou. E a princesa tosquiou os seus
presados cabelos, e se vestiu toda de almafega (lã grossa) e a cabeça coberta de negro
vaso (cabelo, porventura do que hoje chamamos escomilha). E na corte e em todo o reino
não ficou senhor, nem pessoa principal, nem homem conhecido que não se tosquiasse... E a
gente pobre que não tinha com que comprar burel, que valia 300 réis a vara, muitos
tempos andou com os vestidos virados do avesso... e porque se não achava tanto burel, os
lavradores e gente baixa vendiam as cobertas de suas camas a preço de panos finos, e os
homens se vestiam de sacos e cobertas de bestas."
Foi o cadáver do desditoso príncipe levado para o convento da Batalha, e ah, diz o
cronista:
"O pregador alegou tantas e tais raízes para choro e tristeza, que muitos homens de
muita autoridade, muito saber muito siso, àquela hora parecia que o não tinham;
vendo-lhes muito cruamente dar na eça tamanhas cabeçadas, que parecia que quebravam as
cabeças; depenando todas as barbas e cabelos, dando em si muitas bofetadas, assim homens
como mulheres e velhos e moços, coisa tão espantosa e de tanta dor e tristeza que não
se via, e durou tanto que os não podiam fazer calar." (Ribeiro Guimarães, Sumário
de vária história, v.2, p.147)
Numa época como a de hoje, o espetáculo seria de natureza a cobrar-se entradas, capazes
de fazer a fortuna do empresário que as embolsasse.
(Luiz Edmundo. O Rio de Janeiro no tempo dos vice-reis.
2ª ed. Rio de Janeiro, Athena Editora, sd, p.529-530)
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