Ano V - novembro  2002 - nº 51

Sua revista com a cara e a alma brasileiras


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SUMÁRIO - EDIÇÃO 51
FESTANÇA
CANCIONEIRO
IMAGINÁRIO

A origem do termo bernúncia, figura fantástica presente no boi-de-mamão, por Orlando Ferreira de Melo

O boitatá, por Osvaldo Orico.

Três contos populares: O barba de ouro e a carantonha, Boca calada salva a vida e A mulher curiosa e o galo, por Aluísio de Almeida.

OFICINA
PALHOÇA
COLHER DE PAU
PANACÉIA
CATAVENTO
ALMANAQUE
REALEJO
COLABORAÇÕES

 

IMAGINÁRIO - Nesta seção, textos sobre lendas e mitos; contos; personagens; fábulas; narrativas populares; seres fantásticos...

A BERNÚNCIA

Orlando Ferreira de Melo


Intrigava-se o assunto. Havia desenhado a "bernúncia", estudando suas características pictórias essenciais, ouvido os relatos que a gente simples do nosso litoral fizera sobre o estranho "animal" mas, como tantos outros interessados, não atinara ainda com a origem do vocábulo. E quando naquela noite, já em Blumenau, longe das "bernúncias", dos "bois-de-mamão" e dos "ternos de reis" dirigia-me ao teatro Carlos Gomes para na, qualidade de secretário desta sociedade, assistir a uma solenidade de caráter cívico-escolar, não poderia imaginar que fosse ali encontrar o ponto de partida para uma resposta satisfatória ao problema lingüístico. Terminada a sessão perambulava eu pelos corredores do majestoso Teatro quando avisto a figura simpática de frei Odorico Durieux, que já exercera o cargo de diretor do Colégio Santo Antônio, nesta cidade, e atual diretor do Ginásio Arquiodeocesano de Lages. Terminado os cumprimentos fui direto ao assunto: recebera a monografia sobre o "boi-de-mamão", achara-a excelente (obrigado pela pequena parte que me toca – as ilustrações) e tinha uma explicação para a origem do vocábulo "bernúncia". Exultei. Mas frei Odorico tinha pressa e depois de rápida explanação despediu-se deixando entretanto, a promessa de escrever enviando dados mais preciosos. Ao cabo de alguns meses recebo a esperada carta. Não irei comentá-la. Transcreve-la-ei na íntegra para gáudio dos entendidos na matéria e a frei Odorico, mais uma vez meus melhores agradecimentos:

"Há quanto tempo que – imprudentemente – lhe prometi dar, por escrito, minha suposição a respeito da origem da famosa "bernúncia". Penso que deve provir de Abrenutio verbo que ocorre no cerimonial do batismo e que como tantos outros (Dominus Vocabiscum – Credo – Ego cunjugo vos) foi cair no glossário popular.

1) Não será falta de interesse reproduzir o tópico: Feito o exorcismo e dado o sal simbólico da sabedoria ao batizando, é este introduzido no templo para a récita do Creio em Deus Padre. A seguir, o sacerdote o ergue sobre a pureza de suas intenções ao batizar-se e sobre seus conhecimentos da fé. Estabelece-se então o seguinte diálogo entre o sacerdote e o padrinho que responde em vez do afilhado:

- Abrenuntias Sátane? – Abrenuntio;
Et ômnibus opéribus ejus? – Abrenuntio;
Et ômnibus pompis ejus? – Abrenuntio;


Em vernáculo: Renuncias a Satanás – Renuncio – E a todas as suas obras? – Renuncio; - E todas as suas vaidades? - Renuncio;

Essas arguições, que hoje já se fazem também em português eram feitas em latim, acarretando para os padrinhos a grande preocupação de sair-se bem do latinório.

2) O conteúdo das frases que requeriam como resposta o Abrenuntio, não era conhecido. Daí ter ficado "abrenuntio" (pronuncia-se Abrenuncio) ligado semanticamente a coisas misteriosas, das quais era preciso fugir "renunciar".

Abrenuncio foi, assim, formar ao lado de "t’arrenego", "t’esconjuro" e quejandas expressões que – todas – intimidam ao espírito do mal.

3) Freneticamente ouve essas acomodações: o "a" inicial, desamparado de consoante, freqüentemente se perde ou - como no nosso caso – se converte em artigo. Casos análogos: (vestis) abbatina – a batina; apotheca – a bodega: acumer – a (posteriormente "O") gume, etc. Na segunda sílaba "bre" deu-se a metatese que se observa nas palavras: semper – sempre; super – sobre; preciso – (popular) perciso, etc. Uma vez convertido a palavra em substantivo, o artigo "a", comum aos femininos. A forma bernúncia seria ainda suceptível da variante: bernuça.

Em resumo, seria esta a exposição do meu pensamento a respeito.

Com estima e consideração,

frei Odorico G. Durieux"

(transcrito do Boletim Trimestral da Comissão Catarinense de Folclore).


(Melo, Orlando Ferreira de. "A bernúncia". Em Correio folclórico. São Paulo, 5 de novembro de 1950)

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