Acreditavam os tupis num gênio que protegia os campos contra aqueles que os incendiavam.
E conservaram a crença, dando-lhe a forma de serpente ígnea que, de ordinário, residia
na água. Às vezes transformava-se em grosso madeiro de brasa, denominado méuan, que
fazia morrer comburido aquele que inutilmente incendiasse os campos. Boitatá, do
guarani mboi (cobra) e tatá (fogo) sofre entre nós diversas alterações
tanto no sentido como na forma. Em seu livro A tradição e as lendas
aponta Joaquim Ribeiro as seguintes:
mbaetatá (que julga ser a forma primitiva);
mboitatá (influxo de mboi, cobra);
boitatá (influxo de mboi, cobra);
boitatá (influxo de boi, palavra portuguesa);
mboyatatá (influxo africano);
bitatá, batatão, etc., corruptelas da palavra.
A forma mbaetatá (mbae, coisa) é dada como a mais remota, por nos ter sido
apresentada pelo padre Anchieta "Sunt et alii in litoribus maxime; secua mare et
flumina versantes, qui Baetata, hoc est res ignisapelantur. etc.". A forma boitatá
é a resultante da influência exercida pela palavra homonímica da língua
portuguesa. Em muitos pontos do país o guarani cedeu lugar a ela. Crispim Mira, em
capítulo de Terra catarinense, oferece este testemunho: "É grande como um
touro, com patas como as dos gigantes e com enorme olho bem no meio da testa, a brilhar
que nem um tição de fogo".
Cornélio Pires [1] consigna em São Paulo o termo bitatatá;
Basílio de Magalhães [2] declara ter ouvido a roceiros
de Minas a pronúncia batatal; e Gustavo Barroso [3]
aponta ao norte e a nordeste o batatão. Como se vê, o mito está espalhado pelas
diferentes regiões do país. No Rio Grande do Sul, porém, adquiriu feição mais
vigorosa e belo colorido regional. Dele se conhecem três versões: A primeira nos mostra
boitatá com os olhos de chamas ferventes. Nas trevas distingüe tudo; porém na luz nada
vê. Quando as águas tomaram a campanha, alagando caminhos, várzeas e coxilhas, ela foi
para o lugar mais alto que encontrou. Tanto trabalhou, tanto furou, que afinal conseguiu
fazer um buraco muito fundo e muito escuro. Recolheu-se aí, ocultou-se de todos e esperou
que as águas do céu baixassem. Nesse asilo viveu sem ver a luz do sol por muitos anos. A
necessidade de distinguir na treva obrigou-a, porém, a arregalar os olhos. E ela os
arregalou tanto, tanto, que eles começaram a brilhar como duas tochas acesas. São os
olhos de boitatá, assim transformados, que o gaúcho depara à noite, quando vai a
viajar pelos campos. [4]
A segunda versão, corrente entre a gauchada das
estâncias, é que, nos passeios e viagens à noite, aparece um fogo volante, às vezes em
forma de cobra, outras vezes em forma de pássaro, voando na frente do cavaleiro e
impedindo-lhe a marcha. É porém crença entre a gente do campo que boitatá se
deixa atrair pelo ferro. E, então, o meio para a gente ver-se livre do ataque dela
consiste em desatar o laço dos tentos e arrastá-lo pela presilha, previamente segura
esta à argola da cintura. Nessas condições, boitatá, atraída pelo ferro da
argola do laço, deixa logo de embaraçar a marcha do caminheiro e segue-o atrás na
altura do extremo do laço, até amanhecer o dia, quando o abandona, deixando-o ir em paz.
[5]
A terceira versão, usada por Olavo Bilac em sua
encantadora conferência sobre algumas lendas brasileiras, nos é transmitida por J.
