Ano V - novembro  2002 - nº 51

Sua revista com a cara e a alma brasileiras


SUMÁRIO - EDIÇÃO 51
FESTANÇA
CANCIONEIRO
IMAGINÁRIO
OFICINA
PALHOÇA

Elogio do arrieiro, por Luís da Câmara Cascudo.

Como se classificam as rendas

Como vendem os sertanejos

COLHER DE PAU
PANACÉIA
CATAVENTO
ALMANAQUE
REALEJO
COLABORAÇÕES

 

OFICINA - Nesta seção, textos sobre profissões; ferramentas; técnicas; agricultura, pecuária; artesanato; vendedores ambulantes; pregões...

ELOGIO DO ARRIEIRO

Luís da Câmara Cascudo


Na semana um dos sucessos em Madri foi uma zarzuela El cantar del arrieiro; de Dom Adolfo Terrado e Dom Serafim Adame, música do maestro Diaz Giles. Nada sei da zarzuela mais fiquei lembrando que

O cantar do arrieiro
É um cantar diferente;
Acorda quem está dormindo
Melhorar quem está doente!

Ainda conheci a figura do arrieiro na plenitude da sua função social. As estradas de penetração eram as mesmas do século XVIII e o automóvel conhecíamos pelas ilustrações. A capital possuía uns dois, guardados e olhados como se fossem feitos de alfenim. Todo o comércio era um processo lento de circulação de comboios, jumentos, quartaus, burros, dezenas e dezenas, guiados pela madrinha do lote, bicho de andar airoso, balançando o pescoço na cadência da marcha, fazendo tirlintar o guizo de prata que orientava a todos.

Essa rede de transporte abrangia pontos velhos de fixação de acordo com as aguadas para os animais e as sombras acolhedoras para os descansos e as dormidas. Eram as oiticicas das coroas dos rios, os jatobazeiros esgalhados, os joazeiros verdes, próximos às cacimbas de areia frouxa, merejando o líquido fácil, apanhado em cuias enquanto a carne-de-sol assava ou batia-se a paçoca, comida com banana.

O arrieiro era o tangerino, sabedor das estradas, veterano de travessias sem aguas, iniciado nas manhas dos jumentos e das traquinices dos moradores das beiras de estrada. Era tocador de viola, namorador, bandoleiro, simples, confiado, honesto. Semanas inteiras, em pistas de cem léguas, Mossoró para Souza, tangia o comboio lento, estalando as pontas-de-linha, excitando a continuidade do ritmo com as doces cantigas ouvidas pelas árvores pintadas de poeira e pelos flocos de algodão pendurados das ramadas espinhentas de juremas e faveleiras.

Foi o músculo que prendeu e executou o movimento da articulação econômica durante quase dois séculos. Tinha conhecimentos de veterinária e de feitiçaria indígenas, tomando e aplicando em si mesmo remédios violentos e ingênuos que dizia infalíveis "como o Sacramento".

Sociologicamente foi o arrieiro um elemento de dissiminação de crendices e da literatura oral, um transmissor de lendas, mitos, estórias, estabelecendo a comunicação entre os grupos culturais esparsos e primitivos. Ao longo das estradas ia deixando influência pessoal e do seu comboio. Não tinha rapidez que anula ou dispersa, modificando a permanência psicológica, como se verifica com o poderoso chauffeur de caminhão.

Viajei de comboio, com arrieiros, durante semanas, arranchando-me, pedindo descanso e pedindo dormida. Vi-os trabalhar, contar, folgar-se, planejar. Por isso, lendo o título da zarzuela em Madrid, lembrei-me que o nosso arrieiro está esperando seu estudioso, seu poeta, seu músico, seu teatrólogo.

Quando os terá? Tê-los-á quando os estudiosos da sociologia cuidem de fixar os elementos formadores da sociedade brasileira em vez de olhá-la, confusamente, no seu conjunto. Ainda é tempo de estudar o rio nas suas cabeceiras formadoras e não no momento em que se precipita, turvo e banal, no anonimato do estuário comum...


(Cascudo, Luís da Câmara. "Elogio do arrieiro". Diário Oficial. Natal, 10 de julho de 1948)

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