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Ano IV - novembro 2001 - nº 39

Sua revista com a cara e a alma brasileira


SUMÁRIO - EDIÇÃO 39
FESTANÇA
CANCIONEIRO
IMAGINÁRIO
OFICINA
PALHOÇA
COLHER DE PAU
PANACÉIA

"O meio que a gente desprevenida encontrou para livrar-se desses sobressaltos e dar uma solução à freqüência dos casos foi recorrer à crendice..." Espinha de peixe, por Osvaldo Orico.

"Pelo norte do Brasil (Ceará, Piauí, Maranhão) havia e continua havendo a tradição de oferecer um jantar aos cachorros em homenagem a São Lázaro ou a São Roque..." Promessa de jantar aos cachorros, por Luís da Câmara Cascudo.

A casa das almas. A visão de João do Rio sobre a religião dos minas no Rio de Janeiro do começo do século XX.

CATAVENTO
ALMANAQUE

 

PANACÉIA - Nesta seção, textos sobre plantas medicinais; rezas; benzeduras; simpatias; crenças; superstições; amuletos; orações; devoções; magia e feitiçaria...


PROMESSA DE JANTAR AOS CACHORROS

Luís da Câmara Cascudo


Todos nós, católicos, sabemos que muitos santos de especial predileção popular têm animais como companheiros. São Lázaro e São Roque, por exemplo, têm cães. Os dois cachorros são inseparáveis dos dois grandes oragos, nas boas horas do Paraíso e nos momentos cruéis da provação terrena.

São Lázaro e São Roque são defensores contra lepra, úlceras, feridas, dermatoses e mais agonias da pele humana.

Cremos nós, o povo, que o melhor caminho é ainda o agrado. E nada poderá agradar melhor ao santo que uma carícia ao seu cachorro fidelíssimo. A carícia lógica e natural para um cão será um bom prato de carne, ou um osso substancial. Não podemos comparar ao afago, bem inferior para a espécie raciocinadora da "gens" canina. E mesmo "sapiens"...

Qualquer livrinho velho recordará que os deuses, quando eram deuses, possuíam seus animais votivos, recebendo-os em sacrifício. Também esses animais, pertencentes simbolicamente aos deuses, tinham tratamento especial e eram alimentados com abundância e respeito.

Oferecer alimentação aos deuses foi certamente uma das mais antigas formas de oblação. Na Grécia e em Roma, havendo calamidade incessante, um grande e supremo remédio era oferecer um banquete aos deuses e deusas. Estendiam dentro ou nos átrios dos templos os leitos ou os assentos, e traziam as imagens ou representações, para que participassem da refeição. Era o Lectistérnio ou o Selistérnio, em Roma, ou a Teoxenia grega. Ainda hoje, nos cultos africanos dos Iurubanos, vivos e poderosos no Brasil (Bahia, Recife, Rio de Janeiro, etc.), os deuses negros, os orixás, recebem comida votiva e própria para cada um, e nos dias distintos. Jamais um babalorixá, mestre ou pai de terreiro, enganar-se-á, dando a Xangô o que é devido a Iemanjá, ou a Ogum o que pertence a Nansburucu.

O Zeus olímpico lembrava em Homero (Íliada, IV, 48-49) a alegria de ver o altar cheio de libações e olente gordura. Em Hesíodo, Zeus lamenta haver cedido aos devotos a parte mais suculenta das oferendas (Teogonia, 535 etc.).

Pelo norte do Brasil (Ceará, Piauí, Maranhão) havia e continua havendo a tradição de oferecer um jantar aos cachorros em homenagem a São Lázaro ou a São Roque. É promessa que se cumpre, rigorosamente, quando o santo atende às súplicas e cura uma úlcera reimosa ou obstinada em supurar e doer.

O mais antigo registro fê-lo Rodrigues de Carvalho, Cancioneiro do norte, com o título de "Promessa a São Lázaro":

"Esta promessa consiste no que vou relatar: Sarada a ferida, a pessoa prepara um grande jantar, como se fora para pessoas distintas; mesa, toalha, copos, talheres, enfim nada é esquecido, assim como as melhores iguarias, doces de diversas frutas e bebidas de diversas qualidades, sobressaindo, entre todos, o aluá. Depois de estar tudo pronto, manda convidar os vizinhos e seus cachorros. Chegados ao local onde está preparado o jantar, assentam-se à mesa... os cachorros, sendo servidos com toda a etiqueta por seus próprios donos. Depois que os tais convivas acabam de comer e que nada mais desejam é que as pessoas convidadas sentam-se à mesa, para fazerem por sua vez uma larga refeição.

À noite os convidados se reúnem no terreiro da casa com os conhecidos das vizinhança para o samba e para a bebedeira, que deve durar até o amanhecer. Esta é uma entre as muitas excentricidades do povo de Uruburetama (Ceará), segundo fui informado; verdade é que não se sabe onde teve origem. Em São Francisco foi onde se tornou mais comum este uso, havendo pessoas que celebram esta festa anualmente, e só por devoção".

O São Francisco, citado por Rodrigues de Carvalho, corresponde ao atual município de Itapagé, no Ceará.

