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Ano IV - novembro 2001 - nº 39

Sua revista com a cara e a alma brasileira


SUMÁRIO - EDIÇÃO 39
FESTANÇA
CANCIONEIRO
IMAGINÁRIO
OFICINA
PALHOÇA
COLHER DE PAU
PANACÉIA

"O meio que a gente desprevenida encontrou para livrar-se desses sobressaltos e dar uma solução à freqüência dos casos foi recorrer à crendice..." Espinha de peixe, por Osvaldo Orico.

"Pelo norte do Brasil (Ceará, Piauí, Maranhão) havia e continua havendo a tradição de oferecer um jantar aos cachorros em homenagem a São Lázaro ou a São Roque..." Promessa de jantar aos cachorros, por Luís da Câmara Cascudo.

A casa das almas. A visão de João do Rio sobre a religião dos minas no Rio de Janeiro do começo do século XX.

CATAVENTO
ALMANAQUE

 

PANACÉIA - Nesta seção, textos sobre plantas medicinais; rezas; benzeduras; simpatias; crenças; superstições; amuletos; orações; devoções; magia e feitiçaria...


A CASA DAS ALMAS

João do Rio


Os negros cambindas do Rio guardam com terror a história de um branco que lhes apareceu certa vez em pleno sertão africano. Quando o rei deu por ele, que por ali vinha calmo, com as suas barbas de sol, precipitou-se mais a tribo em atitude feroz. O branco tirou da cinta um pequeno feitiço de metal e prostrou morto golfando sangue, o babalaô.

- Exu! Exu! - Ganiu a tribo, recuando de chofre.

- Quem és tu, santo que eu não conheço? - Perguntou trêmulo o poderoso rei.

- Sou o que pode tudo, - bradou o branco. - Vê.

Estendeu a mão de novo e matou outros negros.

- Só te deixarei em paz se me mostrares todos os teus feitiços.

Sua Majestade, apavorada, levou-o à tenda real e durante o dia e durante a noite, sem parar, lhe deu tudo quanto sabia.

- Perdôo-te, - disse o branco. - Adeus! Levo para o mistério a rainha.

Aconchegou o feitiço, que parecia egum, o deus da guerra, no seio da preferida, deixou-a cair, e partiu devagar pela estrada afora...

Não precisei dos meios violentos do caramuru
da África, para saber do mais terrível mistério da religião dos minas: - o egum ou evocação das almas. Naquela mesma noite em que encontra Antônio, o negro serviçal levou-me a uma casa nas imediações da praia de Santa Luzia.

- Em tudo é preciso mistério, dizia ele. V. S. vai à casa do babaloxá, finge acreditar e depois é convidado para uma cerimônia na casa das almas. Poderá então ver o segredo da pantomima. Quem descobre o segredo do egum, morre. Eu me arrisco a morrer.

A sua voz era trêmula.

- Tens medo ?

- Não, mas se morrer amanhã, todos os feiticeiros dirão que foi o feitiço. Do egum depende toda a traficância. O negro parou. Não imagina! Abubáca Caolho, que mora na rua do Rezende, é um dos tais. Quando há uma morte, vai logo dizer que foi quem a fez. Se fossemos acreditar nas suas mentiras, Abubáca tinha mais mortes no costado que cabelos na cabeça. V. S. já o viu. É um negro que usava gravata do lado e pontas
- as roupas velhas dos outros... Apotijá é outro.

- Mas há desse gênero de morte, Antônio? Indaguei eu acendendo o cigarro com um gesto shakespereano.

- Ora se há! Vou provar quando quiser. De morte misteriosa lembro a Maria Rosa Duarte, sogra do mama
Pão Baltazar, alufá muito amigo de um político conhecido; o Salvador Tápa, a Esperança Laninia, Larê-que, Fantunchê, o Jorge da rua do Estácio, Ougu-olusain... Todos morreram por ter descoberto o egum. Na Bahia, esses assassinatos são comuns. Hei de lembrar sempre o velho feiticeiro Aguidí, coitado! Era dos que sabem. Um dia, farto de viver, descobriu a traficância e logo depois morria no incêndio do Tabão, com os braços cruzados, impassível e a sorrir. Aguidí na minha língua significa: - o que quer morrer... Ele quis.

Pela praia de Santa Luzia o luar escorria silenciosamente, e de leve o vento, sacudindo as folhas das árvores em melancólico sussurro, entristecia Antônio.

