
A origem do termo bernúncia,
figura fantástica presente no boi-de-mamão, por Orlando Ferreira de Melo
O boitatá, por Osvaldo Orico.
Três contos populares: O barba de ouro e a carantonha, Boca
calada salva a vida e A mulher curiosa e o galo, por Aluísio de Almeida.
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| IMAGINÁRIO
- Nesta seção, textos sobre lendas e mitos; contos; personagens; fábulas;
narrativas populares; seres fantásticos... |
Intrigava-se o assunto. Havia desenhado a "bernúncia", estudando suas
características pictórias essenciais, ouvido os relatos que a gente simples do nosso
litoral fizera sobre o estranho "animal" mas, como tantos outros interessados,
não atinara ainda com a origem do vocábulo. E quando naquela noite, já em Blumenau,
longe das "bernúncias", dos "bois-de-mamão" e dos "ternos de
reis" dirigia-me ao teatro Carlos Gomes para na, qualidade de secretário desta
sociedade, assistir a uma solenidade de caráter cívico-escolar, não poderia imaginar
que fosse ali encontrar o ponto de partida para uma resposta satisfatória ao problema
lingüístico. Terminada a sessão perambulava eu pelos corredores do majestoso Teatro
quando avisto a figura simpática de frei Odorico Durieux, que já exercera o cargo de
diretor do Colégio Santo Antônio, nesta cidade, e atual diretor do Ginásio
Arquiodeocesano de Lages. Terminado os cumprimentos fui direto ao assunto: recebera a
monografia sobre o "boi-de-mamão", achara-a excelente (obrigado pela pequena
parte que me toca as ilustrações) e tinha uma explicação para a origem do
vocábulo "bernúncia". Exultei. Mas frei Odorico tinha pressa e depois de
rápida explanação despediu-se deixando entretanto, a promessa de escrever enviando
dados mais preciosos. Ao cabo de alguns meses recebo a esperada carta. Não irei
comentá-la. Transcreve-la-ei na íntegra para gáudio dos entendidos na matéria e a frei
Odorico, mais uma vez meus melhores agradecimentos:
"Há quanto tempo que imprudentemente lhe prometi dar, por escrito,
minha suposição a respeito da origem da famosa "bernúncia". Penso que deve
provir de Abrenutio verbo que ocorre no cerimonial do batismo e que como tantos
outros (Dominus Vocabiscum Credo Ego cunjugo vos) foi cair no
glossário popular.
1) Não será falta de interesse reproduzir o tópico: Feito o exorcismo e dado o sal
simbólico da sabedoria ao batizando, é este introduzido no templo para a récita do
Creio em Deus Padre. A seguir, o sacerdote o ergue sobre a pureza de suas intenções ao
batizar-se e sobre seus conhecimentos da fé. Estabelece-se então o seguinte diálogo
entre o sacerdote e o padrinho que responde em vez do afilhado:
- Abrenuntias Sátane? Abrenuntio;
Et ômnibus opéribus ejus? Abrenuntio;
Et ômnibus pompis ejus? Abrenuntio;
Em vernáculo: Renuncias a Satanás Renuncio E a todas as suas obras?
Renuncio; - E todas as suas vaidades? - Renuncio;
Essas arguições, que hoje já se fazem também em português eram feitas em latim,
acarretando para os padrinhos a grande preocupação de sair-se bem do latinório.
2) O conteúdo das frases que requeriam como resposta o Abrenuntio, não era
conhecido. Daí ter ficado "abrenuntio" (pronuncia-se Abrenuncio) ligado
semanticamente a coisas misteriosas, das quais era preciso fugir "renunciar".
Abrenuncio foi, assim, formar ao lado de "tarrenego",
"tesconjuro" e quejandas expressões que todas intimidam ao
espírito do mal.
3) Freneticamente ouve essas acomodações: o "a" inicial, desamparado de
consoante, freqüentemente se perde ou - como no nosso caso se converte em artigo.
Casos análogos: (vestis) abbatina a batina; apotheca a
bodega: acumer a (posteriormente "O") gume, etc. Na segunda
sílaba "bre" deu-se a metatese que se observa nas palavras: semper
sempre; super sobre; preciso (popular) perciso, etc.
Uma vez convertido a palavra em substantivo, o artigo "a", comum aos femininos.
A forma bernúncia seria ainda suceptível da variante: bernuça.
Em resumo, seria esta a exposição do meu pensamento a respeito.
Com estima e consideração,
frei Odorico G. Durieux"
(transcrito do Boletim Trimestral da Comissão Catarinense de Folclore).
(Melo, Orlando Ferreira de. "A bernúncia". Em Correio
folclórico. São Paulo, 5 de novembro de 1950)
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