Ano V - novembro  2002 - nº 51

Sua revista com a cara e a alma brasileiras


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SUMÁRIO - EDIÇÃO 51
FESTANÇA
CANCIONEIRO
IMAGINÁRIO

A origem do termo bernúncia, figura fantástica presente no boi-de-mamão, por Orlando Ferreira de Melo

O boitatá, por Osvaldo Orico.

Três contos populares: O barba de ouro e a carantonha, Boca calada salva a vida e A mulher curiosa e o galo, por Aluísio de Almeida.

OFICINA
PALHOÇA
COLHER DE PAU
PANACÉIA
CATAVENTO
ALMANAQUE
REALEJO
COLABORAÇÕES

 

IMAGINÁRIO - Nesta seção, textos sobre lendas e mitos; contos; personagens; fábulas; narrativas populares; seres fantásticos...

BOITATÁ

Osvaldo Orico


Acreditavam os tupis num gênio que protegia os campos contra aqueles que os incendiavam. E conservaram a crença, dando-lhe a forma de serpente ígnea que, de ordinário, residia na água. Às vezes transformava-se em grosso madeiro de brasa, denominado méuan, que fazia morrer comburido aquele que inutilmente incendiasse os campos. Boitatá, do guarani mboi (cobra) e tatá (fogo) sofre entre nós diversas alterações tanto no sentido como na forma. Em seu livro — A tradição e as lendas — aponta Joaquim Ribeiro as seguintes:

mbaetatá (que julga ser a forma primitiva);
mboitatá (influxo de mboi, cobra);
boitatá (influxo de mboi, cobra);
boitatá (influxo de boi, palavra portuguesa);
mboyatatá (influxo africano);
bitatá, batatão, etc., corruptelas da palavra.

A forma mbaetatá (mbae, coisa) é dada como a mais remota, por nos ter sido apresentada pelo padre Anchieta "Sunt et alii in litoribus maxime; secua mare et flumina versantes, qui Baetata, hoc est res ignisapelantur. etc.". A forma boitatá é a resultante da influência exercida pela palavra homonímica da língua portuguesa. Em muitos pontos do país o guarani cedeu lugar a ela. Crispim Mira, em capítulo de Terra catarinense, oferece este testemunho: "É grande como um touro, com patas como as dos gigantes e com enorme olho bem no meio da testa, a brilhar que nem um tição de fogo".

Cornélio Pires [1] consigna em São Paulo o termo bitatatá; Basílio de Magalhães [2] declara ter ouvido a roceiros de Minas a pronúncia batatal; e Gustavo Barroso [3] aponta ao norte e a nordeste o batatão. Como se vê, o mito está espalhado pelas diferentes regiões do país. No Rio Grande do Sul, porém, adquiriu feição mais vigorosa e belo colorido regional. Dele se conhecem três versões: A primeira nos mostra boitatá com os olhos de chamas ferventes. Nas trevas distingüe tudo; porém na luz nada vê. Quando as águas tomaram a campanha, alagando caminhos, várzeas e coxilhas, ela foi para o lugar mais alto que encontrou. Tanto trabalhou, tanto furou, que afinal conseguiu fazer um buraco muito fundo e muito escuro. Recolheu-se aí, ocultou-se de todos e esperou que as águas do céu baixassem. Nesse asilo viveu sem ver a luz do sol por muitos anos. A necessidade de distinguir na treva obrigou-a, porém, a arregalar os olhos. E ela os arregalou tanto, tanto, que eles começaram a brilhar como duas tochas acesas. São os olhos de boitatá, assim transformados, que o gaúcho depara à noite, quando vai a viajar pelos campos. [4]


A segunda versão, corrente entre a gauchada das estâncias, é que, nos passeios e viagens à noite, aparece um fogo volante, às vezes em forma de cobra, outras vezes em forma de pássaro, voando na frente do cavaleiro e impedindo-lhe a marcha. É porém crença entre a gente do campo que boitatá se deixa atrair pelo ferro. E, então, o meio para a gente ver-se livre do ataque dela consiste em desatar o laço dos tentos e arrastá-lo pela presilha, previamente segura esta à argola da cintura. Nessas condições, boitatá, atraída pelo ferro da argola do laço, deixa logo de embaraçar a marcha do caminheiro e segue-o atrás na altura do extremo do laço, até amanhecer o dia, quando o abandona, deixando-o ir em paz. [5]

