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| OFICINA
- Nesta seção, textos sobre profissões; ferramentas; técnicas; agricultura, pecuária;
artesanato; vendedores ambulantes; pregões... |
Na semana um dos sucessos em Madri foi uma zarzuela El cantar del arrieiro; de Dom
Adolfo Terrado e Dom Serafim Adame, música do maestro Diaz Giles. Nada sei da zarzuela
mais fiquei lembrando que
O cantar do arrieiro
É um cantar diferente;
Acorda quem está dormindo
Melhorar quem está doente!
Ainda conheci a figura do arrieiro na plenitude da sua função social. As estradas de
penetração eram as mesmas do século XVIII e o automóvel conhecíamos pelas
ilustrações. A capital possuía uns dois, guardados e olhados como se fossem feitos de
alfenim. Todo o comércio era um processo lento de circulação de comboios, jumentos,
quartaus, burros, dezenas e dezenas, guiados pela madrinha do lote, bicho de andar airoso,
balançando o pescoço na cadência da marcha, fazendo tirlintar o guizo de prata que
orientava a todos.
Essa rede de transporte abrangia pontos velhos de fixação de acordo com as aguadas para
os animais e as sombras acolhedoras para os descansos e as dormidas. Eram as oiticicas das
coroas dos rios, os jatobazeiros esgalhados, os joazeiros verdes, próximos às cacimbas
de areia frouxa, merejando o líquido fácil, apanhado em cuias enquanto a carne-de-sol
assava ou batia-se a paçoca, comida com banana.
O arrieiro era o tangerino, sabedor das estradas, veterano de travessias sem aguas,
iniciado nas manhas dos jumentos e das traquinices dos moradores das beiras de estrada.
Era tocador de viola, namorador, bandoleiro, simples, confiado, honesto. Semanas inteiras,
em pistas de cem léguas, Mossoró para Souza, tangia o comboio lento, estalando as
pontas-de-linha, excitando a continuidade do ritmo com as doces cantigas ouvidas pelas
árvores pintadas de poeira e pelos flocos de algodão pendurados das ramadas espinhentas
de juremas e faveleiras.
Foi o músculo que prendeu e executou o movimento da articulação econômica durante
quase dois séculos. Tinha conhecimentos de veterinária e de feitiçaria indígenas,
tomando e aplicando em si mesmo remédios violentos e ingênuos que dizia infalíveis
"como o Sacramento".
Sociologicamente foi o arrieiro um elemento de dissiminação de crendices e da literatura
oral, um transmissor de lendas, mitos, estórias, estabelecendo a comunicação entre os
grupos culturais esparsos e primitivos. Ao longo das estradas ia deixando influência
pessoal e do seu comboio. Não tinha rapidez que anula ou dispersa, modificando a
permanência psicológica, como se verifica com o poderoso chauffeur de caminhão.
Viajei de comboio, com arrieiros, durante semanas, arranchando-me, pedindo descanso e
pedindo dormida. Vi-os trabalhar, contar, folgar-se, planejar. Por isso, lendo o título
da zarzuela em Madrid, lembrei-me que o nosso arrieiro está esperando seu estudioso, seu
poeta, seu músico, seu teatrólogo.
Quando os terá? Tê-los-á quando os estudiosos da sociologia cuidem de fixar os
elementos formadores da sociedade brasileira em vez de olhá-la, confusamente, no seu
conjunto. Ainda é tempo de estudar o rio nas suas cabeceiras formadoras e não no momento
em que se precipita, turvo e banal, no anonimato do estuário comum...
(Cascudo, Luís da Câmara. "Elogio do arrieiro". Diário Oficial. Natal, 10 de julho de 1948)
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