A influência literária é
grande sobre os nomes brasileiros. As Iracemas há mesmo uma Iracema de Alencar
são numerosas, comos os Moacir, Ubirajara e Peris há, por aí numerosos. Já há
Marias Bonitas...
Também os autores estrangeiros. As "Evangelinas" descendem de Longfellow como
as Haydées e Gulnares, de Lord Byron. Já havia Iseus em Portugal, mas as Isoldas vieram
da ópera de Wagner Tristan und Isolde. Verdi contribuiu com as Aídas, e os
Hernânis, com h, entretanto a prosódia italiana; os brasileiros são totalmente tenores
da ópera. Também do teatro lírico são as Dinorá ou Dinorahs, de Donizetti, e as
Adalgizas e Normas de Bellini.
Ao tempo do êxito de Sienkiewicz, no Quo Vadis, apareceram as Lígias, os
Vinícius, as Eunices. De Eugênio de Castro procedem as Belkiss, graciosa deformação de
nome que, no árabe, é Balkiss.
Shakespeare é responsável pelos Otelos, Ofélias, Cordélias, Romeus e Julietas...
Cervantes é pai das Dulcinéias, Camões responde por Natércia. Virgílio teria tido
culpa de Enéias, Evandros, Camilas, Lavínias e Didos. Horácio lembrou Lídia. Homero
produzira Helena, Heitor, Aquiles, Ulisses, Nestor, Telêmaco, Andrômaco, Nausica,
Penélope, Diomedes, Príamo, Patroclo... Ovídio lembraria Corina e também Madame de
Stael.
Será Dante responsável pelas Beatrizes? Petrarca, com certeza, pelas Lauras. O romance
de cavalaria de Carlos Magno e dos dozes pares de França terá responsabilidade de
Roldão, Floripes, Angélica, Oliveiro...
Há filhas de maranhenses que, por causa de Gonçalves Dias, foram Coemas. As Lindóias
vêm de Basílio da Gama e as Moemas de Santa Rita Durão. Amigo meu, também fanático de
Castro Alves, não vacilou e pôs na filha mimosa este nome: "Hebréia"de Castro
Alves Guimarães. Está dito tudo.
* * *
Porque a paixão política não se há de aproximar do coração? Chega, às vezes à
loucura... Mas é assim. Apaixonados pelos heróis da independência americana são os
nossos Washington, Lafayette, Franklin... Depois vieram os Lincoln, Edison, Garfield...
Há no Brasil Dantons, Robespierres, Gambetas, Thiers... vindos de França. Se os
Napoleões são discretos, pululam inumeráveis, os Nélsons. A Guerra de 1914-1918
produziu Joffres e Fochs e Wilsonso. A recente já deu Hitlers que tiveram de mudar de
nome...
Bem característicos, entretanto, neste assunto do pouco tento que se põe no nome dos
filhos, é esta mudança segundo li no O Globo, do Rio de Janeiro, de 8 de abril de
1943, sob estes títulos e subtítulos:
"Mudou de nome o futuro médico. O primitivo não inspiraria confiança à clientela.
Curioso despacho do juiz.
O Juiz Oliveira Ramos, da 2ª zona do Registro Civil, despachando, favoravelmente um
pedido de mudança de prenome, exarou interessante decisão. O requerente pediu
autorização judicial para o seu filho Sylvonette Figueiredo Lima passar a usar o nome de
Sylvio. Após justificar o deferimento do pedido, acrescentou o magistrado:
"Francamente, por hoje, não se sabe, ao certo, quanto a determinados prenomes, se
eles são para homens ou para as delicadas, pelo menos criaturas do sexo frágil. Assim,
quando se anuncia um Juracy, e esperamos um latagão forte e pronto para o serviço da
Pátria, eis que surge amável e franzina filha de Eva. Com relação a Sylvonette tal a
confusão existente, não sei se é para homem, ou para mulher. A minha convicção,
porém, é que deve ser para mulher. Isso, é verdade, depende muito de gosto. O pai do
requerente, por exemplo, enquanto o garoto não cresceu, não reclamou contra o
"Sylvonette". Só agora, é que apareceu. O filho já é rapaz, acadêmico de
medicina, um futuro médico. E um médico com o prenome de Sylvonette poderia não
inspirar confiança aos clientes, mesmo em se tratando de um especialista em
delivrances... Entendo provado o ridículo argüido na petição de fls. 2. Afirmaram-no
as testemunhas de fls. 14-15, o atestado do doutor Fróes da Fonseca, diretor da Faculdade
de Medicina e assistente da cadeira de anatomia humana, que, tendo afirmado que o nome
Sylvonette é nitidamente feminino, pode dizer, com incontestável autoridade que o seu
portador é "nitidamente masculino".
