
A origem do termo bernúncia,
figura fantástica presente no boi-de-mamão, por Orlando Ferreira de Melo
O boitatá, por Osvaldo Orico.
Três contos populares: O barba de ouro e a carantonha, Boca
calada salva a vida e A mulher curiosa e o galo, por Aluísio de Almeida.
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| IMAGINÁRIO
- Nesta seção, textos sobre lendas e mitos; contos; personagens; fábulas;
narrativas populares; seres fantásticos... |
O barba de ouro e a carantonha
Havia um rei que tinha uma bonita barba de ouro. E um dia ele foi chamado ao quarto da
rainha para ver a criança que acabava de nascer. Mas esse barba de ouro era encantado e
mau. Assim que viu o lindo menininho, pegou e foi comendo-o à vista de todos.
A rainha, quando de novo estava esperando outra criança, combinou com a comadre para
lograrem o rei. Arranjaram um coelhinho. Chamaram o barba de ouro e lhe apresentaram o
filho. Ah! O rei comeu o coelhinho e gostou.
A comadre levou a criança, que era uma menina, para criar por uns camponeses a um outro
reinado. A menina foi crescendo, crescendo. Os pais adotivos eram pobres, não sabiam o
que fazer com ela. E já estava em ponto de casar.
Então mataram uma ovelha, tiraram-lhe a pele e vestiram com ela a mocinha, que ficou que
nem um bicho. A madrinha, que era uma fada, pôs-lhe no dedo um anel que era para ela
pedir o que precisasse. E subiram as água-furtadas da casa, despediram-se da moça e,
dizendo-lhe que se fosse com Deus, pelo mundo, empurraram-na da janela.
Aquela coisa foi, foi, ao leu do vento e, enfim, caiu na floresta. O bicho ficou por ali,
quieto. Ouvia as cornetas: tu, tu, ru, tu, e latidos dos cães. O rei estava à
caça. E então apareceram os caçadores e já levavam a arma à cara, quando o rei
ordenou: não atirem!
O rei desse reinado era moço e curioso. Achou esquisito aquele bicho que falava como
gente. Levou-o para a cozinha do palácio e pôs-lhe o nome de Carantonha.
A Carantonha assistia às festas de longe.
Uma ocasião ouviu contar, na cozinha, de três grandes bailes que o rei ia dar em
seguida, para escolher a sua noiva.
Em todo o reinado, era um reboliço fora dos costume e costureiras e alfaiates não tinham
mãos a medir. As moças queriam ser princesas.
O rei gostava de ver sempre a Carantonha, que lhe prestava serviços, muito humilde.
Carantonha segurava a bacia de prata para o rei lavar as mãos.
Vossa majestade me deixa ir na festa?
- Tu, Carantonha?
O rei falou assim e borrifou o rosto dela, brincando. O que é que ela ia lá fazer?
Carantonha saiu chorando para o seu cantinho da cozinha. Só então é que se lembrou do
anel. Esfregou-o e disse:
- Anel, pelo poder que Deus te deu, quero que me arranjes um vestido cor da terra e uns
chapins muito bonitos! Imediatamente Carantonha viu-se transformada naquela
princesa mais bonita e procurou as salas de baile sem que ninguém percebesse. Opa! Foi um
sucesso! O rei dançou com ela e quase só com ela. Perguntou-lhe donde era e Carantonha
respondeu: - Eu sou da terra dos borrifos de água. E tratou de sair despercebida, para a
cozinha, vestindo de novo a pele de ovelha.
No outro dia a criadagem não falava de outra coisa: da nova princesa que aparecera e
ninguém sabia de que reinado era.
Quando ela foi apresentar a toalha ao rei, pediu-lhe licença para ir ao baile. O rei
atirou-lhe a toalha: - Tu, Carantonha?
Lá foi a moça para o seu cantinho da cozinha, esfregou o anel, e:
- Hoje quero um vestido cor de céu. E já estava como uma princesa. E foi entrando com
jeito no salão. Opa! Que sucesso! O rei dançou com ela até a madrugada. Perguntou-lhe
donde era. Eu? Eu sou da terra do joga a toalha. E tratou de escapulir-se.
No terceiro dia, enquanto o rei lavava as mãos depois do jantar, Carantonha pediu-lhe
outra vez a licença para ir ao baile.
Tu, Carantonha? E o rei deu-lhe um tapinha na cara, brincando.
A moça pediu ao anel o vestido cor do mar, muito mais lindo que os outros. E entrou no
salão. Já o rei foi recebê-la e dançaram, dançaram.
Donde és, bela princesa? Quero casar-me contigo, disse-lhe o rei.
Eu? Eu sou da terra do leva um tapa.
Mais tarde a Carantonha escapou e foi vestir sua pele na cozinha.