A terceira versão, usada por Olavo Bilac em sua encantadora conferência sobre algumas lendas brasileiras, nos é transmitida por J. Simões Lopes Neto da seguinte maneira: Foi assim: houve uma noite tão comprida que pareceu nunca mais se veria a luz do sol; noite escura como breu, sem lume no céu, sem vento, sem serenada e sem rumores, sem cheiro dos pastos maduros nem das flores das matarias; os olhos andavam tão enfarados da noite, que ficavam parados horas e horas, olhando, sem ver, as brasas vermelhas do nhanduvai... as brasas somente, porque as faíscas, que alegram, não saltavam por falta do sopro forte de bocas contentes. Por tudo só se via a noite, sempre a noite. Não. No meio do escuro uma cantiga forte de bicho vivente furava o ar: era o téu-téu ativo, que não dormia desde o entrar do último sol, e que vigiava sempre, esperando a volta do sol novo. Fora disso, tudo mais era silêncio e inércia. Não. Na última tarde em que houve sol, nessa última tarde, desabou uma chuvarada tremenda, que levou um tempão a cair. Inundou campos, as lagoas subiram e inflaram em fitas coleantes pelos tucuruzais e banhados; todo aquele peso d’água correu para as sangas e das sangas para os arroios, que ficaram bufando, campo fora, afogando as canhadas, batendo no lombo das coxilhas. E como a água encheu todas as tocas, entrou também na da cobra grande — boi-guaçu — que, havia já muitas mãos de lua, dormia quieta. A bicha acordou, saiu rabiando a comer as carniças; mas só comia os olhos, nada mais. Cada bicho guarda no corpo o sumo do que comeu; assim como a tambeira, que só come trevo maduro, dá no leite o cheiro doce do milho verde; o cerdo, que come carne de bagual, não fica limpo nem com vinte alqueires de mandioca; e o socó tristonho e o biguá matreiro até no sangue têm cheiro do pescado, assim também a boi-guaçu foi ficando transparente, clareada pelas mil luzes dos olhos devorados. E, afinal, transformou-se numa luzerna, clarão sem chamas, fogaréu azulado, desprendido dos olhos que ainda estavam vivos nela. Foi assim e foi por isso que os homens, quando viram a boi-guaçu tão demudada, não a conheceram mais. Não a conheceram, e, julgando que era outra, chamaram-na, desde então, de boitatá, cobra de fogo. Passado um tempo, a boitatá morreu, morreu de pura fraqueza, porque os olhos comidos encheram-lhe o corpo, mas não lhe deram sustância para a vida. Depois de rebolar-se rabioso nos montes de carniça, sobre os couros pelados, sobre as cabelamas soltas, sobre as ossamentas esparramadas, seu corpo fragmentou-se também como coisa da terra. E foi então que a luz, que estava presa, se desatou pelo ar. Tudo o que morre no mundo se junta à semente de onde nasceu, para surgir de novo; só a luz de boitatá ficou sozinha, nunca mais se juntou com a outra luz de que saiu. Anda sempre arisca e só, nos lugares onde quanto mais carniça houve, mais se infesta. É um fogo amarelo e azulado, que não queima a macega seca nem agüenta a água dos mananciais; e rola, gira, corre, corcoveia e se despenca e arrebenta-se, apagado..., e quando menos se espera, aparece outra vez, do mesmo jeito. A gente da campanha tem uma superstição respeitável com a boitatá. Acredita que, ao vê-la, pode ficar cega. E imagina que só há dois meios de livrar-se dela: ou ficar parado, muito, de olhos fechados, sem respirar, ou, se está a cavalo, desenrodilhar o laço, fazer uma armada grande, atirar-lhe em cima e tocar a galope, trazendo o laço de arrasto, todo solto, até a ilhapa. A boitatá vem acompanhando o ferro da argola... mas, de repente, esbarrando na macega, desmancha-se toda e vai esfarinhando a luz, para emulitar-se de novo na aragem que ajuda. [6]

Entrando na análise dessa lenda, a ciência, que não gosta de contato com a ilusão, explica a chama lendária do gaúcho como sendo apenas o fogo-fátuo, produzido pela enorme quantidade de fósforo existente nas ossadas dos animais dispersos por todo o pampa.

São esses fogos fátuos desprendidos dos lugares pantanosos, das coxilhas onde há animais decompostos, nas estrumeiras, nos campos de folhagens apodrecidas, grandes geradores de lendas. Gustavo Barroso nos apresenta vários casos: a gente do País de Gales tem o seu Jack with a lantorn (Jack com uma lanterna) e atribui-lhe a intenção de espírito com o mau vezo de ensinar caminho errado aos que se perdem por lezírias e prados; em Sergipe, não se sabe por que motivo, há o Jan de la foice ou Jan de Dela fosse; o budismo nipônico admite entre os seus gakis, o Shinen-Gakt, que aparece de noite, sob a forma de fogo errante. E justifica historicamente o caso remontando aos celtas, que tinham o "fogo dos druídas" e à antiguidade clássica, onde se vai encontrar o fogo de Helena, transformado em Santa Helena, e, por fim, em Sant’Elmo.[7]