Sem comentário.
* * *
Paixão política também foi a de nativismo nacional, anti-português que sucedeu o
ilógico complexo de inferioridade, à nossa independência. Era a época em que, na
Bahia, minha terra, se versejava:
Maroto pé de chumbo
Calcanhar de "frigideira"
Que te deu a confiança
De casar com a brasileira?
Logo, para começar, despiram-se os patriotas dos seu tradicionais nomes e tomaram outros
americanos. O exemplo mais citado é o de Francisco Gomes Brandão que se crismou
Francisco Gé Acaiaba de Montezuma. Não ficou por isso menos mestiço o visconde de
Jequitinhonha. Apareceram por toda parte nomes indígenas, com Embiruçu, Visgueiro,
Mangabeira, Japiaçu, Pitanga, Capirunga, Titara, Canguçu, Dendebus, Cansanção,
Sinambu, Canabrava, Camacã, Utinguaçu, Potengi, Carrapixo, Canamirim, Muçurunga,
Jacarandá, Capanema, Carapebus... que sei?
Ilustre família mineira desdenhou o nobre e belo nome de Melo Franco e pôs nos filhos
estes patrióticos apelidos: Afonso Arinos Inhenzu de Montezuma; Afrânio Camori Jacaúna
de Otengi; Armínio Avelino Manacá Paraguaçu; Ademar Columbiano Jupira... até que se
restituíram aos tradicionais nomes que tinham. Da aventura só guardou lembrança Afonso
"Arinos", que ficou com o seu rio nativo, mas reintegrado nos Melo Franco de
sempre.
À nossa vista se processa uma nomenclatura em que a poítica tem a sua parte. Há cerca
de trinta anos, ou pouco mais, um jovem deputado de talento é alçado a líder da Câmara
dos Deputados Federais: é o doutor James Darcy, cujo retrato simpático, cuja mocidade
atraente, cujo talento persuasivo se apossam do gosto nacional. Darcy é nome de família
na Irlanda, de onde procedeu: não importa; as crianças desse tempo serão Darcys...
Ilustre dama de hoje é dona Darcy Vargas; ilustre cirurgião de hoje é o doutor Darcy
Monteiro... Mas pelo país vem-se a ignorar que o nome é inglês e não tupi, onde os ii
finais eram longos e, por isso, se escreviam com y ou i grego... por isso, tantos e tantas
Darcis, homens e mulheres, pois o nome ficou comum aos dois, o que demonstra que os belos
nomes são irresistíveis às ignorantes mamãs dos inocentes bebês...
***
À política pende o nome Xaviera que conhecido homem de letras jacobino pôs na filha, em
honra de Tiradentes. Os Deodoros e Florianos são homenagens republicanas; outrora o paço
dos imperadores dava nomes aos súditos e as Carlotas, Leopoldinas, Teresas, Cristinas,
Isabéis... de lá vinham. As Iolandas, de hoje, vêm todas de uma princesa italiana filha
de Vítor Manuel III.
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Se o jacobinismo dorme, lá vem
a invasão estrangeira dos Oswald, Edgard, Ronald, Arnold, Max, Oscar (que os portugueses,
devidamente fiéis à prosódia original chamam Óscar)... Os nomes tradicionais perdem
prestígio, exceto quando exprimem outra paixão. Por exemplo a da vernaculidade... O dr.
