
"O meio que a gente desprevenida
encontrou para livrar-se desses sobressaltos e dar uma solução à freqüência dos casos
foi recorrer à crendice..." Espinha de peixe, por Osvaldo
Orico.
"Pelo norte do Brasil (Ceará, Piauí, Maranhão) havia e continua
havendo a tradição de oferecer um jantar aos cachorros em homenagem a São Lázaro ou a
São Roque..." Promessa de jantar aos cachorros, por Luís
da Câmara Cascudo.
A casa das almas. A visão de João do Rio sobre a religião dos
minas no Rio de Janeiro do começo do século XX.
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| PANACÉIA - Nesta seção, textos sobre
plantas medicinais; rezas; benzeduras; simpatias; crenças; superstições; amuletos;
orações; devoções; magia e feitiçaria... |
PROMESSA DE JANTAR AOS CACHORROS |
Todos nós, católicos, sabemos que muitos santos de especial predileção popular têm
animais como companheiros. São Lázaro e São Roque, por exemplo, têm cães. Os dois
cachorros são inseparáveis dos dois grandes oragos, nas boas horas do Paraíso e nos
momentos cruéis da provação terrena.
São Lázaro e São Roque são defensores contra lepra, úlceras, feridas, dermatoses e
mais agonias da pele humana.
Cremos nós, o povo, que o melhor caminho é ainda o agrado. E nada poderá agradar melhor
ao santo que uma carícia ao seu cachorro fidelíssimo. A carícia lógica e natural para
um cão será um bom prato de carne, ou um osso substancial. Não podemos comparar ao
afago, bem inferior para a espécie raciocinadora da "gens" canina. E mesmo
"sapiens"...
Qualquer livrinho velho recordará que os deuses, quando eram deuses, possuíam seus
animais votivos, recebendo-os em sacrifício. Também esses animais, pertencentes
simbolicamente aos deuses, tinham tratamento especial e eram alimentados com abundância e
respeito.
Oferecer alimentação aos deuses foi certamente uma das mais antigas formas de oblação.
Na Grécia e em Roma, havendo calamidade incessante, um grande e supremo remédio era
oferecer um banquete aos deuses e deusas. Estendiam dentro ou nos átrios dos templos os
leitos ou os assentos, e traziam as imagens ou representações, para que participassem da
refeição. Era o Lectistérnio ou o Selistérnio, em Roma, ou a Teoxenia grega. Ainda
hoje, nos cultos africanos dos Iurubanos, vivos e poderosos no Brasil (Bahia, Recife, Rio
de Janeiro, etc.), os deuses negros, os orixás, recebem comida votiva e própria para
cada um, e nos dias distintos. Jamais um babalorixá, mestre ou pai de terreiro,
enganar-se-á, dando a Xangô o que é devido a Iemanjá, ou a Ogum o que pertence a
Nansburucu.
O Zeus olímpico lembrava em Homero (Íliada, IV, 48-49) a alegria de ver o altar
cheio de libações e olente gordura. Em Hesíodo, Zeus lamenta haver cedido aos devotos a
parte mais suculenta das oferendas (Teogonia, 535 etc.).
Pelo norte do Brasil (Ceará, Piauí, Maranhão) havia e continua havendo a tradição de
oferecer um jantar aos cachorros em homenagem a São Lázaro ou a São Roque. É promessa
que se cumpre, rigorosamente, quando o santo atende às súplicas e cura uma úlcera
reimosa ou obstinada em supurar e doer.
O mais antigo registro fê-lo Rodrigues de Carvalho, Cancioneiro do norte, com o
título de "Promessa a São Lázaro":
"Esta promessa consiste no que vou relatar: Sarada a ferida, a pessoa prepara um
grande jantar, como se fora para pessoas distintas; mesa, toalha, copos, talheres, enfim
nada é esquecido, assim como as melhores iguarias, doces de diversas frutas e bebidas de
diversas qualidades, sobressaindo, entre todos, o aluá. Depois de estar tudo pronto,
manda convidar os vizinhos e seus cachorros. Chegados ao local onde está preparado o
jantar, assentam-se à mesa... os cachorros, sendo servidos com toda a etiqueta por seus
próprios donos. Depois que os tais convivas acabam de comer e que nada mais desejam é
que as pessoas convidadas sentam-se à mesa, para fazerem por sua vez uma larga
refeição.
À noite os convidados se reúnem no terreiro da casa com os conhecidos das vizinhança
para o samba e para a bebedeira, que deve durar até o amanhecer. Esta é uma entre as
muitas excentricidades do povo de Uruburetama (Ceará), segundo fui informado; verdade é
que não se sabe onde teve origem. Em São Francisco foi onde se tornou mais comum este
uso, havendo pessoas que celebram esta festa anualmente, e só por devoção".
O São Francisco, citado por Rodrigues de Carvalho, corresponde ao atual município de
Itapagé, no Ceará.
Getúlio César fixou a devoção curiosa em Amarração, no Piauí. No seu Crendices
do Nordeste narra o episódio. Denomina-o "Mesa de São Lázaro":
"Dessas abusões está cheio o nosso Brasil. Em Amarração, Piauí, foi-me dado
presenciar um jantar deveras extravagante. Uma senhora, adoecendo de uma ferida, depois de
grandes lutas para obter a cura, lembrou-se, um dia, de recorrer a São Lázaro e São
Roque, prometendo aos mesmos santos um lauto jantar aos cachorros da redondezas, caso
ficasse curada.
