Ano V - novembro  2002 - nº 51

Sua revista com a cara e a alma brasileiras


SUMÁRIO - EDIÇÃO 51
FESTANÇA
CANCIONEIRO
IMAGINÁRIO
OFICINA
PALHOÇA

Elogio do arrieiro, por Luís da Câmara Cascudo.

Como se classificam as rendas

Como vendem os sertanejos

COLHER DE PAU
PANACÉIA
CATAVENTO
ALMANAQUE
REALEJO
COLABORAÇÕES

 

OFICINA - Nesta seção, textos sobre profissões; ferramentas; técnicas; agricultura, pecuária; artesanato; vendedores ambulantes; pregões...

COMO VENDEM OS SERTANEJOS

Eduardo Campos


É opinião generalizada de que os nossos irmãos norte-americanos realmente sabem vender. Todos os veículos de publicidade – é igualmente, nossa impressão – parecem insuficientes, naquele país irmão, para encaminhar todos os apelos de vendas de comerciantes, industriais, agricultores, etc. Daí a febre de interesse pelos métodos práticos de venda, pelas frases que fomentam o aumento de negócios e por quantas coisas mais que implicam progresso.

A gente humilde de Pacatuba não conhece, é evidente, os métodos modernos que os americanos empregam para promover suas vendas, ampliar sua indústria, favorecer as trocas que presidem o desenvolvimento do comércio e garantem o bem-estar da coletividade. Não, ninguém naquele burgo de difícil evolução, conhece, por exemplo, livros como Frases que têm vendido, de Eimer Wheller, ou Escola de vendedores, de Harold M. Hass. Mas todo mundo ali, em sua simplicidade, sabe utilizar os mesmo métodos que esses técnicos de publicidade descobriram para fazer crescer os negócios de Tio Sam.

"Diga com flores..." É este um dos pontos principais da doutrina de Wheeler, que significa: provar o que se diz e que, no fundo representa uma maneira de ser o vendedor agradável ao cliente no ato de comerciar. Como faz esta ou aquela casa de negócios, em vilas ou cidades modestas do nosso hinterland, todas enfim fomentam suas vendas quase que rigorosamente dentro dos mesmo princípios. O sertanejo diz com flores. A laranja que vende, a banana, o doce é sempre a mais gostosa, a mais saborosa ou o mais rendoso que ele guardou "especialmente" para o freguês. Não é um vendedor "parado", isto é, sem interesse de vender. Ao contrário: gosta de mandar amostras do que possui à casa dos interessados, às pessoas influentes do lugar:

- Menino, vá mostrar esses abacates ao doutor fulano. Diga que eu me lembrei que ele gosta de coisa boa...O abacate é uma especialidade"...

É um artífice. Não sabe o que é slogan, mas muitas vezes o nome da bodega é quase uma legenda a expressar a marca definida de um bom serviço: A casa do pobre. Nosso barateiro, Balcão da sorte, etc. A impressão mais rudimentar que tem a respeito de vitrina é que essa significa um mostruário de vendedor ambulante, melhorado. Então procurando imitar, faz uma réplica do mostruário, pendurando numa tábua especialmente para esse fim, ou ao longo das prateleiras, em sentido horizontal, vidros de perfume, sabonetes, etc. Tudo preso a cordões.

"Não venda a sardinha...venda o sabor da sardinha"... Bem é outra regra comercial de grande importância, regra número um para o êxito de qualquer negócio na opinião de Mr. Wheelem. Ninguém discordará, nem mesmo o nosso simplório homem do campo que sabe a importância do aspecto do produto para a realização da venda.

– É milho de primeira. É do roçado do coronel beltrano.

Que vantagem poderá significar para o comprador ser o milho um produto da propriedade daquele senhor? Aparentemente, nenhuma, mas só a maneira de falar do vendedor já o leva a preferir o milho na certeza de que o coronel beltrano deve ter terras muitos boas, colhendo assim espigas de primeira qualidade. Daí porque há sempre a atração de sabor, de importância e qualidade, nestas diversas maneiras que o sertanejo anuncia sua mercadoria:

- É abacaxi de Cascavel!
– Rapadurinha de coco, do Cariri!
– Laranja de Russas!

Quase sempre o produto anunciado não é de Cascavel, nem do Cariri nem de Russas. Mas o vendedor popular sabe do efeito mágico de suas palavras: há uma tradição de que a melhor rapadurinha é a que se fabrica no Cariri. Por isso mesmo em sua maneira de anunciar vai tentando o freguês com o "gosto da sardinha", isto é, com o sabor da coisa, não técnica concebida por Elmer Whelher e que há vendido milhões na América e presidido na prosperidade de homens inteligentes.

Donald Pierson, numa separata da revista Sociologia, referindo-se ao tema "Etiqueta em Cruz das Almas", dá-nos, em termos exatos, o que é o sistema de compra e venda do hinterland: "A etiqueta de fazer compras difere acentuadamente da que caracteriza ordinariamente a cidade. Um negociante trata seus fregueses quase sempre como se fossem hóspedes que viessem à sua casa para uma visita. Entrando numa venda, um freguês pode sentar-se num banco ou num saco de feijão ou outro objeto semelhante, e ficar horas conversando com o proprietário e outros homens presentes". E é isso na verdade que sempre acontece. Surgem as perguntas sobre a família de ambos, isto é, do vendedor e do comprador, representando portanto, conforme frisou aquele estudioso, o ato de fazer pra mais uma atitude social do que comercial.

Acredita-se que muitos antes do Mr. Elmer Wheller já os meus conterrâneos de Pacatuba sabiam vender "anunciando o seu produto com flores" isto é, mostrando-os ao cliente sob uma aura de simpatia. Sendo freguês de uma venda o sertanejo tem direitos especiais: é como se pertencesse à família do próprio vendedor. Pode discutir os preços, com liberdade, pegar as frutas, não tem receio de mandar que o freguês examine os produtos que expõe no balcão:

Pode pegar... é laranja de casca fina, doce!

Às vezes, mais incisivo: - Não tenha cerimônia, pode experimentar...

Frases especiais estimulam a venda: "Se a cana não for um doce o senhor num paga nada..."; "Queremos ser um cigano pé no chão se o mel não prestar"; "Desengano da vista, é furar os olhos: Pode tirar um pedaço pra experimentar"; "Estou vendendo no claro, num tem essa história de esconder, não"; "Bote o preço, moço, que eu tou aqui é pra vender..."; "Quem vende o que é bom é mesmo que tá vendendo duas vezes, etc, etc.

E assim, vai o vendedor popular, o comerciante estabelecido em pequenas cidades sertanejas promovendo suas vendas. Muitas vezes começa modestamente e acaba um dia próspero comerciante na capital, ainda não de todo servido das luzes da arte de comerciar de centros mais adiantados. Mas que lhe interessa isso, se sabe dizer com flores, se sabe vender o sabor de sua mercadoria, tal e qual ensinam os expertos em publicidade como Wheeler e tantos outros?

O assunto é um convite a estudos mais esclarecedores e mais profundos. O que escrevemos vale apenas um lembrete.


(Campos, Eduardo. "Como vendem os sertanejos". O Jornal, Rio de Janeiro, 3 de novembro de 1957)

Jangada Brasil © 1998-2002