João Barbosa pôs nomes nos filhos Brites e Rui, que na forma arcaica é tradução de
Beatriz ou de Rodrigo, Ruiz... Rui Barbosa foi um voto paterno, um ex-voto lingüístico.
Também os Mem, os Fernão, as Iseu, as Briolanja...
* * *
Ao nome próprio se creria atribuível a fantasia dos pais, portanto imprevista, às vezes
na extravagância ou no ridículo. E o da família? A psicologia, a sociologia parecem ter
convindo que os nomes de famílias vieram dos nomes dos clans, isto é de
agrupamentos humanos originários que supunham ter no sangue um "deus" comum,
isto é, um ser da natureza, ao qual deviam respeito, ascendente rústico, e portanto
todos os afetos de mesma crença, ou do mesmo sangue, ou do mesmo nome.
Assim os bororós pretendiam descender de araras vermelhas, aves para eles respeitáveis,
às quais não matavam e não comiam. Diz-se que lhes seriam tabu, isto é
ritualmente proibidas, pois ações malfazejas ao seu totem ou de deus familiar...
Aos judeus foram tabu os porcos, totem desse povo. Como os gatos foram tabu
e totem dos Egípcios. Atenas ficaria com as corujas como Roma com as lobas. Os
zebus, indianos.
Portanto, os nomes familiais, Carneiro, Leão, Falcão, Lobo... seriam de animais totens,
como plantas e minérios, Carvalho, Oliveira, Silva, Pereira... Rocha, Barros, Neves,
Lago... seriam outros que tais. Mas a fantasia, o capricho, a extravagância, se puseram
de permeio e tanto, que hoje nomes familiais são... imprevistos.
De um diário oficial recolho, para exemplo, estes: José Simões Chuva, Alexandre
Porreca, Antônio Ferreira Coronha, Eva Breu, César Borracho, Inácio Ferreira
Incógnito, Antônio Peralta, Arnaldo Augusto Queijo, Florindo Tambor, Manuel Antônio
Conveniente, Francisco Mosca, Bernardo Melado, Henrique Sozinho, Américo da Cunha
Bembão, Evangelina da Silva Boa, José da Silva Direito, Wenceslau Arco e Flecha,
Domingos Viola, Sansão Vagina, José Jurado, Manuel Francisco Penetra, Alberto Augusto
Borda dÁgua, Mário Santos Padre, José Joaquim Martins Cateta, Himalaia Virgulino,
Filomena Cococas, Eratóstenes Frazão, Caetano Baile, Cornélio Corando, Angélica
Panchorra, Nicolau Barbeiro Corredeira, Eucondeiro Inglês, José Rua, Saturnino Salões,
Maria de Ramos da Costa Apocalipse, Newton Tumba, Pascoal Mário Papelão, Antônio da
Silva Parteira, Ana Enes Cancela, Pedro Carnaval, Preciosa Posse Torrado, Manuel Ferreira
Varalonga, Divina Brito de Deus, Antônio Pimpão, Lígia Collecta, Maria Brandão
Familiar... e vai por aí, um nunca-acabar de sem-razões ou o oposto, porque há uma
Carolina Notário Razões...
As combinações desse nomes raiam às vezes pela incredibilidade. Não é que houve um
Sindalfo Calafange Catolé da Assunção Santiago? Também houve um jactancioso Comigo é
Nove da Garrucha Trouxada. E um Francisco Facada Sargento de Cavalaria. E uma Abrilina
Décima Nona Caçapavana Piratinina de Almeida, porque nascera em 19 de abril, em
Caçapava, no Rio Grande... Um pesadelo clássico sugeria nome de Azarias Califrouchon (
) Borges Neuplides Panteon. Escrevi sic porque devera ser califourchon,
posição de montaria... Este outro é nome coquetel: Jefferson Mirabeau dos Mercês
Gordo. E este? Bíblico e tupi: Efrem Esdras Eustáquio Embiruçu, quatro ee...
