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| PALHOÇA - Nesta seção, textos sobre a
casa em diferentes regiões; utensílios; materiais; móveis, indumentárias; usos e
costumes; tipos populares... |
TRATAMENTO DO CORPO E VESTUÁRIO DO DEFUNTO |
Tratamento do corpoNão há entre nós notícia de lavação do corpo, de que trata
em seu estudo o escritor José Nascimento de Almeida Prado.
Em São Paulo, onde reside o autor e a cujo interior se refere o trabalho em apreço,
"depois que o corpo esfria bem, mas antes que comece a enrijecer, mais ou menos uma
hora após a verificação da morte, procede-se à lavação, lavagem ou banho do corpo,
para cujo serviço há também pessoas procuradas e como especializadas, em regra
estranhos e pessoas de responsabilidade, que têm coragem e geralmente gostam
mesmo de se prestar para isso".
Este uso de se banhar o morto, no sul do país, talvez se deva à acentuada influência
estrangeira ali existente, visto serem oriundos da Europa e da América do Norte estes
hábitos. Em Portugal, informa-me o médico doutor João Saraiva Leão, ao morrer um
cidadão, a primeira coisa que se lhe faz é barbear. Não se compreende como se possa
sepultar um cristão barbado. O banho vem depois. Na América não só se banha, como se
faz a "maquilagem" completa do defunto.
Enquanto assim se procede noutros países, e no sul do nosso próprio, aqui no Nordeste
não se banha, não se faz barba ou qualquer "maquilagem" em quem morre, antes
de o sepultar. Apenas, quando se trata de "anjo" (criança), pinta-se-lhe com
papel de seda encarnada ou carmim as faces lívidas.
Perguntando à professora do sítio São Lourenço (município de São Gonçalo do
Amarante) e também poetisa, Abigail Sampaio, se era costume por lá dar banho nos
defuntos, respondeu-me ela com muito espírito: "não, o defunto vai com a sujeira
que guardou na moléstia".
Já em Limoeiro do Norte e em Tauá, cidades do interior cearense, segundo depoimento das
educadoras (Carmusina Arraes Freire e Lili Feitosa, depois de morto, fecham-se os olhos do
defunto, amarram-se-lhe os pés, cruzam-se-lhe as mãos sobre o peito, penteiam-se-lhe os
cabelos e faz-se uma limpeza nas partes do corpo que ficam expostas, descobertas, para dar
ao morto boa aparência.
Vestuário do defunto
Ao acabar de morrer, a pessoa que ajuda o moribundo neste último transe diz-lhe:
Fulano, fecha os olhos.
Quando a boca do defunto fica aberta, atam-se-lhe os queixos, e o mesmo se faz aos pés e
às mãos, que só são soltos ao descer para a sepultura.
Ao vestirem a mortalha, dizem ao morto: Fulano, acorda para vestir tua última
camisa.
As mulheres entre nós usam sempre mortalhas, geralmente traje do santo de maior devoção
na localidade ou na família: traje de Nossa Senhora do Carmo e hábito franciscano,
indistintamente, para homens e mulheres, operários e mulheres mais pobres, por serem mais
acessíveis à bolsa de todos. As moças vão trajadas de branco, ora com vestes de Nossa
Senhora de Lourdes, Imaculada Conceição, Nossa Senhora de Fátima, ora de Santa
Teresinha.
Não é costume entre nós a mulher vestir para enterrar-se nenhuma roupa que tenha usado
em vida, como ocorreu na América com Carmem Miranda, que veio a sepultar-se com vestido
vermelho. Aqui a mulher usa sempre mortalha, enquanto os homens tanto podem ir com traje
de santo como com roupa já usada em vida: uniforme, a roupa que serviu no ato do
casamento (Limoeiro do Norte).
Quando homem, informa-me Lili Feitosa, professora em Tauá, o morto vai com sua roupa mais
nova, de gravata e sapatos; quando mulher, vai com traje de Nossa Senhora do Carmo, de
Fátima ou de outra devoção da morta. Noutras regiões, como, por exemplo, Canto Grande,
Siupé, São Gonçalo (município de São Gonçalo do Amarante), o defunto tem que levar
toda a roupa nova: se é mulher, a mortalha de morim e cordão de São Francisco na
cintura, se é homem, leva a mortalha por cima da camisa e das calças e o cordão de São
Francisco à cintura. Não usam paletó. Isso para os pobres. Os que se consideram ricos
não usam mortalha, vão em traje de qualquer santo, informa-me Abigail Sampaio.
Dona Raimunda Maximiniano da Silva, que mora nessa zona, disse-me a razão de não poderem
os defuntos vestir roupa usada, e ter que vestir tudo novo: é porque os anjos, ao virem
buscar a alma do que morreu, seguram-se na fazenda, que se for usada rasga-se, caindo a
alma novamente na terra.
Artigo originalmente publicado em Revista do
Arquivo Municipal. São Paulo, nº32, julho/setembro de 1969, p.73-99.
(Galeno, Cândida. "Ritos fúnebres no interior cearense". Em Seraine, Florival.
Antologia
do folclore cearense. 2ª ed. Fortaleza, Edições UFC, 1983, p.244-246) |
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