Getúlio César fixou a devoção curiosa em Amarração, no Piauí. No seu Crendices do Nordeste narra o episódio. Denomina-o "Mesa de São Lázaro":

"Dessas abusões está cheio o nosso Brasil. Em Amarração, Piauí, foi-me dado presenciar um jantar deveras extravagante. Uma senhora, adoecendo de uma ferida, depois de grandes lutas para obter a cura, lembrou-se, um dia, de recorrer a São Lázaro e São Roque, prometendo aos mesmos santos um lauto jantar aos cachorros da redondezas, caso ficasse curada.

Tempos depois, verificando-se a cura, efetuou ela o pagamento da promessa. Uma tarde, em frente de casa, com o terreiro varrido, uma grande toalha estendida sobre o mesmo e orlada de pratos cheios de carne, chegaram os inúmeros convidados dando início ao banquete solene. Mas, em meio da festa, o jantar degenerou em tremenda luta entre os comensais, querendo uns abocanhar os outros, e assim foi-se em estilhaços a maioria dos pratos. A festa depois de afastados os cães, prolongou-se até alta madrugada, em remexidas contradanças, ao som de afinada sanfona".

Astolfo Serra registrou semelhantemente o fato no Maranhão, no seu Terra enfeitada e rica. É também "Mesa de São Lázaro":

"Para curar feridas brabas, doenças de pele, ou para livrar-se a gente delas, São Lázaro existe no céu, manda, na terra, os seus amigos, os cachorros, lamber feridas e curá-las com a saliva canina. O cão tornou-se por isso o animal sagrado de São Lázaro, como já o fora de São Bernardo. A fé arde sincera nessas almas ingênuas e as promessas são cumpridas à risca, com toda a solenidade possível. Em que consistem? Nas mesas de São Lázaro.

É um acontecimento na localidade. Convidam-se todos os cães da redondeza. Nesse dia cachorro passa bem. Ninguém lhes dá pancada. São lavados com sabão. Penteados. Enfeitados com laços de fita ao pescoço. À hora da ceia, os donos trazem os animais para a promessa. No chão varrido, põe-se uma toalha de mesa bem engomada; pratos limpos são também postos ali. E a melhor comida, o melhor quitute são colocados nos pratos para os cães.

Não falta o vinho tinto, nem o doce especial para a sobremesa. O beneficiado pelo milagre, o que recebeu a graça do santo, vem também comer com os cachorros e a ceia, assim, se inicia por entre a gula brutal da canzoada e por entre as músicas que acompanham a festa alegremente. O fim de toda essa festa é sempre uma briga medonha de cachorros, que devoram tudo e espatifam os pratos, mas nem por isso deixam os donos da festa de se sentirem satisfeitos. Depois que os cães devoram a ceia é que o povo começa a tomar parte no jantar, comendo, ao menos intencionalmente com a canzoada."

Nenhum outro companheiro de santo mereceu essa homenagem gastronômica. O cavalo branco do prestigiadíssimo São Jorge está inteiramente arredado das promessas.

Certo, na "mesa de São Lázaro", sente-se que o cão é um agente curativo e, há dezenas de séculos, cita-se a função terapêutica de sua língua. Mas os doentes pagam a promessa aos cachorros da intervenção direta dos oragos. O cão não chega, na maioria dos casos, a usar do seu processo. Deve-se juntar à idéia da companhia ao santo a tradição milenar que haloa o animal, história complexa em tantas religiões, dando o cão como espírito dedicado, amigo dos deuses, um legítimo "candidato à Humanidade", como dizia Michelet.

Companheiro de São Lázaro e São Roque, naturalmente quem maltrata ou mata um cão deve uma alma aos seus santos protetores.

O senhor Daniel Gouveia, no Folclore brasileiro, informa:

"Não se deve cuspir nos cães, porque depois de nossa morte, na longa travessia que se fará até chegar à casa de São Miguel, onde serão julgadas as nossas almas, sentimos uma grande sede e neste longo percurso só encontraremos a casa de São Lázaro; aí, se não cuspimos nos cães, somos servidos com água boa e fria, e, ao contrário, somos acossados por dentadas implacáveis..."

Não cabe aqui tratar do cão (Dicionário do folclore brasileiro, 152-153, Instituto Nacional do Livro, Rio de Janeiro, 1954; (Anubis e outros ensaios, Anubis, ou o culto do morto; A viagem para o outro mundo, 24, Edições "O Cruzeiro", Rio de Janeiro, 1951). Estudei o assunto do Cão e sua presença na cultura etnográfica. Nas "promessas", o cão é, apenas, uma projeção da fidelidade devota ao santo que possibilita o milagre. A promessa não é feita ao cachorro e sim a São Lázaro ou a São Roque. Paga-se, materialmente, dando de comer aos cães, em dia escolhido e votivo, e com esmerada cerimônia culinária.

Não conheço em Portugal ou na Espanha, fontes ricas de nossa Etnografia e do nosso folclore brasileiro, alguma reminiscência no sentido da promessa religiosa paga a um animal. Nem existe a tradição para o sul nem para o centro do Brasil. Aparecendo em alguma dessas regiões, deduzir-se-á que um nordestino foi o portador da crendice.

(CASCUDO, Luís da Câmara. Superstições e costumes; pesquisas e notas de etnografia brasileira. Rio de Janeiro, Antunes & Cia. Ltda., 1958)

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