Simões Lopes Neto da seguinte maneira: Foi assim: houve uma noite tão comprida que
pareceu nunca mais se veria a luz do sol; noite escura como breu, sem lume no céu, sem
vento, sem serenada e sem rumores, sem cheiro dos pastos maduros nem das flores das
matarias; os olhos andavam tão enfarados da noite, que ficavam parados horas e horas,
olhando, sem ver, as brasas vermelhas do nhanduvai... as brasas somente, porque as
faíscas, que alegram, não saltavam por falta do sopro forte de bocas contentes. Por tudo
só se via a noite, sempre a noite. Não. No meio do escuro uma cantiga forte de bicho
vivente furava o ar: era o téu-téu ativo, que não dormia desde o entrar do
último sol, e que vigiava sempre, esperando a volta do sol novo. Fora disso, tudo mais
era silêncio e inércia. Não. Na última tarde em que houve sol, nessa última tarde,
desabou uma chuvarada tremenda, que levou um tempão a cair. Inundou campos, as lagoas
subiram e inflaram em fitas coleantes pelos tucuruzais e banhados; todo aquele peso
dágua correu para as sangas e das sangas para os arroios, que ficaram bufando,
campo fora, afogando as canhadas, batendo no lombo das coxilhas. E como a água encheu
todas as tocas, entrou também na da cobra grande boi-guaçu que,
havia já muitas mãos de lua, dormia quieta. A bicha acordou, saiu rabiando a comer as
carniças; mas só comia os olhos, nada mais. Cada bicho guarda no corpo o sumo do que
comeu; assim como a tambeira, que só come trevo maduro, dá no leite o cheiro doce do
milho verde; o cerdo, que come carne de bagual, não fica limpo nem com vinte alqueires de
mandioca; e o socó tristonho e o biguá matreiro até no sangue têm cheiro do pescado,
assim também a boi-guaçu foi ficando transparente, clareada pelas mil luzes dos
olhos devorados. E, afinal, transformou-se numa luzerna, clarão sem chamas, fogaréu
azulado, desprendido dos olhos que ainda estavam vivos nela. Foi assim e foi por isso que
os homens, quando viram a boi-guaçu tão demudada, não a conheceram mais. Não a
conheceram, e, julgando que era outra, chamaram-na, desde então, de boitatá, cobra
de fogo. Passado um tempo, a boitatá morreu, morreu de pura fraqueza, porque os
olhos comidos encheram-lhe o corpo, mas não lhe deram sustância para a vida. Depois de
rebolar-se rabioso nos montes de carniça, sobre os couros pelados, sobre as cabelamas
soltas, sobre as ossamentas esparramadas, seu corpo fragmentou-se também como coisa da
terra. E foi então que a luz, que estava presa, se desatou pelo ar. Tudo o que morre no
mundo se junta à semente de onde nasceu, para surgir de novo; só a luz de boitatá ficou
sozinha, nunca mais se juntou com a outra luz de que saiu. Anda sempre arisca e só, nos
lugares onde quanto mais carniça houve, mais se infesta. É um fogo amarelo e azulado,
que não queima a macega seca nem agüenta a água dos mananciais; e rola, gira, corre,
corcoveia e se despenca e arrebenta-se, apagado..., e quando menos se espera, aparece
outra vez, do mesmo jeito. A gente da campanha tem uma superstição respeitável com a boitatá.
Acredita que, ao vê-la, pode ficar cega. E imagina que só há dois meios de
livrar-se dela: ou ficar parado, muito, de olhos fechados, sem respirar, ou, se está a
cavalo, desenrodilhar o laço, fazer uma armada grande, atirar-lhe em cima e tocar a
galope, trazendo o laço de arrasto, todo solto, até a ilhapa. A boitatá vem
acompanhando o ferro da argola... mas, de repente, esbarrando na macega, desmancha-se toda
e vai esfarinhando a luz, para emulitar-se de novo na aragem que ajuda. [6]
Entrando na análise dessa lenda, a ciência, que não gosta de contato com a ilusão,
explica a chama lendária do gaúcho como sendo apenas o fogo-fátuo, produzido pela
enorme quantidade de fósforo existente nas ossadas dos animais dispersos por todo o
pampa.
São esses fogos fátuos desprendidos dos lugares pantanosos, das coxilhas onde há
animais decompostos, nas estrumeiras, nos campos de folhagens apodrecidas, grandes
geradores de lendas. Gustavo Barroso nos apresenta vários casos: a gente do País de
Gales tem o seu Jack with a lantorn (Jack com uma lanterna) e atribui-lhe a
intenção de espírito com o mau vezo de ensinar caminho errado aos que se perdem por
lezírias e prados; em Sergipe, não se sabe por que motivo, há o Jan de la foice ou
Jan de Dela fosse; o budismo nipônico admite entre os seus gakis, o Shinen-Gakt,
que aparece de noite, sob a forma de fogo errante. E justifica historicamente o caso
remontando aos celtas, que tinham o "fogo dos druídas" e à antiguidade
clássica, onde se vai encontrar o fogo de Helena, transformado em Santa Helena, e, por
fim, em SantElmo.[7]
Na região missioneira, conforme o depoimento de Juan
B. Ambrosetti, adquiriu a boitatá uma função disciplinadora de castigo entre