Juiz de direito foi Optato Nehemias Eustáquio Carajuru. E negociante Janeiro Fevereiro da
Silva Março, todo o primeiro trimestre. Mas o cúmulo, num filho, foi a originalidade do
escritor Oswald de Andrande: Lança Perfume Rodometálico de Andrade...
* * *
Fidalgos e reis se compraziam em aumentar os nomes. Por exemplo o nosso último imperador
houve nome: Pedro de Alcântara João Carlos Leopoldo Salvador Bibiano Francisco Xavier de
Paula Leocádio Miguel Gabriel Rafael Gonzaga...
Como acho ridículo que um só homem tenha tantos nomes, escreveu, de muito antes de
outros nobres e soberanos, dom Francisco Manuel de Melo, apeei ao gato dessa fanforrice.
Pode isto, entretanto, ser trágico... Facínora do sertão da Bahia antes de matar à
vítima obrigava-a a lhe decorar o nome. E se chamava nome que lhe definia o complexo, a
personalidade: Manuel Calixto Ribeiro de Novais de Arrebitiba Lopez Beirada de Couro Cru
Raiz de Capim-açu Oco Bisouco Bororoco Arre Que Tenda Não Tem Que Nada Arretira
Samambaia Que Ainda Que Outro Bata Não Faço de Conta de Saia. Apesar desse cômico,
trágico...
* * *
Portanto, o nome retrato é resumo de uma criatura... deformada até incrível
aberração, de comédia e extravagância... Pais que assim insultam os filhos e por toda
a vida. Uns por ignorância, outros por falta de senso moral. A mor parte por
inconsciência.
Respeitado amigo meu, antigo deputado da Bahia, que fora presidente do Ceará quando da
libertação dos escravos dessa província, o doutor Sátiro de Oliveira Dias, dizia-me
condoído: "- Meu pobre pai! Que me deu um nome que nem sabia pronunciar, pois me
chamava de Satíro, nome que os adversários, à primeira investida, me lançam em
rosto": "Não é só no nome que és sátiro, grande frascário..." E,
entretanto, se não casto, cauto...
Aos Narcisos logo lhes chamam feios; aos Pacíficos, guerra... Camilo Castelo Branco
sublinhou o destino do "Carrasco Vítor Hugo José Alves"... Porque, outro
grande poeta, Lamartine, dizia que os nomes da gente tinham também significado. (Qual
seria o de um político do norte, chamado Juvenal Lamartine?).
Dar-se-á que o padre, que batiza, tem sua responsabilidade, Talvez. Um deles quis impedir
que Alexandre Duas pusesse o lindo nome "Janine", numa filha, pois não constava
do calendário... Asseguro, porém que, padrinho de um Ney... (o pai fazia coleção de
nomes de três letras como meu caro Mário de Alencar: Léu, Gil, Yvo, Rui...
como outro chegou a simplificar, em duas, depois de um Ari, um Og... duas letras
apenas) o reverendo consulta-me: "Não sendo nome de santo, vamos pôr-lhe o do santo
do dia?" Era 13 de junho... Assenti e eis o monsenhor que batiza ao pequeno Ney
Antônio... Nem contento o santo, nem o general... nem o pai, nem o padrinho...
* * *
Portanto, coisa tão séria, uma definição da vida e da criatura, leviana, ignorante,
extravagantemente, inconscientemente tratada, e pelos pais, os autores da vida, os
responsáveis por essa vida, essa criatura...
De outra forma, entretanto, não seriam humanos... E Renan não o João, do Brasil,
porém o Ernesto, o de França... teria razão, uma vez mais: "Nada dará
melhor idéia do infinito do que a tolice humana". E o nome da gente depõe, por aí,
dessa ingênita e incurável tolice...
(Peixoto, Afrânio, Miçangas: fama (folclore) e história. 4ª
ed. Rio de Janeiro, Cátedra; Brasília, INL, 1977) |