Ano V - novembro  2002 - nº 51

Sua revista com a cara e a alma brasileiras


SUMÁRIO - EDIÇÃO 51
FESTANÇA
CANCIONEIRO
IMAGINÁRIO
OFICINA
PALHOÇA

Dos lugares onde repousam os defuntos, o Rio de Janeiro no tempo dos vice-reis, por Luiz Edmundo.

Ritos fúnebres do interior do Ceará: Tratamento do corpo e vestuário do defunto, por Cândida Galeno.

O lenço no folclore, por Luiz. R. de Ameida.

COLHER DE PAU
PANACÉIA
CATAVENTO
ALMANAQUE
REALEJO
COLABORAÇÕES

 

PALHOÇA - Nesta seção, textos sobre a casa em diferentes regiões; utensílios; materiais; móveis, indumentárias; usos e costumes; tipos populares...


DOS LUGARES ONDE REPOUSAM OS DEFUNTOS

Luiz Edmundo


José Correia Picanço traduziu para o português o trabalho de Vick d’Azir, vertido, por sua vez, do idioma italiano, da notável memória, de Scipião Pratolli, sob o título — Ensaios sobre os perigos das sepulturas dentro das cidades e nos seus contornos. Vicente Coelho Seabra da Silva Telles publicou, antes de Picanço, um estudo sobre o assunto, muito interessante que intitulou: Memórias sobre os prejuízos causados pelas sepulturas aos templos e métodos de os prevenir.

Os enterros eram, em geral, feitos à noite, como em Lisboa. O cadáver ia descoberto e o caixão, que menos era um caixão que um simples jogo de tábuas capaz de suspender o morto, era conduzido por irmãos vestidos de suas opas, e tantos padres e frades quanto possível. Fazia-se uma profusa distribuição de tochas.

Quando se tratava de um grande morto armava-se um cadafalso no templo. Havia missa cantada. Chorava-se com bulha.

Essas manifestações de pesar ruidosas, espectaculosas, para as quais se contratavam ciganos, verdadeiros tácnicos da arte de chorar, vieram de Portugal, onde os defuntos, sobretudo em certa época, eram chorados com escândalo.

O príncipe dom Afonso, em julho de 1491, nove anos antes, portanto, da descoberta do Brasil, caiu do cavalo e ficou sem fala. Fez-se por isso uma mui grande e devota procissão com toda a cleresia e relíquias. Não se sabe bem se por isso, ou se pelas lesões recebidas, o caso é que o príncipe, em vez de se salvar, morreu.

Descrevendo a dor que por tão grande acontecimento sobreveio, diz um cronista da época:

"El Rei, por tamanha perda e tamanho nojo, se tosquiou. E a princesa tosquiou os seus presados cabelos, e se vestiu toda de almafega (lã grossa) e a cabeça coberta de negro vaso (cabelo, porventura do que hoje chamamos escomilha). E na corte e em todo o reino não ficou senhor, nem pessoa principal, nem homem conhecido que não se tosquiasse... E a gente pobre que não tinha com que comprar burel, que valia 300 réis a vara, muitos tempos andou com os vestidos virados do avesso... e porque se não achava tanto burel, os lavradores e gente baixa vendiam as cobertas de suas camas a preço de panos finos, e os homens se vestiam de sacos e cobertas de bestas."

Foi o cadáver do desditoso príncipe levado para o convento da Batalha, e ah, diz o cronista:

"O pregador alegou tantas e tais raízes para choro e tristeza, que muitos homens de muita autoridade, muito saber muito siso, àquela hora parecia que o não tinham; vendo-lhes muito cruamente dar na eça tamanhas cabeçadas, que parecia que quebravam as cabeças; depenando todas as barbas e cabelos, dando em si muitas bofetadas, assim homens como mulheres e velhos e moços, coisa tão espantosa e de tanta dor e tristeza que não se via, e durou tanto que os não podiam fazer calar." (Ribeiro Guimarães, Sumário de vária história, v.2, p.147)

Numa época como a de hoje, o espetáculo seria de natureza a cobrar-se entradas, capazes de fazer a fortuna do empresário que as embolsasse.


(Luiz Edmundo. O Rio de Janeiro no tempo dos vice-reis. 2ª ed. Rio de Janeiro, Athena Editora, sd, p.529-530)

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