Estava acabando o baile. O rei resolveu descobrir o enigma. A princesa acabava de
desaparecer. Devia estar ainda no palácio. O rei mandou a polícia ocupar todas as
saídas e quando as moças iam saindo examinava uma por uma a ver-lhe o vestido cor do mar
e as feições do rosto, que muito bem lembrava. Nada! Ninguém! Examinou depois as
camareiras do palácio. Carantonha pediu ao anel o mesmo vestido cor do mar, cobriu-se com
a pele e ficou esperando. O rei estava certo que ninguém saíra. E então só faltava
examinar a Carantonha. Ele já andava desconfiado. Por isso chegou de repente, puxou a
espada e rasgou-lhe um pedaço da pele. Apareceu o vestido Ah! É assim?
disse o rei, riscou a pele de alto a baixo e Carantonha apareceu se rindo, nos modos e no
porte de uma princesa.
Os cortesãos estavam admirados! Que coisa!
Mas o rei, meio carrancudo, interpelou a moça.
Tu estavas zombando de mim? Olha, que eu não sou para brincadeiras. Porque é que
me dissestes que era da terra dos borrifos de água?
- Ué! Então vossa majestade não se lembra mais que quando pedi para ir ao baile da
primeira noite me esborrifou a água no meu rosto?
- Ah! Tens razão. E porque na segunda noite disseste seres da terra do joga a toalha?
- Porque vossa majestade, quando pedi para ir ao baile, me jogou a toalha.
Ah! É verdade. E na terceira noite tu erra da terra leva um tapa.
Pois sim! Vossa majestade, quando lhe pedi para ir ao baile, me deu um tapa,
brincando.
Em seguida, o rei apresentou a noiva aos cortesãos e convidados, marcou-se o dia das
bodas. À hora do banquete, a nova rainha, como era costume, contou uma história. A
história dela, a sua infância escondida, a caçada real, a madrinha boa fada. O barba de
ouro era falecido, e a rainha mãe dela. Os pais adotivos vieram morar no palácio. Parece
que ainda existem, arcadinhos, arcadinhos, mas contentes da vida!
* * *
Contou Luís Maria Ferreira, que lhe contou uma tia de seu pai lá por 1880, na Ilha da
Madeira. Variante da conhecida Pele de burro com a Maria Borralheira, mais a
interposição de um elemento novo, o barba de ouro, para explicar o motivo da
transmutação, deixadas em paz as pobres madastras.
Boca calada salva a vida
Havia um velho pai que não cansava de dizer aos filhos: - "Boca calada! Boca calada
salva a vida!". Um dos filhos guardou bem o conselho e saiu pelo mundo.
Uma vez ele entrou numa casa, onde viu uma mulher enterrada no chão até a cintura.
Ficou com muita vontade de falar, de perguntar porque era aquele castigo. Mas quando ia
abrir a boca, lembrava-se do conselho.
O homem da casa, então, começou a provocar o mocinho:
- Pergunte porque ela está enterrada? Vamos fale!
Acontece que esse homem mau matava quem perguntasse. O menino não dizia nada. Por fim, o
homem ficou vencido. Ele se ajoelhou perante a mulher, lhe pediu perdão e a desenterrou,
dizendo que esse menino era um justo.
* * *
Contou Maria Lima Rodrigues, de Itapetininga. Esta "estória" pertence à
categoria das histórias de exemplo, moralizantes. Parece ser o resumo de outra mais
comprida, que ouvimos em Sorocaba, e de que damos os pontos principais. Título: Pensar
três vezes antes de falar qualquer coisa. Enredo: soldado que vai servir o rei. Um ano
depois, em vez de soldo, recebe um bolo, para abrir só quando estiver com a família e
aquele conselho. De volta, pede pousada numa casa, cujo dono lhe mostra a esposa enterrada
até a cintura, mas ele nada pergunta, e, por isso, leva-o até uma sala cheia de armas,
dando-lhe a melhor carabina. Explica-lhe: todos os que perguntaram matou-os
confiscando-lhes as armas. A mulher estava sofrendo aquele castigo por ser linguaruda.
Chegando em casa, o soldado abriu o bolo, e tilintaram muitas moedas de ouro que o rei ali
fizera esconder. Era, de fato, um soldado obediente, mesmo depois de dar baixa... E
merecia o pago.
A mulher curiosa e o galo
Era uma vez um homem que entendia a linguagem dos bichos. Passeava com a mulher pelo
campo. Quando ouviu dois cavalos conversarem, e deu uma bruta risada.
A mulher perguntou-lhe porque se ria. O homem respondeu:
- Por causa da conversa dos dois cavalos.
Então, ela começou a instar com o marido para lhe referir a dita conversa.
Eu bem podia contar a você o que os cavalos conversaram, mas na mesma hora que
acabar de contar, morrerei.
