Nome é a voz com que se dão a
conhecer as coisas. E as pessoas. Nome vem de nomen, latino, do grego gnaman,
do sânscrito ñaman. A raíz gna é étimo de cognoscere, conhecer,
e aparentado ao noumenon, numéne ou nume, coisa pensada, a razão pura, para Kant.
Portanto, nome= conhecimento, = nume, que já é sagrado. Não só identifica mas dá à
coisa uma entidade moral, o seu nome, apelativo ou próprio, objeto ou pessoa. Não parece
leviano cuidar do nome das pessoas, o nome próprio de cada uma...
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Daí um primeiro corolário: o nome é um epíteto. Deus é o que brilha, o sol, talvez,
para começar. Daí para os homens os nomes de alcunha, apostos que qualificam: o Torto, o
Vesgo, o Gordo, que, muitas vezes, ficam nomes, como Cláudio, Pilátus e até apelidos
familiais e históricos, Carlos, o Calvo, Silva Gordo... Se as Brancas, Virgínias,
Lúcias são vulgares epítetos femininos, os Facundo, Juvenis, Aquilinos, lhes
correspondem, do outro lado.
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Como quer que seja, os nomes tradicionais da Europa refletem, na América, a nossa
ordinária inconseqüência. Tempo houve em que eles se recebiam de folhinhas e o nome era
o do santo festejado no dia em que nasceu o cristão. Daí tanto nome feio: Policarpo,
Filogônio, Jovita... Também o gracioso, dos apostos. Conheci um humilde canoeiro do rio
Pardo que se chamava Luís Rei de França, e uma excelente cozinheira baiana preta
retinta, que se dizia Isabel rainha da Hungria, Luís Gonzaga, Francisco de Paula, João
Batista... são vulgaríssimos. Daí também tantos mártires, confessores, bispos, apenas
nominais. Conheci um minúsculo estafeta do correio que era Gregório Magno Papa: um
colega de faculdade era Tibúrcio Valeriano, esquecida a conjunção copulativa, pois eram
dois São Tibúrcio e São Valeriano.
Muitos destes apostos ficam indevidamente, nas famílias. Assim João Evangelista e João
Batista, perderam o nome, mas ficou-lhe a qualidade, a Irineu "Evangelista" de
Sousa, visconde de Mauá, nome absurdo, pois não houve nenhum Irineu Evangelista e a
Antônio "Batista" Pereira, o mestre escritor, pois nenhum Antônio foi jamais
Batista. Outras vezes a inadvertência é toponímica, contrariando o nome: o arcebispo
acadêmico dom Franscisco de Aquino Correia, mais propriamente seria dom Tomás, pois que
não houve São Francisco nenhum de Aquino.
Uns definem no nome à origem, começo de certidão civil. O eminente Vital Brasil Mineiro
de Campanha nasceu na cidade de Campanha, em Minas Gerais, no Brasil. Na sua família este
auxílio, ao registro de nascimento é usual: dona Iracema Ema do Vale do Sapucaí e o
doutor Oscar Americano de Caldas marcam as respectivas procedências, logo à
apresentação.
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Disse Agostinho de Campos que era preciso ser eloqüente para pronunciar certos nomes
brasileiros... Não teremos, até nisso, ênfase tropical? Vejam estes: Demóstenes...
este outro Miltaristides... grande advogado, circunspecto juiz, que não perdoa a má
prosódia ou grafia de seu difícil nome...
São nomes que exprimem voto paterno. Conheço pais modestos, que têm no lar, a Colombo,
Garfiled, Hamilton Thiers, Gladstone, Péricles, Lucano... Os Cíceros, César, Otaviano,
Numa, Tibério, Cláudio, Vergílio... caíram no domínio comum. Conhecemos todos
honestas Laídes e Alaídes, homenagens à famosa Laís, de Corinto. A Taís produziu os
Ataídes... Pior é uma Messalina, que graças a Deus, em nada se parecia com a outra. E
um Nero há, que foi deputado; e vários pacíficos Átilas conhecemos, indevidamente
nomeados.
Erudição? Desdém das conveniências? Talvez apenas distração... E é a vida inteira
da criatura... Pais, mais atenção! O ridículo pode sobrevir. A um simples sugeriram em
Campos, província do Rio, o nome de Ernesto Renan para um filho, aborrecendo ao vigário.
