|
|
| CANCIONEIRO: Nesta seção, textos sobre
música regional; literatura de cordel; cantos de trabalho; poesia popular; desafios;
romances; cantos religiosos; quadras, pasquins... |
MODAS DA CRIAÇÃO DO MUNDO |
Sílvio Romero escreveu com acerto:
"As populações do sertão, quanto às crenças, representam o singular espetáculo
do consórcio de duas tendências igualmente impróprias para originarem uma mitologia: os
resíduos fetíchicos deixados pelos índios e africanos e as crenças monotéicas da
civilização européia fornecidas pelo português." [1]
As primeiras, resíduos fetíchicos, reservo para expor na terceira parte deste livro,
sobre as superstições. A filosofia monotéica da civilização européia segue agora
sintetizada nas duas modas: O começo do mundo e Moda da criação do mundo,
que encontrei: uma em Bela Vista, do cantador Antônio Simplício, fornecida porém por
Edécio de Araújo Melo. Outra em Morrinhos, de Pascoal Baer Guimarães.
Ambas vão na íntegra, segundo as ouvi da boca dos referidos cantadores.
O começo do mundo
Antônio Simplício Bela Vista
1
Quanu Deus feis u mundu
Foi cum grandi nepetenti,
Foi formadu in seis dia
Mais foi todu deferenti;
Feis us matu e feis us campu
Prá fiça lindu i diante
Feis Adão e feis a Eva
Pois nu mundu pra sementi.
2
Feis Adão e feis a Eva
Pois nu mundu pra sementi,
I formô-si um paraiso
I deu êlis di presenti;
Não precisa tê orgulhu
Qui nóis tudu samu parenti,
Nois tudu samu irmão
Di Adão samo decendenti.
3
Feis us artu i as baxada,
Feis us corgu i as vertenti,
Tamém feis a bicharada
Ondi tem bichu valenti,
I formô-si a riligião
Pra vê us quali qui é crenti,
Deu toda a livre vontadi
Pra vê quem tinha boa menti.
4 [2]
Feis a África e feis a Itália,
I também feis u Japão,
I despois feis a Turquia
Ondi tem turquim pagão.
I tamem feis a Inglaterra
Qui é da mesma nação,
Colocô u mar nu meiu
Prá fazê separação.
5
Feis as iscritura sagrada
I formô-si a riligião,
Agora vamu vê
U quali é qui é mais cristão,
Vamu tudu pelejá
Pra ganhá a sarvação.
Quis us prazê desse mundu
Num passa de ilusão.
Moda da criação do mundo
Pascoal Baer Guimarães Morrinhos
(outra versão)
1
Esti mundu foi criadu
Pur um grandi onipotenti,
Deus formô ele in seis dia
I feis tudo diferenti
Feis us campus e feis us matu
Feis tudu quantu é viventi,
Feis Adão i feis Eva
I pois nu mundu pra sementi.
2
Feis Adão i feis a Eva
I pois nu mundu pra sementi,
I formô u Paraisu
I deu êlis di presenti;
Não precisa tê orgulhu
Qui nois samu tudu irmão
Delis samu decendenti.
3
Feis us altu i feis as serra
I formô todas vertenti,
Feis u sol saí
Na banda du nacenti,
Só pra êli exprementá
Qual di nois quera crenti,
I pra ele ficá sabenu
Quem vem di boa menti.
4
Feis us coigu i feis us rio,
Feis as agua correnti,
Feis us pexe pra nadá,
I feis us bichu valenti,
Feis us passu pra cantá
Pra vivê alegui contenti;
Mais feis us canerim du á
Pra tristeza na genti.
5
Dispois desti mundu feitu,
Achô Qui num tava bão;
Colocô u má nu meiu
Pra fazê uma divisão.
Só pra vê si separa
U Brasil das ôtra nação.
Pois si êli num fenessi assim
Não tinha separação.
6
Colocô u má nu meiu
Pra fazê uma divisão,
Também feis u Portugal
Qui é da nossa geração
Feis a Itália i a Inglaterra,
I tamém feis u Japão
Feis a África i a Turquia,
Ondi tem turquim pagão.
7
Feis a iscritura sagrada,
I formô a riligião
Só pra êli isprementá
Qual di nois qui é cristão,
Vamus tudu pelejá
Prá ganhá a sarvação,
Qui us prazê desti mundu
Num passa di uma inclusão.(Teixeira, José
Aparecido. Folclore goiano; cancioneiro, lendas, superstições.
3ª ed. São Paulo; Brasília, Companhia Editora Nacional; Instituto Nacional do Livro,
1979. Brasiliana, 306) |
|