- Ah! Meu senhor. Não é só por causa do egum
que negro mata.

Quando as Yauô não andam direito, quando não fingem bem, quase nunca escapam de morrer. Há vários processos de morte, a morte lenta, com beberagens e feitiços diretos, a morte na camarinha por sufocação... Muitos negros apertam uma veia que a gente tem no pescoço e dentro de um minuto qualquer pessoa está morta. Outros dependuram as criaturas e elas ficam bracejando no ar com os olhos arregalados.

A morte e a loucura nem sempre se limitam ao estreito meio dos negros.

As beberagens e o pavor atuam suficientemente nas pessoas que os freqüentam. A Assiata, uma negra baixa, fula e presunçosa, moradora à rua da Alfândega, dizem os da sua roda que pôs doida na Tijuca uma senhora distinta, dando-lhe misturadas para cesta moléstia do útero. Apotijá, o malandro da rua do Hospício, que aproveita os momentos de ócio para descompor o Brasil, tem também uma vastíssima coleção de casos sinistros.

A morte e todas as vesânias não são os sustentáculos dos seus ritos e das transações religiosas, são também o meio de vida extracultual, o processo de apanhar heranças. Alikali, lemamo atual dos alufás, e Armando Ginga, cujo nome real é Fortunato Machado, quando morre negro rico vão logo à polícia participar que não deixou herdeiros. Alikali é testamenteiro de quase todos e bicho capaz de fazer amurê
com as negras velhas, só para lhes ficar com as casas. A certidão de óbito é dada sem muitas observações.

- Mas, você conhece mais feiticeiros, Antônio?

- Pois não! O João Mussê, alufá feiticeiro tremendo, que mora na rua Senhor dos Passos 222 e é respeitado por todos; Obalei-ié, Obio, Jamin, Ochu-Toqui, Ochu Bumin, Emin-Ochun, Oumigí, Obitaiô homem, Obitaiô mulher, Ochu Taiodé, a Ochu boheió da rua do Catete, Siê, Shango-Logreti, Ajugum-barú, Eçú-hemin, Angelina, o ogan Conrado ... Mais de cem feiticeiros mais cem...

- Quase todos com os nomes dos santos...

- Os negros usam sempre o nome do santo que tem no corpo...

Mas de repente Antônio parou entre as árvores.

- Temos ebó de yê-man-já
. A negralhada vem aí ... Se quer ver, esconda-se detrás de algum tronco.

Com efeito, sentiam-se vozes surdas ao longe, cantando.

O despacho, ou ebó, da mãe d’água salgada, é um alguidar com pentes, alfinetes, agulhas, pedaços de seda, dedais, perfumes, linhas, tudo o que é feminino.

Detrás da árvore, pouco depois eu vi aparecer no plenilúnio a teoria dos pretos. À frente vinha uma com o alguidar na cabeça, e cantavam baixo.

Baô de ré se equi je-man-já
Pelé bé Apotá auo tô fym la cho
Ere ...

Era o ofertório. Ao chegar à praia, parte em que há uns rochedos, a negra desceu, depositou o alguidar. Uma onda mais forte veio, bateu, virou o vaso de barro, quebrou-o, levou as linhas, e todos balbuciaram, rojando:

- Yê-man-já!

A santa aparecera na fosforescência lunar, agradecendo... Depois os sacerdotes ergueram-se, reuniram e nós ficamos de novo sós. Enquanto o oceano rugia e, ao longe, tristemente a canzoada ladrava.

- Ainda apanhamos o candomblé, disse Antônio. É preciso que o babaloxá convide V. S. para o egum
...

Noutro dia, pouco mais ou menos à meia-noite, estávamos no ilé-saim ou casa da almas.

O egum é uma cerimônia quase pública, a que os feiticeiros convidam certos brancos para presenciar a pantomima do seu extraordinário poder. Esses curiosos fetiches, que para fazer o guincho de santo Ossaim amarram nas pernas bonecas de borrachas, com assobio; cujos santos são um produto de bebedeiras e de hipnose, têm na evocação dos espíritos a máxima encenação da sua força sobre o invisível. Quando morre alguém, quando todos estão diante do corpo, um dos pretos esconde-se e dá um grito. No meio da confusão geral, então, mudando a voz, esse negro grita:

- Emim, toculoni mopé, cá-um-pé, emim! Eu que morri hoje, quero que me chamem por mim.