pessoas que se estimam e consideram. Ali "el respeto y protección de los
compadres es mutua y nunca uno de elos permite que en su presencia se hable mal del otro
sin defenderlo por todos los medíos, aun arriesgancio la vida. Para conservar los
respetos que se deben entre compadre y comadre, y teniendo en cuenta la fragilidad humana,
existe la previsora leyenda del Mboitatá (vibora de fuego) que se reduce a la
siguiente: si los compadres, olvidando el sacramento sagrado que los une, no hicieran caso
de él, faltando la comadre a sus deberes conyugales con su compadre, de noche se
transformarán los dos culpables em Mboitatá, es decir, en grandes serpientes o
pájaros que tienen en vez de cabeza una llama de fuego. Estos se pelearán toda la noche,
echándose chispas y quemándose mutuamente hasta la madrugada, para volver a comenzar la
noche siguiente y asi per secula seculorum, aun después de muertos." [8]Quer Basílio de
Magalhães que boitatá seja "mito de origem exclusivamente aborígine, que se
conservou ileso da influência africana, sofrendo apenas uma transformação pelo elemento
mestiço". Há, porém, uma coincidência tão sensível entre a nossa lenda e La
légende de Bingo, colhida por Blaise Cendrars, e que figura às páginas 18-19, de
sua Anthologie Nègre que um cotejo entre as duas imediatamente nos avisa do
encontro em qualquer tempo, ou em qualquer parte, das tribos americanas e africanas,
verificado que no original negro figura a palavra mboya, evidentemente guarani, e
que é um dos elementos mórficos do nosso mito. Sem pretendermos decifrar o enigma,
quer-nos parecer que a lenda de mboitatá não é exclusivamente aborígine nem se
conservou ilesa da influência africana: 1º) porque há nas legendas cosmogônicas dos
fans da África a imagem de mboya, representando na floresta uma chama errante à
procura de Bingo, o filho a quem Nzamé atirara ao precipício; 2º) porque existe no
Maranhão, onde parece se haver localizado, um mito mais aproximado do da tribo dos fans
do que de boitatá. É o que se conhece ali pelo nome de kuracanga [9] e que Silva Campos transmitiu ao ilustre folclorista mineiro
neste resumo:
"Quando uma mulher tem sete filhas, a última vira kuracanga, isto é, a cabeça lhe
sai do corpo, à noite, e, em forma de bola de fogo, gira à toa pelos campos, apavorando
a quem encontrar nessa estranha vagabundeação. Há, porém, meio infalível de sustar-se
esse horrível fadário: é tomar a mãe a filha mais velha para madrinha da
ultimogênita".
No Pará, sob o nome de Cumacanga, há coisa parecida. Estas versões autorizam-nos
a meditar no possível cruzamento do mito fan com o nosso. Compulsando o Glossário de
afronegrismos, de Fernando Ortiz, encontra-se à p.282 o seguinte esclarecimento, que
já de algum modo nos orienta na pesquisa:
"Mabuya f Divinidad de los indoantilhanos. Los conquistadores la
identificaban com el diabo o espiritu del mal. Mboia es serpiente en varias
linguages indianas de Suramérica. En Cuba se mantiene la influencia de tal raiz en Mabuya,
lagartija noturna. Babuyal, Buije, etc. Quiere Wiener que el Mabuya americano
sea originado por el vocabo hori, de los pueblos negros del Africa Septentrional
(ob. cit., v.3I, p.223) pero no logra demonstrar su tesis, apesar de la aproximación
semantica de ambos vocablos".
Notas
[1]. Conversa ao pé
do fogo.
[2]. O folclore no
Brasil.
[3]. O sertão e o mundo,
p.8
"No Ceará, em Pernambuco, na Paraíba, no Maranhão, nada se conta de sua origem;
porém geralmente se acredita que o batatão ensina o caminho errado a quem o seguir,
persegue os que correrem com medo dele e leva o indivíduo até uma sepultura próxima, se
o acompanhar. A primeira crendice é comum a quase todos os povos. A segunda vem do fato
da deslocação do ar, produzida pela carreira do medroso, atrair o fogo errante. E a
terceira promana da própria verdade do fato; esse fogo nasce das putrefações, sendo
natural que apareça perto dos charcos e das sepulturas".
[4]. V. Sílvio Júlio
O pampa, p.273.
[5]. V. Cezimbra Jaques. Assuntos
do Rio Grande do Sul, e Roque Callage, Vocabulário gaúcho, p.24-25.
[6]. Resumido de J. Simões
Lopes Neto, Contos gauchescos e lendas do sul, p.211.
[7]. V. Gustavo Barroso
O sertão e o mundo, p.40.
[8]. V. Supersticiones y
leyendas, p.82.
[9]. Enviando-me a
tradução da palavra: xuracanga o que detém e torce a cabeça dá o doutor
J. Barbosa Rodrigues Júnior a explicação do fato. É que sempre ou quase sempre, nas
grandes proles, o caçula é mais ou menos degenerado, imbecilizado, abobalhado, não só
pelo cansaço paterno-materno da procriação, como também pelos mimos adquiridos.
(Orico, Osvaldo. Mitos ameríndios e crendices amazônicas. Rio
de Janeiro, Civilização / Brasília, INL, 1975. Retratos do Brasil, 93, p.79-86)
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