Ano V - novembro  2002 - nº 51

Sua revista com a cara e a alma brasileiras


SUMÁRIO - EDIÇÃO 51
FESTANÇA
Os enterros à noite, por Pessoa de Morais.

As impressões dos viajantes Louis e Elizabeth Agassiz sobre as danças vistas no norte do Brasil em meados do século XIX.

O dia de finados, na região do Cairari, próximo ao rio Tambaí, no norte do Brasil.
CANCIONEIRO
IMAGINÁRIO
OFICINA
PALHOÇA
COLHER DE PAU
PANACÉIA
CATAVENTO
ALMANAQUE
REALEJO
COLABORAÇÕES

 

FESTANÇA - Nesta seção, textos sobre festas populares, religiosas e profanas; folguedos; danças; datas comemorativas; instrumentos musicais...


OS ENTERROS A NOITE

Pessoa de Morais
Tradição e transformação do Brasil, p.265-266


O enterro de adulto entre gente rica no Rio de Janeiro, além disso, com um curioso ritual que associava a idéia da dor mais dionisiacamente compungida ao espetáculo da grandiosidade pomposa ou do fastígio. Eram funerais que saíam justamente à noite, a própria escuridão como símbolo de tristeza ou de luto; um reposteiro preto colocado à porta da casa completando essa exteriorização simbólica. Até o carro mortuário, os cavalos ricamente ajaezados e os portadores de tocha, cobertos de preto. Os cocheiros tambem com dragonas negras sobre os ombros.

Tudo formava estranho contraste com o desfilar das tochas vermelhas ou amareladas de fogo a se deslocarem, pausadamente, no silêncio ou no ermo das ruas; a realçarem ainda mais a predominância quase absoluta da cor negra nesses funerais. Parecendo também, de longe, pontos luminosos a se moverem na sombra. O contorno meio indefinido das cabeças humanas, com as vestes na semi-obscuridade, uma espécie múltipla de misteriosa aparição. O pisar dos cavalos, o ruído das pesadas rodas das carruagens nas pedras ainda irregulares do calçamento, a vestimenta meio espalhafatosa do morto, denunciando nesses rituais noturnos a combinação, no Brasil, entre o solene, o cômico, o luxuoso e até o trágico.

No Recife os funerais de gente abastada eram feitos, no século passado, igualmente à noite; as carruagens acolchoadas dos ricos se deslocando através das ruas; os tropéis dos cavalos formando um eco noturno; a luz mortiça dos lampiões à gás criando a mesma atmosfera psicológica de sortilégio e de sombra.


(Em Condé, José. A cana-de-açúcar na vida brasileira; textos coligidos. Rio de Janeiro, Instituto do Açúcar e do Álcool, 1971/1972. Coleção canavieira, 7, p.267)

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