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| COLHER DE PAU - Nesta seção, textos
sobre receitas tradicionais; bebidas típicas; alimentos brasileiros; costumes à mesa;
horta, pomar e criação; crenças, costumes e tabus relacionados à alimentação e
alimentos... |
UM JANTAR EM MINAS GERAIS |
O dia terminou como todos os grandes dias terminam entre os britânicos de verdade: com um
grande jantar, oferecido por Mr. Whittaker, que ofereceu um jantar de verdade. O bom
vigário, rev. Francisco José Ferreira, que rezara a missa, devidamente, às 11 horas da
manhã, assentou-se à cabeceira; minha mulher ficou na extremidade oposta, e os lados
foram ocupados por dezessete brasileiros e oito estrangeiros. A comida era, como de
costume, galinha e carne, feijão, arroz, farinha e molho de pimenta, de fato
"mexiriboca"[1], com queijo, cerveja e vinho do Porto da adega
dos engenheiros. A única peculiaridade foi o sistema de brindes, segundo o velho costume
de Minas. Logo depois da sopa, cada um faz um pequeno discurso e canta, com o tom mais
anasalado possível, um pequeno trecho de canção sentimental, geralmente uma quadra e um
estribilho. Eis dois exemplos:
Aos amigos um brinde feito
Reina a alegria em nosso peito.
Grato licor, alegre, jucundo,
Que a tudo este mundo,
desafia o Amor!
A audiência repete a última palavra e, alegremente, a prolonga, com um melancólico
murmúrio: "Amo. .o..o.. r."
Como é grata a companhia,
Lisonjeira a sociedade,
Entre amigos verdadeiros,
Viva a constante amizade...
Amizade! (coro)
O Sr. Cipriano Rodrigues Chaves destacou-se, grandemente, tanto cantando[2] como discursando. Todas as espécies de "saúdes"
foram bebidas e tornadas a beber. No fim, propôs-se um brinde aos casados; os solteiros
protestaram, e seguiu-se uma luta geral, amistosa e furiosa; os centauros e lapitas vieram
fazer a paz. Tal ocasião
Toda a mesa,
Com gritos joviais tornou-se uma Babel.
Depois do jantar, levamos nossas cadeiras, e fomos tomar o café na porta da rua. A
temperatura não tarda a se tornar bem fria, nessas depressões da região montanhosa do
Brasil; nos fundos, forma-se uma fina camada de gelo e há lugares em que se congela,
durante a noite, a água colocada em um prato fundo. Voltamos para o rancho, onde Mr.
Copsy fez para nós um "crambambali"[3], um brulé
nativo, altamente aconselhável naquelas frígidas altitudes e
"experimentamos" alguns copos da bebida. As fogueiras da "vigília"
não foram acesas de novo, mas um grupo de dez homens passeou pelas ruas, e acabou nos
fazendo uma serenata. Só nos separamos muito tarde, e sentamo-nos até que "Sat
prata biberunt.
Passei muitos "alegres Natais" menos alegres na Alegre Inglaterra e não
esqueceremos logo aquele dia do meio do verão em Lagoa Dourada, no ano da graça de 1867.
Notas
[1]. Mexiriboca é uma
denominação burlesca de um prato equivalente ao "hodge-podge" inglês: carne,
arroz, feijão, farinha e outras coisas, tudo misturado e comido com colher.
[2]. Essas canções cantadas à mesa eram universais na Europa. Na antiga
Alemanha, quando se sentavam depois do jantar, os convivas tinham de recitar alguns
versos, sob pena de serem obrigados a beber um copo até a borda. Acredito que o costume
foi introduzido no Brasil pelos invasores holandeses, no século XVII. Não é seguido no
litoral, onde a regra é a "discurseira" portuguesa, mas ainda é conservado com
certas partes do interior. Que diria disso o sapiente autor da Arte de jantar?
[3]. Darei a receita fornecida pelo fabricante: Despeje em uma terrina uma
garrafa da melhor cachaça, acrescente-se uma quantidade suficiente de açúcar, queime-a.
Ponha, aos poucos, uma garrafa de vinho do Porto e, quando a chama enfraquecer, um pouco
de canela e umas talhadas de limão. Apague, e terá a maravilha dos
"crambambali".
(Burton, Richard. Viagem do Rio de Janeiro a Morro Velho.
Brasília, Senado Federal, 2001. O Brasil visto por estrangeiros, p.199-200
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