Os donos do defunto arranjam o dinheiro para a evocação, pessoas estranhas ajudam também com a sua quota para aproveitar e saber do futuro. O babaloxá não faz o egum enquanto não tem pelo menos trezentos mil réis. Arranjada a quantia, começa a cerimônia.

Quando entramos na sala das almas, à luz fumarenta dos candeeiros a cena era estranha. Havia brancas, meretrizes de grandes rodelas de carmim nas faces, mulatas em camisa, mostrando os braços com desenhos e iniciais em azul dos proprietários do seu amor, e negros, muitos negros. Estes últimos, sentados em roda do assoalho, estavam quase nus, e algumas negras mesmo inteiramente nuas com os seis pendentes e a carapinha cheia de banha.

- Por que estão eles assim?

- Para mais facilmente receber o espírito.

Junto à porta do fundo, três negros de vara em punho quedavam-se estáticos. Eram os annichans, que faziam guarda ao saluin ou quarto dos espíritos. Ouvi dentro do saluin um barulho de pratos, de copos tocados, de garrafas desarrolhadas; um momento pareceu-me ouvir até o estouro forte de champanhe barato.

- Há gente lá dentro?

- As almas. Estão-se banqueteando. O banquete foi pago pelos presentes. Mas, psiu! Daqui a pouco começarão as cantigas, que ninguém compreende. Os africanos inventam nomes para a cena parecer mais fantástica.

Com efeito, minutos depois, aos primeiros sons dos atabaques, as negras bradaram:

- Aluá! O espírito! E romperam uma cantiga assustadora e trôpega.

Anu-há, a o ry au od á
San-ná-elê-o ou baba
Locá-aló


A porta continuava fechada, mas eu vi surgir de repente um negro vestido de dominó com os pés amarrados em panos. Os três annichans ergueram as varas, o dominó macabro começou a bater a sua no chão, os xeguedês sacudiram-se, e outra cantiga estalou medrosa:

Lou-â gége ou-rou ó uá
Xó la-ry la-ry lary
Que què oura ô uchô
La-ry la mamau rú nam babâ


Quando o santo as pulos aproximava-se de alguma mulher, ela recuava bradando com desespero:

- Afapão!

-
Vão aparecer as almas, avisou Antônio, a cantiga diz: Procuramos a alma de Fulano e de Sicrano e não a encontramos dormindo. Cansamos sem saber o mistério que a envolvia. A alma está aqui e entrou pela porta do quintal.

- Mas quem é este dominó?

- É Baba-Egum. As almas têm vários cargos. O que traz uma gamela chama-se Ala-té-orum, o 2º Opocó-echi, o 3º Eguninhansan, e o no meio de sete espíritos aparece o invocado.

Entretanto o dominó Baba-Egum batia furiosamente no chão com a sua vara de marmelo, e no alarido aumentado apareceu aos pulos outro dominó, o Alabá que por sua vez também se pôs a bater. Era o ritual da entrega das almas. Por fim apareceu Ousaim, enfiado numa fantasia de bebê, de xadrez variado, com duas máscaras: uma nas costa, outra tapando o rosto.

- Quem é esse?

- O Bonifácio da Piedade, em malandro de cavaignac, que faz sempre de Eruosaim.

Eruosaim
também dançava. Entre as cantigas, os annichans ergueram de novo as varas, a porta abriu-se, dois negros ficaram um de cada lado, o atafim, ou confidente, e o anuxam, secreta. De dentro saíram mais três dominós cheios de figas e espelhinhos, com os pés embrulhados nos trapos. As negras aterrorizadas uivam, com o amarelo dos olhos virados e os espíritos, naquela algazarra, pareciam cambalear. Havia gente porém que os reconhecia.

- Eles fingem os gestos dos mortos, segredou-me Antônio.

Palmas ressoavam estridentes saudando a chegada do invisível, as varas de marmelo lanhavam o ar e as almas, e naquele círculo silvante, ao som dos xequedês e dos atabaques batiam surdamente no chão aos pulos da dança demoníaca.

Um dos espíritos, porém, sentou-se numa espécie de trono de mágica. Como por encanto a dança cessou e naquela pávida atmosfera, em que o medo gemia as mulheres de borco, os homens contorcionados, o negro fantasiado guinchou do alto.

