Ano V - novembro  2002 - nº 51

Sua revista com a cara e a alma brasileiras


SUMÁRIO - EDIÇÃO 51
FESTANÇA
CANCIONEIRO
IMAGINÁRIO
OFICINA
PALHOÇA
COLHER DE PAU

O viajante inglês Richard Burton descreve um jantar em Lagoa Dourada, MG, em 1867.

Receitas tradicionais de sorvetes, recolhidas por Gilberto Freire.

Cantiga para fazer paçoca, por Newton Navarro.

PANACÉIA
CATAVENTO
ALMANAQUE
REALEJO
COLABORAÇÕES

 

COLHER DE PAU - Nesta seção, textos sobre receitas tradicionais; bebidas típicas; alimentos brasileiros; costumes à mesa; horta, pomar e criação; crenças, costumes e tabus relacionados à alimentação e alimentos...


UM JANTAR EM MINAS GERAIS

Richard Burton


O dia terminou como todos os grandes dias terminam entre os britânicos de verdade: com um grande jantar, oferecido por Mr. Whittaker, que ofereceu um jantar de verdade. O bom vigário, rev. Francisco José Ferreira, que rezara a missa, devidamente, às 11 horas da manhã, assentou-se à cabeceira; minha mulher ficou na extremidade oposta, e os lados foram ocupados por dezessete brasileiros e oito estrangeiros. A comida era, como de costume, galinha e carne, feijão, arroz, farinha e molho de pimenta, de fato "mexiriboca"[1], com queijo, cerveja e vinho do Porto da adega dos engenheiros. A única peculiaridade foi o sistema de brindes, segundo o velho costume de Minas. Logo depois da sopa, cada um faz um pequeno discurso e canta, com o tom mais anasalado possível, um pequeno trecho de canção sentimental, geralmente uma quadra e um estribilho. Eis dois exemplos:

Aos amigos um brinde feito
Reina a alegria em nosso peito.
Grato licor, alegre, jucundo,
Que a tudo este mundo,
desafia o Amor!

A audiência repete a última palavra e, alegremente, a prolonga, com um melancólico murmúrio: "Amo. .o..o.. r."

Como é grata a companhia,
Lisonjeira a sociedade,
Entre amigos verdadeiros,
Viva a constante amizade...
Amizade! (coro)

O Sr. Cipriano Rodrigues Chaves destacou-se, grandemente, tanto cantando[2] como discursando. Todas as espécies de "saúdes" foram bebidas e tornadas a beber. No fim, propôs-se um brinde aos casados; os solteiros protestaram, e seguiu-se uma luta geral, amistosa e furiosa; os centauros e lapitas vieram fazer a paz. Tal ocasião

Toda a mesa,
Com gritos joviais tornou-se uma Babel.

Depois do jantar, levamos nossas cadeiras, e fomos tomar o café na porta da rua. A temperatura não tarda a se tornar bem fria, nessas depressões da região montanhosa do Brasil; nos fundos, forma-se uma fina camada de gelo e há lugares em que se congela, durante a noite, a água colocada em um prato fundo. Voltamos para o rancho, onde Mr. Copsy fez para nós um "crambambali"[3], um brulé nativo, altamente aconselhável naquelas frígidas altitudes e "experimentamos" alguns copos da bebida. As fogueiras da "vigília" não foram acesas de novo, mas um grupo de dez homens passeou pelas ruas, e acabou nos fazendo uma serenata. Só nos separamos muito tarde, e sentamo-nos até que "Sat prata biberunt’.

Passei muitos "alegres Natais" menos alegres na Alegre Inglaterra e não esqueceremos logo aquele dia do meio do verão em Lagoa Dourada, no ano da graça de 1867.


Notas

[1]
. Mexiriboca é uma denominação burlesca de um prato equivalente ao "hodge-podge" inglês: carne, arroz, feijão, farinha e outras coisas, tudo misturado e comido com colher.

[2]
. Essas canções cantadas à mesa eram universais na Europa. Na antiga Alemanha, quando se sentavam depois do jantar, os convivas tinham de recitar alguns versos, sob pena de serem obrigados a beber um copo até a borda. Acredito que o costume foi introduzido no Brasil pelos invasores holandeses, no século XVII. Não é seguido no litoral, onde a regra é a "discurseira" portuguesa, mas ainda é conservado com certas partes do interior. Que diria disso o sapiente autor da Arte de jantar?

[3]
. Darei a receita fornecida pelo fabricante: Despeje em uma terrina uma garrafa da melhor cachaça, acrescente-se uma quantidade suficiente de açúcar, queime-a. Ponha, aos poucos, uma garrafa de vinho do Porto e, quando a chama enfraquecer, um pouco de canela e umas talhadas de limão. Apague, e terá a maravilha dos "crambambali".


(Burton, Richard. Viagem do Rio de Janeiro a Morro Velho. Brasília, Senado Federal, 2001. O Brasil visto por estrangeiros, p.199-200

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