Ano V - novembro  2002 - nº 51

Sua revista com a cara e a alma brasileiras


SUMÁRIO - EDIÇÃO 51
FESTANÇA
CANCIONEIRO

Veado contando a sua morte, do folclore mineiro recolhido por Orlando Torres.

Despedida de anjo faz chorar... os versos cantados nas guardas de defuntos, recolhidos por Renato José Costa Pacheco.

Modas da criação do mundo, recolhidas por José A. Teixeira.

IMAGINÁRIO
OFICINA
PALHOÇA
COLHER DE PAU
PANACÉIA
CATAVENTO
ALMANAQUE
REALEJO
COLABORAÇÕES

 

CANCIONEIRO: Nesta seção, textos sobre música regional; literatura de cordel; cantos de trabalho; poesia popular; desafios; romances; cantos religiosos; quadras, pasquins...


DESPEDIDA DE ANJO FAZ CHORAR...

Renato José Costa Pacheco


A guarda de defuntos é costume encontrado nas mais diversas culturas. Os que ficam alegres ou tristes, conforme a cultura que pertencem, como que se despedem daqueles que atravessaram os umbrais até hoje desconhecidos da morte.

No Brasil, fazer o quarto ou o velório é tradição geralmente respeitada. Em algumas regiões, como nos diz Getúlio César, em estudo citado por Câmara Cascudo, em seu sempre louvado Dicionário do folclore brasileiro (Rio de Janeiro, 1954) mantém-se o costume português de excelência, em que são contadas diferentes frases rimadas do número um até o doze, em forma de benditos, como, por exemplo:

"Já é uma hora que os anjos vieram te ver
E ele vai, e ele vai e ele vai também com você"

Já são duas horas que os anjos, etc.

Já são três horas que os anjos, etc.

Em Mucurici, Espírito Santo, mantém-se o costume do velório, com o nome particular de sentinela, que, conforme assinalamos em artigo anterior sobre o mutirão local, nos vem dos colonos baianos ali integrados.

Há sentinelas para pecadores e para anjos, considerado estes os menores, até sete anos. Em geral os benditos rezados (alguns cantados em forma de cocos) diferem apenas em minúcias. Se para um pecador se diz meu pássaro preto, a ave se transmuda em pássaro verde para um anjo.

A guisa apenas de recolha, vamos enfileirar, a seguir, alguns benditos sempre regados à cachaça, que conseguimos anotar. Sempre que não houver observação especial, os benditos são usados indiferentemente para anjos e pecadores. Todavia, quando os versos se reportarem especialmente a anjos ou crianças só a estes se aplicam.

1
Ó meus pais por mim não chorem
nem de mim tenham saudade
vocês chorem para os que ficam
que de mim não dou trabalho. (a)

2
Uma hora da manhã (duas horas, três horas, até sete horas)
ele vai sem medo sem pavor
na mão direita ele leva
a imagem de Nosso Senhor.

3
Meu pássaro verde
é hora de despedir de seus pais
meu pássaro verde
e, vai embora (bis) (a)

4
Um canarinho sentado em seu galhinho
pegado no seu sermão
canário bateu a asa
fez plá plá plá.

5
Abre a porta Pedro
deixa clariar
esta alma vai pro céu fazer morada lá.

6
Uma hora da tarde
o sino bateu
Nossa Mãe Santíssima
Seu filhinho morreu. (a)

7
Cachaça ferveu
no fundo do garrafão
eu quero beber cachaça
pai do anjo na palma da tua mão (a)

8
Pai do anjo sai lá fora
Venha ver seu filhinho de palma na mão
Olê, olá
Dá licença prá o folião cantar (a)

(em ambos os benditos, repete-se a estrofe com o nome da mãe, irmãos, avós e todos os demais parentes do anjo presentes).

9
Um pássaro branco
que andava desertado
chora...chora...
eu vi dizer que chora.

10
Pai de anjo saia fora
venha ver caixão sem tampa
Não tampa nem eu canto sem beber (bis) (a)

11
Este anjo morreu numa noite escura
pediu uma vela pra sepultura
Ele é de Deus e da piedade
ele não quer choro
nem também saudade. (a)

12
Despedida de anjo faz chorar
faz chorar, faz calentar
despedida de anjo quando o pai dele chegar
contar, vou arengar
despedida de anjo. (bis) (a)

13
Bendito louvado seja
meu Bom Jesus de Lisboa
Macaco quebrando coco
Meu Jesus na proa de uma canoa

14
Pai do anjo quero água
lá da fonte do juá
agora cheguei aqui
somente prá te levar
pai de anjo quero água (a – faz-se como nos nº 7 e 8)

15
Uma ovelha desertada
procurando seu rebanho
dando seus passos perdidos
meu senhor da boa vida.

16
Aqui hoje chegou um canarinho
dizendo assim
– Lá no céu tem festa hoje
na chegada deste anjinho (a) (Chegou dois canarinhos, três, até sete).

17
Lá no céu bateu um sino (bis) (2, 3, 4, 5, 6 sinos até 15)
lá no trono da Trindade (bis)
você que vai pro céu (bis)
Deus lhe dê boa viagem (bis)

18
1 Padre nosso e 1 Ave maria (2, 3, 4, até 10)
Que este anjo seja a sua guia
Ave Maria cheia de graça
que este anjo seja a sua graça.

19
Lá no céu abriu uma rosa (2, 3, 4, até 7)
Nos pés de São Salvador
Ama a Deus e despreza a terra
Deixa o mundo enganador.

20
Uma hora da manhã (2, 3, 4, até 7)
Maria apareceu
em qualquer parte Maria nos favorece
Salve Rainha Mãe da Misericórdia
Vida Doçura
Esperança nossa.

Os benditos de 1 a 16 nos foram dados pelo Antístenes, oficial do registro cívil de Mucurici; os seguintes nos foram ditados pela jovem Tereza Nogueira Silva.

A cantoria dura a noite toda, com um sabor de alegria. As pessoas letradas da comunidade já olham com certo desprezo ou ironia as sentinelas, que, contudo, persistem.


(Pacheco, Renato José Costa. "Despedida de anjo faz chorar..." Em A Gazeta. Vitória, 19 de janeiro de 1958)

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