- Guilherme ocê percisa gostá de Antônio ... José tem que fazê ebô para espírito mau.

Chica, um home há de vi aí, ocê vai com ele ...

- Veja V. S. a chantage, murmurou Antônio. Os negros recebem dinheiro antes dos homens e obrigam as criaturas pelo terror a tudo quanto quiserem. Por isso quem descobre o egum, morre.

A Chica, uma mulatinha, coitada! Tremia convulsivamente, ma já outras, nuas, em camisa, sacudindo os membros lassos, ganiam de longe, batendo as varas num terror exaustivo.

- E eu? E eu?

- E eu? E eu?

- Ocê tá dereita, sua vida vai prá frente.

- E eu? E eu? Gorgolejaram outras bocas em estertores.

- Ocê está prá traz, percisa ebô.

Aproximei-me de um dos espíritos; cheirava a espírito de vinho; estava literalmente bêbedo.

Quando a cerimônia atingia ao desvario e já os espíritos tinham pastosidade na voz, caiu na sala, como um bedengó, Inhansam, um negro fingindo de santo materializado e, em meio do pavor geral, ao som das cantigas, esticou a mão sinistra, foi pedindo a cada criatura 16 obis, 16 orobôs, 16 galos, 16 galinhas, 16 pimentas da costa, 16 mil réis, um cabrito, um carneiro. Ao chegar às meretrizes brancas, Inhansam ferozmente exigia peças de chita, fazendas e objetos caros. A turba gritava toda: Inhansam! Inhansam! Gente nova entrava na sala, e de repente, como todos se voltassem a um grito da porta, os espíritos desapareceram... Tinham fugido tranqüilamente pelo corredor.

- Está acabado, - fez Antônio. - Os espíritos vão se despir, e voltam daí a pouco para ver se o pessoal acreditou mesmo ...

A cena mudara entretanto. Dissipado o sudário apavorado, todas aquelas carnes hiperestizadas erguiam-se ainda vibrantes para o bacanal.

O álcool e a queda na realidade estabeleciam o desejo. Negros arrastavam-se para o quintal, para os cantos, longos sorrisos lúbricos abriam em bocejos as bocas espumantes, risinhos rebentavam e negros fortes, estendidos no chão, rolavam as cabeças numa sede de gozo.

Há entre as negras uma propensão sinistra para o tribadismo. Em pouco, naquela camisola suja e mal cheirosa, eu via como uma caricatura horrenda as cenas de deboche dos romances históricos em moda. Mais dois negros entraram.

- Então egum esteve bom?

- E eu que não cheguei em tempo ...

- Veja, mostrou Antônio, lá está o Bonifácio Eruousaim, vendo se causou efeito fantasiado de bebê. Venha até o quarto do banquete.

Fomos. Antônio empurrou uma porta e logo nos achamos numa sala com garrafas pelo chão, pratos servidos, copos entornados, rolhas, os destroços de uma fome voraz. Num canto a Chica dizia baixinho para um lindo rapaz de calças bombachas:

- É você que o espírito disse? ...

Quando reaparecemos, o babaloxá murmurava:

- A festa está acabada, companheiros... É não deixar de trazer o que Inhansam pediu.

Saímos então. Vinha pelo céu raiando a manhã. Palidamente, na calote cor de pérola, as estrelas tremiam e desmaiavam. Antônio cambaleava. Chamei um carro que passava, meti-o dentro. Em torno tudo dizia o mistério e a incompreensão humana, o éter puro, os vagalhões do mar, as árvores calmas. Tinha a cabeça oca, e, apesar dos assassinatos, dos roubos, da loucura, das evocações sinistras, vinha da casa das almas julgando babalaôs, babaloxás, mãe-de-santo e feiticeiros os arquitetos de uma religião completa. Que fazem esses negros mais do que fizeram todas as religiões conhecidas?

O culto precisa de mentiras e de dinheiro. Todos os cultos mentem e absorvem dinheiro. Os que nos desvendaram os segredos e a maquinação morreram. Os africanos também matam.

E eu, perdoando o crime desse sacerdócio mina, que se impõe e vive regaladamente, tive vontade de ir entregar Antônio negro e a dormir à casa de Ojò para que nunca mais desvendasse a ninguém o sinistro segredo da casa das almas.


(João do Rio. As religiões no Rio. Rio de Janeiro, Edição da Organização Simões, 1951)

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