Mas eu quero saber! retrucou a mulher curiosa.
Então você quer que eu morra?
- Não sei nada disso! Tem de me contar a conversa dos cavalos!
A discussão durou muitos dias. O pobre homem ficou meio zonzo. Viu que não convencia a
mulher e entregou-se.
- Olha, mulher sem coração! falou ele eu vou contar a você a conversa dos
cavalos, mas melhor aprontar tudo para o enterro! (Dizia isto pensando que a mulher se
arrependesse a última hora).
Mandou comprar o caixão, e as velas e assentou-se na rede muito triste.
O galo subiu no caixão, bateu as asas e cantou.
A cachorrinha, que estava num canto, pensativa, falou ao galo:
- Galo, coração de pedra! Você tem coragem de cantar na despedida de nosso dono?
- Canto e mais que canto. Ele vai morrer, porque é um moleirão e se entregou à mulher.
Porque ele não faz como eu, que no terreiro tomo conta de vinte galinhas?
O homem ouvindo isso, criou coragem, de repente. Mandou o empregado trocar o caixão e as
velas por um chicote.
E depois pegou o chicote e perguntou a mulher:
- Você ainda quer saber a conversa dos cavalos?
- Quero, como não?
- Pois foi assim.
E lepte, lepte, lepte, nas costas da mulher, que dava cada grito!
Parou um pouco.
E... você ainda quer saber?
- Quero sim!
Continuou a tunda com todas as regras, até que a curiosa ajoelhou e pôs as mãos,
murmurando entre soluços.
Pelo amor de Deus! Chega! Maridinho do meu coração, não quero mais saber da
conversa dos cavalos. Nunca mais!
Esta história contou-a em Sorocaba dona Guilhermina Borges. É de encantamento e exemplo
ao mesmo tempo.
Agora abrindo as primeiras páginas das "Mil e uma noites", vemos que o vizir,
pai de Sherazade, ao tentar dissuadi-la das núpcias mortais com o sultão, conta-lhe a
história do burro e do boi, cuja conversa um homem ouviu e não quis referir à esposa.
Esta resolve fazer greve de fome. O marido convoca os parentes da mulher e nada consegue.
Ela quer mesmo saber o que o burro disse ao boi. Quando o homem vai desatar a língua, o
cachorro se dirige ao galo censurando-o por ele continuar a viver com as galinhas, como
antes. O galo retruca que pode dar conta de cinqüenta, e o homem se deixa dominar por
uma. Este pega o chicote e... conta tudo tudo a mulher, que em prantos promete recomeçar
a comer e ser boazinha. Os parentes dão os parabéns ao esposo e retiram-se.
A pequena diferença do caixão e velas é um colorido local...
E o galo cantando no caixão é para modificar o realismo um tanto chocante do conto
oriental.
É evidente que o nosso conto foi tirado das Mil e uma noites, em época que nunca
saberemos dizer, pois o que hoje se conta de boca em boca pode ser composição recente,
antiga, antiqüíssima. Pode vir dos mouros da península...
A influência das Mil e uma noites é geral em todos os contos de encantamento. Por
exemplo, no segundo deste artigo, onde aparece a mulher enterrada até a cintura é, não
obstante, vivendo. Ora, logo nas primeiras noites daquele livro imortal, aparece o
príncipe, rei das Quatro Ilhas, transformando em mármore, da cintura para baixo.
No primeiro conto vê-se, além do encantamento, a influência oriental nos três enigmas
de nomes.
Cabe aqui uma reflexão de ordem geral. Os contos de encantamento não são incoerentes. O
autor recorre ao milagre ou à magia, mas observa certos limites. Na revista Eu sei
tudo, lemos a tradução de um conto de autor inglês ou americano, baseando-se nas Mil
e uma noites, naquele primeiro trecho em que um pescador pesca um vaso com o selo de
Salomão, e do qual sai um gênio. O escritor moderno tira grandes e alegres efeitos do
motivo principal, obtendo, por exemplo, que o doutor vá tirar a pressão de um doente e
ouça no fone um rádio... Logo adiante, o pescador pede ao gênio que transforme os três
empregados do hospício ainda no carro de doidos, em três elefantezinhos cor-de-rosa. A
cor de rosa atrapalhou o escritor que num lance feliz, nos mostra os três animais
entrando a portaria do hospício e termina esse episódio passando para outro, com uma
frase inesperada: "Bem, aí a incoerência
foi demais".
O povo que conta essas estórias não as inventa. Foi um do povo, um
"intelectual", com licença da palavra, que as inventou de acordo com as
tendências do povo, e o povo vai transmiti-las de geração em geração.
(Almeida, Aluísio de. "Três contos populares". O Estado de São Paulo, 4 de setembro de
1949)
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