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| CANCIONEIRO: Nesta seção, textos sobre
música regional; literatura de cordel; cantos de trabalho; poesia popular; desafios;
romances; cantos religiosos; quadras, pasquins... |
VEADO CONTANDO A SUA MORTE |
Levantei do "Capão Grande",
Levantei bem infeliz:
O primeiro que encontrei
Foi um tal Antônio Luiz.
Se escapei do Antônio Luiz
Foi Deus que me ajudou:
A sorte me defendeu
Desse terrível caçador.
Passei perto do Zé PaulaMas ele me avistô:
Graças ao Eterno Pai
Escapuli desse caçadô.
Deste campo, se escapei,
Foi porque Deus assim quis;
Mas pra sair do cerrado
Não sei se serei feliz.
Quando eu sai do cerrado,
Descendo para o São Vicente.
Lá me fizero um cerco
Que foi mesmo um "Tempo quente".
Saindo do "São Vicente"
Subi para o "Saltadô":
Vi lá o Zé Paulinha
Que de lerdo não me atirou.
Eu passei pertinho dele,
Andando devagarinho:
Ele ali está dormindo,
Debaixo de um coqueirinho.
Quando os cachorros passaram
Eu vi que ele acordava,
Com o "mutim" dos cachorros
Decerto ele despertava.
Subindo pro "Saltador"
Passei na serra "Impinada":
Lá estava o Mané Xico
Coa sua espingarda armada.
Mané Xico me atirou
Na "espera" do "sucupira":
Lá deixei ele contando
Umas duzentas mentiras.
Aurélio vem chegando
E perguntou pelo veado:
Com pressa, já fui dizendo:
"Ele foi bem chumbeado."
Ele foi bem chumbeado,
Eu vi que ele foi doente;
Ele ainda não saiu
Da "furna" de "São Vicente".
Saí da "furna do Clemente"
Pra dobrar para o David:
Eu pensei que estava escapo,
Quando a serra eu desci.
De medo dos caçadores
Quis fazer uma parada:
Eu passei pra outra furna,
Vi minha vida atrapalhada.
Eles todos se ajuntaram,
Me fizeram uma traição:
Me deram uma descarga,
Que parecia um trovão.
Dobrei para o Xico David,
Que é no córgo da "Porteira",
Os caçadores já é vinham
Disparados na carreira.
Aí eu subi a serra,
Em rumo ao "Mato emendado,"
Ouvi então eles gritar:
"Lá vai no Cândido Felizardo."
Dispararam os seus cavalos
Pra me cercar nos "Pinhão",
Quando eles lá chegaram
Já eu tava no "Ribeirão".
Chegando no Ribeirão
Eu pensei em descansar:
Ouvi então eles gritarem:
"Cerca da banda de lá"
Aí passei pelo "Vau",
Me cercaram do outro lado:
Eles me alcançaram no campo,
Eu me vi atrapalhado.
Foi tantos tiros que deram,
A metade só chegava:
Se eu tivesse vinte vidas
Todas elas se acabava.
Felizmente, todos os tiros,
Foram por todos errado:
Quando entrei na capoeira
Estava morto de cansado,
Eu passei por um lajão
Pra banhar em água fria:
Os malditos caçadores
De todo não me perdia.
Fui saindo da capoeira
Logo entrei num outro mato:
Foi então que eu conheci
Que era a roça dos "Lagarto".
Aí disse o "Lagarto":
Eh!.. eh!.. Traz a espingarda, Xico:
Enquanto ele gaguejava
Eu cheguei no "Capão Rico".
Alcancei o "Capão Rico",
Mas cheguei muito cansado,
Inda ouvi eles dizendo:
"O veado está amoitado."
Os cachorros me trilhavam,
Pelos caçadores atiçados:
"Lá vai Atrepa "Penacho"
Que o dia já é passado."
O "Penacho" me achou
Ajuntaram outros cachorros,
Logo disse o José Paula:
"Cerca na espera do morro."
Tiros... Tudo foi perdido...
Pprque de nada serviu:
Quando eles iam correndo
O Xico Cândido caiu.
Enquanto o Xico se erguia,
E os outros admirados,
Quando quiseram acudir,
Foi tarde. Eu tinha passado.
Varei o mato depressa
Para no rio eu chegar,
Infelizmente eu não pôde
Este desejo alcançar.
Xico Cândido me cercou
Sem mais eu poder torcer.
Os cachorros vinham unidos:
O remédio é eu morrer."
Xico Cândido me atirou,
Fui caindo, fui morrendo:
"Quem não tem de ser feliz
É asneira andar correndo."
Ajuntaram os caçadores
Com as suas cachorradas:
Fizeram festa e beberam
A saúde da caçada.
Despedindo desta vida
Fiz o meu triste inventário,
Para os caçadores e cachorros
Que tanto me atormentavam.
"Deixo o meu rico couro,
Do meu triste assassinato,
Deixo pra quem me matou
quando eu saía do mato.
Deixo o meu quarto direito
Para o cão que me achou,
Na furna do "Capão Grande"
E nunca mais me deixou.
Deixo o meu quarto esquerdo
Para o outro que ajudou,
Que tanto me perseguiu
Até que a vida me tirou.
Minha pá direita deixo
Para um outro bem rajado,
Que muitas vezes me achou
Quando eu estava amoitado.
Deixo a minha suan
Para o amigo "Pachola",
Em toda parte latia
O maldito do parola.
Deixo as minhas tripas
Para o meu íntimo amigo,
Que tantas vezes me topou
Mas nunca latia comigo.
Agora vou despedir
Dos cachorros mais teimoso:
Pois nem Deus do Céu Eterno
Não pôde ser valioso;
Adeus! Penacho!
Adeus! Brasina!
Adeus! Cabrito!
Adeus! Campina!
Adeus! Sabuco!
Adeus! Corta Vento!
Adeus! Despacho!
Adeus! Tormento!
Adeus! amigos
Da minha triste pena!
Adeus! Relógio!
Adeus! Morena!
Fazendas das Palmeiras
(Torres, Orlando. Folclore do Triângulo Mineiro. São Paulo,
Editora Jornal dos Livros, 1955, p.142-148) |
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