Tempos depois, verificando-se a cura, efetuou ela o pagamento da promessa. Uma tarde, em
frente de casa, com o terreiro varrido, uma grande toalha estendida sobre o mesmo e orlada
de pratos cheios de carne, chegaram os inúmeros convidados dando início ao banquete
solene. Mas, em meio da festa, o jantar degenerou em tremenda luta entre os comensais,
querendo uns abocanhar os outros, e assim foi-se em estilhaços a maioria dos pratos. A
festa depois de afastados os cães, prolongou-se até alta madrugada, em remexidas
contradanças, ao som de afinada sanfona".
Astolfo Serra registrou semelhantemente o fato no Maranhão, no seu Terra enfeitada e
rica. É também "Mesa de São Lázaro":
"Para curar feridas brabas, doenças de pele, ou para livrar-se a gente delas, São
Lázaro existe no céu, manda, na terra, os seus amigos, os cachorros, lamber feridas e
curá-las com a saliva canina. O cão tornou-se por isso o animal sagrado de São Lázaro,
como já o fora de São Bernardo. A fé arde sincera nessas almas ingênuas e as promessas
são cumpridas à risca, com toda a solenidade possível. Em que consistem? Nas mesas de
São Lázaro.
É um acontecimento na localidade. Convidam-se todos os cães da redondeza. Nesse dia
cachorro passa bem. Ninguém lhes dá pancada. São lavados com sabão. Penteados.
Enfeitados com laços de fita ao pescoço. À hora da ceia, os donos trazem os animais
para a promessa. No chão varrido, põe-se uma toalha de mesa bem engomada; pratos limpos
são também postos ali. E a melhor comida, o melhor quitute são colocados nos pratos
para os cães.
Não falta o vinho tinto, nem o doce especial para a sobremesa. O beneficiado pelo
milagre, o que recebeu a graça do santo, vem também comer com os cachorros e a ceia,
assim, se inicia por entre a gula brutal da canzoada e por entre as músicas que
acompanham a festa alegremente. O fim de toda essa festa é sempre uma briga medonha de
cachorros, que devoram tudo e espatifam os pratos, mas nem por isso deixam os donos da
festa de se sentirem satisfeitos. Depois que os cães devoram a ceia é que o povo começa
a tomar parte no jantar, comendo, ao menos intencionalmente com a canzoada."
Nenhum outro companheiro de santo mereceu essa homenagem gastronômica. O cavalo branco do
prestigiadíssimo São Jorge está inteiramente arredado das promessas.
Certo, na "mesa de São Lázaro", sente-se que o cão é um agente curativo e,
há dezenas de séculos, cita-se a função terapêutica de sua língua. Mas os doentes
pagam a promessa aos cachorros da intervenção direta dos oragos. O cão não chega, na
maioria dos casos, a usar do seu processo. Deve-se juntar à idéia da companhia ao santo
a tradição milenar que haloa o animal, história complexa em tantas religiões, dando o
cão como espírito dedicado, amigo dos deuses, um legítimo "candidato à
Humanidade", como dizia Michelet.
Companheiro de São Lázaro e São Roque, naturalmente quem maltrata ou mata um cão deve
uma alma aos seus santos protetores.
O senhor Daniel Gouveia, no Folclore brasileiro, informa:
"Não se deve cuspir nos cães, porque depois de nossa morte, na longa travessia que
se fará até chegar à casa de São Miguel, onde serão julgadas as nossas almas,
sentimos uma grande sede e neste longo percurso só encontraremos a casa de São Lázaro;
aí, se não cuspimos nos cães, somos servidos com água boa e fria, e, ao contrário,
somos acossados por dentadas implacáveis..."
Não cabe aqui tratar do cão (Dicionário do folclore brasileiro, 152-153,
Instituto Nacional do Livro, Rio de Janeiro, 1954; (Anubis e outros ensaios, Anubis, ou
o culto do morto; A viagem para o outro mundo, 24, Edições "O Cruzeiro",
Rio de Janeiro, 1951). Estudei o assunto do Cão e sua presença na cultura etnográfica.
Nas "promessas", o cão é, apenas, uma projeção da fidelidade devota ao santo
que possibilita o milagre. A promessa não é feita ao cachorro e sim a São Lázaro ou a
São Roque. Paga-se, materialmente, dando de comer aos cães, em dia escolhido e votivo, e
com esmerada cerimônia culinária.
Não conheço em Portugal ou na Espanha, fontes ricas de nossa Etnografia e do nosso
folclore brasileiro, alguma reminiscência no sentido da promessa religiosa paga a um
animal. Nem existe a tradição para o sul nem para o centro do Brasil. Aparecendo em
alguma dessas regiões, deduzir-se-á que um nordestino foi o portador da crendice.(CASCUDO, Luís da Câmara. Superstições
e costumes; pesquisas e notas de etnografia brasileira. Rio de Janeiro, Antunes
& Cia. Ltda., 1958) |
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