Não batizo, disse este, e impôs, na pia, o nome do Batista: João. O pai teimoso
e ignorante reagiu e o pequeno ficou grande, a vida inteira, propalando a ignorância
paterna e própria: João Renan...
* * *
Extravagâncias... A um farmacêutico da Bahia ocorreu, a uma série de filhas:
Antipirina, Exalgina, Fenacetina; surgiu um pirralho: Piramidon... Outros só têm Josés:
José Carlos, José Eduardo, José Roberto... Outros só têm Marias: Maria Lúcia, Maria
Helena, Maria Eduarda: devoção à sagrada família. Outros têm série A, como os nomes
paquetes da Mala Real: Augusto, Alberto, Adalgiza, Afonso, Aristides...
Conheci advogado em Pernambuco cuja amorosa esposa, não contente de dar ao primogênito o
nome do marido, Eugênio, que aos outros filhos deu , a todos quase, nome em eu: e
assim, apareceram Eudoro, Eurico, Eudéia... Mas o último foi Emílio, o que, aos colegas
da Faculdade, fez chamá-lo "Eumílio". A malícia sussurrava que não tendo
acabado os eus, Eusébio, Eulógio, Euvaldo, Eunice etc., a inadvertência seria
desamor... É o a que expõem as extravagâncias.
Nesse eito, de caprichos, há os que fazem combinações. Conheci linda moça chamada
Eduarlinda porque os pais eram Eduardo e Arlinda, misturados na criatura. Felizmente não
havia desacordo, no casal.
Capricho será de um sabão famoso ou um nome de pneumático (o do inventor da
vulcanização) chamar o filhos Gílson ou Goodyear... e não estrangeiros, nacionais. As
pastilhas Valda têm uma homenagem numa rapariga, nada de mau gosto e sem pastinhas. Um
pobre sujeito tem dois gêmeos desparelhados, menino e menina, e não sabe como
chamá-los, até que vê um reclamo de revista francesa: Voici et Voilá. Não
precisa de mais: o pequeno será aquele, a irmãzinha este, nomes escritos como o pai
ouvira Vuaci e Vualá. Não invento, embora incrível. |
Aqui estão dois casos,
literários. Júlio Ribeiro, o escritor e filólogo, era filho de um americano, Vaughan,
nome que em Minas era pronunciado de diversas formas: Fogão, Vagão etc. Ao filho
aconselhou que ficasse apenas com o nome materno e assim foi, Júlio César Ribeiro. Ramiz
Galvão é um nome-coquetel, pois era Benjamin Franklin, americano; Ramiz, espanhol,
"coal", carvão em inglês. Tanto porém mal se pronunciava este nome: Cól,
Cóal, e não Côl, que o pai traduziu o nome para o filho: o nome materno Ramiz, e o
próprio, ajeitado, em vez de carvão, o significado, em português, Galvão, proximidade
prosódica e gráfica: Ramiz Galvão, o sábio acadêmico.
Não é que um pedagogo faz a si próprio peça semelhante? Menino precoce tem admiração
por Coelho Neto e quisera nome parecido. É filho de português, que tem nome sueco, de
avô: Bergstrom. E o jovem Lourenço Bergstrom assina-se Lourenço Filho, sendo que o pai
é Manuel: nome, entretando consagrado. Este outro caso não é apenas divertido é
triste. João Kopke que acabou tabelião, mas fora educador, querendo troçar a mania
nacional pelos títulos doutorais, pôs nome num filho: Doutor Kopke. O destino não o
quis, o homem ficou doutor sem o ser, mas certamente a pedagogia não aprovou ao educador
que expôs a própria criatura à irrisão.
Exemplo contrário de bom pai é o daquele esperto português que, havendo, de mulher de
cor, dois mestiços lhes dissimulou esta condição sob os nomes de Artur Índio do Brasil
e Otelo Mouro de Veneza... Quem não se enganaria tomando tais nomes como explicação de
pele e cabelo?