Na região missioneira, conforme o depoimento de Juan B. Ambrosetti, adquiriu a boitatá uma função disciplinadora de castigo entre pessoas que se estimam e consideram. Ali "el respeto y protección de los compadres es mutua y nunca uno de elos permite que en su presencia se hable mal del otro sin defenderlo por todos los medíos, aun arriesgancio la vida. Para conservar los respetos que se deben entre compadre y comadre, y teniendo en cuenta la fragilidad humana, existe la previsora leyenda del Mboitatá (vibora de fuego) que se reduce a la siguiente: si los compadres, olvidando el sacramento sagrado que los une, no hicieran caso de él, faltando la comadre a sus deberes conyugales con su compadre, de noche se transformarán los dos culpables em Mboitatá, es decir, en grandes serpientes o pájaros que tienen en vez de cabeza una llama de fuego. Estos se pelearán toda la noche, echándose chispas y quemándose mutuamente hasta la madrugada, para volver a comenzar la noche siguiente y asi per secula seculorum, aun después de muertos." [8]

Quer Basílio de Magalhães que boitatá seja "mito de origem exclusivamente aborígine, que se conservou ileso da influência africana, sofrendo apenas uma transformação pelo elemento mestiço". Há, porém, uma coincidência tão sensível entre a nossa lenda e La légende de Bingo, colhida por Blaise Cendrars, e que figura às páginas 18-19, de sua Anthologie Nègre que um cotejo entre as duas imediatamente nos avisa do encontro em qualquer tempo, ou em qualquer parte, das tribos americanas e africanas, verificado que no original negro figura a palavra mboya, evidentemente guarani, e que é um dos elementos mórficos do nosso mito. Sem pretendermos decifrar o enigma, quer-nos parecer que a lenda de mboitatá não é exclusivamente aborígine nem se conservou ilesa da influência africana: 1º) porque há nas legendas cosmogônicas dos fans da África a imagem de mboya, representando na floresta uma chama errante à procura de Bingo, o filho a quem Nzamé atirara ao precipício; 2º) porque existe no Maranhão, onde parece se haver localizado, um mito mais aproximado do da tribo dos fans do que de boitatá. É o que se conhece ali pelo nome de kuracanga [9] e que Silva Campos transmitiu ao ilustre folclorista mineiro neste resumo:

"Quando uma mulher tem sete filhas, a última vira kuracanga, isto é, a cabeça lhe sai do corpo, à noite, e, em forma de bola de fogo, gira à toa pelos campos, apavorando a quem encontrar nessa estranha vagabundeação. Há, porém, meio infalível de sustar-se esse horrível fadário: é tomar a mãe a filha mais velha para madrinha da ultimogênita".

No Pará, sob o nome de Cumacanga, há coisa parecida. Estas versões autorizam-nos a meditar no possível cruzamento do mito fan com o nosso. Compulsando o Glossário de afronegrismos, de Fernando Ortiz, encontra-se à p.282 o seguinte esclarecimento, que já de algum modo nos orienta na pesquisa:

"Mabuya f — Divinidad de los indoantilhanos. Los conquistadores la identificaban com el diabo o espiritu del mal. Mboia es serpiente en varias linguages indianas de Suramérica. En Cuba se mantiene la influencia de tal raiz en Mabuya, lagartija noturna. Babuyal, Buije, etc. Quiere Wiener que el Mabuya americano sea originado por el vocabo hori, de los pueblos negros del Africa Septentrional (ob. cit., v.3I, p.223) pero no logra demonstrar su tesis, apesar de la aproximación semantica de ambos vocablos".

Notas
[1]. Conversa ao pé do fogo.

[2]. O folclore no Brasil.

[3]. O sertão e o mundo, p.8
"No Ceará, em Pernambuco, na Paraíba, no Maranhão, nada se conta de sua origem; porém geralmente se acredita que o batatão ensina o caminho errado a quem o seguir, persegue os que correrem com medo dele e leva o indivíduo até uma sepultura próxima, se o acompanhar. A primeira crendice é comum a quase todos os povos. A segunda vem do fato da deslocação do ar, produzida pela carreira do medroso, atrair o fogo errante. E a terceira promana da própria verdade do fato; esse fogo nasce das putrefações, sendo natural que apareça perto dos charcos e das sepulturas".

[4]. V. Sílvio Júlio — O pampa, p.273.

[5]. V. Cezimbra Jaques. Assuntos do Rio Grande do Sul, e Roque Callage, Vocabulário gaúcho, p.24-25.

[6]. Resumido de J. Simões Lopes Neto, Contos gauchescos e lendas do sul, p.211.

[7]. V. Gustavo Barroso — O sertão e o mundo, p.40.

[8]. V. Supersticiones y leyendas, p.82.

[9]. Enviando-me a tradução da palavra: xuracanga — o que detém e torce a cabeça — dá o doutor J. Barbosa Rodrigues Júnior a explicação do fato. É que sempre ou quase sempre, nas grandes proles, o caçula é mais ou menos degenerado, imbecilizado, abobalhado, não só pelo cansaço paterno-materno da procriação, como também pelos mimos adquiridos.


(Orico, Osvaldo. Mitos ameríndios e crendices amazônicas. Rio de Janeiro, Civilização / Brasília, INL, 1975. Retratos do Brasil, 93, p.79-86)

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