Agora, o caso é ímpio. Padre irregular, na Bahia, tem filhos aos quais põe nomes
religiosos, Quod Vult Deus e Deus Dedit... Uma pausa... por fim uma menina, suposta o fim
da série: Ita Missa Est... Tinha-se acabado a missa... Ouvido o caso a Rui Barbosa, e
poderia escrever o apelido familiar que ainda me lembra... Para que? A missa deve mesmo
ter acabado.
Para não sair de assunto pio, referem-me a existência de sujeito nascido em 1º de
janeiro, quando a igreja celebra a circuncisão do Senhor, que o calendário abrevia:
"Circ. do Senhor" e o pobre e piedoso pai não teve dúvida e pôs no filho o
nome enigmático e abreviado: "Circ do Senhor". E não houve quem lhe fizesse a
obra de misericórdia que seria instruí-lo...* *
*
Extravagância, mas também ignorância... pelejam qual das duas será a musa dos nomes
brasileiros. Vejamos os que ignoram. Uma rapariga conheço chamada "Nadir".
Faltou-lhe irmã chamada "Zenite", embora masculinos os nomes... Conheci em
Canavieiras um bom sujeito chamado "Vulter de Castro". Custou-me convencê-lo
era uma homenagem ao filósofo do século XVIII: nem convencido assinou-se jamais
"Voltaire".
Devo averbar entre as ignorâncias os nomes de Odisséia e Eneida que dois meios letrados
puseram nas filhas: A "Odisséia" seria o périplo de Ulisses; a
"Eneida" é a descendência de Enéias... Não foi isto o que os pais quiseram
dizer.
Às vezes eles querem dizer alguma coisa. E dizem isto, uma charada no nome de pobre
sujeito que se chamou Prodamor Conjugal de Marimélia, que, decifrado, significa
"produto do amor conjugal de Mário e de Amélia"... Sem comentário,
dispensável. Um Arquibaldo e uma Maria se reúnem, para um Arquimar, que nem é água
salgada, nem é antigo. Uma família Temporal (que nome!) embarca dos vapores Ita, da
Companhia Costeira, e aí lhes nasce um pimpolho que se chamou Itamar Temporal..., entre
interjeição e biografia...
Doutor Francisco Campo, de Belém do Pará, revelou-se letrado, nos filhos: Verso Campos,
Prosa Campos, Estrofe Campos, Epílogo Campos... eram os nomes deles. Mais modesto, porque
não literatura, porém apenas letras, foi o doutor Ernesto de Lacerda, cujos quatro
filhos tiveram nome Cedilha, Cifra, Til, Vírgula de Lacerda, ainda havendo
disponibilidade de sinais gráficos para filiações originais...
O senhor Timotéo de Faria, no Rio Grande do Sul teve três filhas a que pôs nomes Tarde
Linda Faria, Noite Linda Faria, mas não persistiu, tendo ainda aurora, manhã... pondo,
na terceira, Doce Linda Faria, que arrastou seu erro de concordância, pela vida, pois o
doce devia ser substantivo.
Uma lista de nomes de examinando ou sorteados ou contribuintes é um nunca-acabar de
contínuas surpresas: Topázio Correia Velos, Geógrafo Duarte Menezes, Pardoval do Rego
Barros, Ocidentina de Fontoura Nunes, Bispo das Neves, Livramento Soares Gomes, Zero
Fonseca, Vercebúcio de Albuquerque Melo, Holofotina Bezerra, Luar Lopes de Azevedo,
Abdoral Tomás, Alaúde da Costa Serro, Boulevard Ribeiro da Silva, Ninfa Pereira de
Oliveira, Ícaro de Castro Melo, Alintor Werneck, Almanir Grego, Dofesarlinda Elequecina
dos Santos Amador, Crivadário Moreira Damasco, Orquidéia Quaresma, Nagla Monteiro Damas,
Genaro Basse Torrado, Warteloo da Silva Landim, Nosfat Amen, Adamastor Barbosa, Heresilo
da Silva Lourenço, Ostalrich Bazain de Melo, Novembrina da Costa Martins Ferreira,
Calpurina Freire, Carauta de Bastos, Danúbio de Almeida Costa, Democracino de Andrade,
Ruisodoso Luís de Magalhães... etc. etc. dizem alguma coisa.
(Peixoto, Afrânio, Miçangas:
fama (folclore) e história. 4ª ed. Rio de Janeiro, Cátedra; Brasília, INL,
1977) |